Um papo sobre o mapa de Machado de Assis me leva a Caio Fernando Abreu e a seu fascínio pela astrologia
Ontem eram quase onze da noite e eu conversava com uma amiga sobre o mapa astral de Machado de Assis. O papo surgiu meio que por acaso, naquele movimento da conversa fiada: um tema puxa o outro até que, de repente, já nem sabemos como e por que chegamos ali.
Machado é um caso curioso. Nasceu na cúspide entre Gêmeos e Câncer, ou seja, na virada entre os dois signos. Segundo a astrologia, isso lhe conferiria traços geminianos e também cancerianos. Ao mesmo tempo.
Tinha o ascendente em Leão, como eu, e Lua em Libra. Mas não há notícias de que se interessasse pelos astros. Parece pouco provável, visto seu notório ceticismo. O saber zodiacal, contudo, foi matéria para outros escritores. Talvez o caso mais conhecido seja o do poeta Fernando Pessoa, que estudou profundamente os signos, fazia as próprias revoluções solares e chegou a elaborar os mapas de seus heterônimos.
No Brasil, há um exemplo menos conhecido, mas igualmente interessante: o de Caio Fernando Abreu. Fascinado por astrologia desde cedo, ele teve aulas nos anos 1970 com a alemã Emma de Mascheville, uma figura que se tornou mítica em Porto Alegre e referência para aquele jovem autor. Emma nasceu na Baviera e, ainda bem nova, viveu numa das primeiras comunidades espiritualistas e naturistas da Europa. Dessa comunidade, que ficava no Monte Verità, parte da Suíça italiana, participaram também escritores como Hermann Hesse e Stefan Zweig.
Mas voltemos ao Caio. O aprofundamento no assunto, fruto das lições com Emma e de muita leitura, fez com que passasse a desenhar o mapa astral das pessoas próximas — uma delas, a escritora Hilda Hilst. Acabaria vazando também para seus livros. Algumas vezes, com menções a signos, como na crônica “Zero grau de Libra”. Noutras, a trânsitos astrológicos, que não só regem a história narrada como lhe dão título. O clássico Morangos mofados, por exemplo, traz os contos “O dia em que Urano entrou em Escorpião” e “O dia em que Júpiter encontrou Saturno”. Em ambos, a configuração astral é a chave para os acontecimentos.
Caio levaria essa aproximação ao paroxismo em Triângulo das águas, lançado um ano depois e, não à toa, dedicado a Emma. O livro reúne três longos contos, que chamava de “noturnos”. Cada qual é estruturado segundo o arquétipo de um signo de água. Não como alegoria, mas como arquitetura emocional e narrativa.
Em “Dodecaedro”, que dialoga com Peixes, acompanhamos o grupo reunido numa chácara durante o Carnaval. São 12, os personagens, assim como os signos. Temerosos em sair por medo dos cachorros bravos que cercam o local, eles se veem envoltos numa tensão crescente. As reações variam e cada um dá sua visão particular daquela instável situação, o que será complementado por uma 13ª voz, que parece procurar sentido em meio ao esfacelamento geral.
“O marinheiro” nos traz o arquétipo de Escorpião a partir da história de um homem solitário que pinta as janelas de casa para se afastar do mundo. Certo dia, ele recebe a visita de um enigmático marinheiro. O viajante vai lhe contar sobre suas andanças pelo mundo, num contraste com aquele isolamento autoimposto. Logo saberemos que o homem sofre por um antigo amor, está preso no passado. A chegada do marinheiro vai reintroduzir o movimento em uma vida estagnada.
O livro é encerrado com o conto “Pela noite”, um dos mais célebres de Caio. A trama se passa em apenas uma madrugada, em que dois homens, Pérsio e Santiago, cruzam as ruas de São Paulo entre copos de cerveja, champagne, cachaça e uísque, intercalados com outras drogas. Ao longo do percurso, falam sobre frustrações, desejos e a ânsia pelo idílio amoroso. É um diálogo franco que expõe, no plano interno, o labirinto em que se veem enredados — e a procura por abrigo.
Assim, Caio fecha o ciclo proposto. Em “Dodecaedro” (Peixes), a convivência se fragmenta e as identidades se esfarelam, tornando as relações porosas, pouco nítidas. A narrativa de “O marinheiro” (Escorpião) é pura intensidade, uma radical recusa à superfície, e a presença do mar, ainda que no discurso, sublinha essa dobra entre profundidade e possibilidade de navegação. “Pela noite” (Câncer), por fim, encena a busca por um porto seguro (um lar?) em meio à deriva. Da desagregação vamos à morte, ainda que simbólica. E dessa morte à reconstrução, para então vivermos tudo de novo.
O papo sobre Machado acabou por me levar ao Caio. Tão perto, tão longe. Também no mapa astral: o autor gaúcho era virginiano, com ascendente em Escorpião e Lua em Capricórnio.
Marcelo Moutinho
É autor de 13 livros, sendo o mais recente a coletânea de contos “Gentinha” (Record, 2026). Conquistou o Prêmio Jabuti 2022 na categoria Crônica, com “A lua na caixa d’água” (Malê), e o Prêmio Clarice Lispector 2017, da Fundação Biblioteca Nacional, com os contos de “Ferrugem” (Record). Entre suas obras, estão ainda “O último dia infância” (Malê, 2025), “Rua de dentro" (Record, 2020), “A palavra ausente” (Malê, 2022) e a biografia "Estrela de Madureira – A trajetória da vedete Zaquia Jorge, por quem toda a cidade chorou” (Record, 2024).