O Rosa um íntimo, um aparato disposto à inspiração de outros sistemas de exegese e aplicabilidade para desdobramentos de significações. O Rosa mecanismo, catedral bizantina, o primeiro Rosa a gente nunca esquece. Foi A Hora e a Vez de Augusto Matraga para um jovenzinho urbano sob o regime militar e aprendendo o que era “Estado de Direito”. Hoje o Rosa soa instrumento de trabalho, uma disciplina para quem vive para a literatura, serve-se dele demiurgo, vivenciando a curtição da linguagem, essa tentativa quando se esboça o pós-humano. O Rosa lia poesia, escrevia-a sôfrego; poetas têm uma leitura deleuziana, transversal desde a gênese de qualquer Rosa. Inevitável remeter ao Faulkner certeiro: “O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo, no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor.”

Nada das analogias Rosa e Joyce ou Faulkner; Rosa outra coisa, compósitos diversos, perspectiva num transe só possível num anunciado quinto império. Na desordem aparente, uma ordem intrínseca em cada Rosa relido. Gosto que me enrosco sem Rosa B: píncaros e vales íngremes neste momento em que aqui escrevo, depois de ter revisitado O cavalo que bebia cerveja. Faltava-nos uma biografia caudalosa, e nada de atribuir influxo de Saint-Beuve ao deparar o voo rasante e sondagens em terreno movediço de Leonencio Nossa no alentado retrato saído pela Nova Fronteira.

Não se trata de necessidade de “gossips”, nem um caramelado retrato em preto e branco. Nossa nos dá um painel multifacetado do como e dos porquês, além dos insondáveis dons genéticos do artista para seu obsessivo denodo em escrever preciosamente. Rosa padeceu das “contaminações virtuosas” do meio mágico, da mítica na porta do armazém, no arrastar do gado rangente, na sacralização do cotidiano que, não fosse Rosa, teríamos perdido na sua rutilância. Ficamos sabendo que Rosa gostava de rádio e telenovela, mas Wittgenstein não adorava assistir a Carmen Miranda ou Mickey Mouse? São fait divers respingando apenas na fundamental observação do modus operandi e gênese na efetuação dos principais textos da catedral rosiana.

Na página 211 temos uma prova da utilidade da veiculação do escritor que se correspondia com colegas e críticos literários de todo o país. Em epístola ao crítico cearense Joaquim Braga Montenegro, ele discorre sobre os benefícios da “maturação” do processo criativo até o ponto certo do resultado “redondo”, até o “opus” eficiente em forma e conteúdo: “Tenho a necessidade orgânica de deixar repousar o que escrevo, durante meses, para retomar depois como coisa alheia, impessoal, retrabalhando a frio o que foi feito a quente. Assim, meus livros levarão anos para ficarem prontos.” E segue redarguindo: “Arranjei, porém, uma solução, um estratagema, para não perder tempo: enquanto um rascunho estiver na gaveta (como o whiskey no barril de madeira, a envelhecer e amadurecer o gosto), irei atacando outro, e ainda outro, se houver folga.”

Leonencio dá-nos substrato vasto a repensar nossos caminhos literários, o depauperamento conteudal do romance brasileiro e a ausência de ousadia, de espanto ao ofício da escritura feito exegese e sobreposição do real. Lembrei muito da polêmica em torno das declarações da grande mestra uspiana Aurora Bernardini ao questionar “Torto Arado” e as obras da italiana Elena Ferrante e da francesa Annie Ernaux como literatura no sentido maior de Barthes, para citar um só teórico. Literatura que inventa, joga, produz novos perceptos sígnicos e substanciais.

A página 212 contém todos os elementos constitutivos de uma literatura de invenção que ansiamos, numa carta enviada ao seu tio Vicente, o “intelectual” da família de Cordisburgo: “Toda arte, de agora em diante, terá de ser, mais e mais, construção literária. Já entramos nos tempos novos, já estamos reabilitando a arte, depois de longo e infeliz período de relaxamento, de avacalhação da língua, de desprestígio de estilo, de primitivismo fácil e de mau gosto.” Um manifesto que soa ingênuo pelo precipitado triunfalismo diante das platitudes renitentes.

Segue o gênio de dedo em riste, num caso raro de sinceridade num país acomodatício. Escreve Nossa: “Sem meias-palavras, Rosa afirmava que não estava interessado em escrever para o ‘leitor assíduo’, pelo menos no sentido ‘vulgar’. ‘O leitor assíduo lerá Érico Veríssimo. Madame Leandro Dupré….'” Rosa se contrapunha ao discurso “estorioso”, o roteirístico linear, à estória por si só em detrimento da curtição da linguagem. Não que não leiamos uma boa estória, mas é preciso distinção.

Rosa exultava ao ser chancelado por uma nova geração de críticos capitaneados por Antonio Candido, pontificando na já célebre “carta ao tio”: “A palavra de ordem é construção, aprofundamento, elaboração cuidadosa e dolorosa da ‘matéria-prima’ que a inspiração fornece, artesanato!” Segue agora Leonencio o raciocínio da defesa do mestre por companheiros de viagem dessa literatura propugnada: “Rosa procurava divulgar para os amigos cartas ou críticas que falavam de uma nova geração que incluía Clarice Lispector, Breno Accioly, João Cabral de Melo Neto e a portuguesa Agustina Bessa-Luís. Todos tinham em comum a tentativa de fugir do realismo socialista, da literatura engajada, e entrar em labirintos psicológicos e de narrativa.”

Não foram poucos os gigantes esquecidos desse naipe: Lúcio Cardoso, Otávio de Faria, Dalcídio Jurandir e o poeta Eugênia Sereno, submersos à espera de um esforço de arqueologia literária. Saída pela histórica Nova Fronteira, a biografia, ainda que possa provocar estranhamento na caixinha da cátedra impiedosa com percursos livres, presa a estéreis hermenêuticas, foi um sim rotundo e ingente ao escarafunchar que se pedia.

Como no delicioso O cavalo que bebia cerveja, e Rosa precisa ser lido gozosamente até por eruditos, Leonencio passou pelo protagonista: “Aceitei; quem é que vive de não?” Desafio quem enveredar por essas sendas sem voltar com o tosão de ouro da boa informação e num novo espreitar ao caleidoscópio sagarano. Li sabendo das miudezas eloquentes de Rosa, mas com a ênfase da descoberta do mineiro-mundo pelo pensador Jacques Rancière, com o vate-composição ainda vivo. “A escrita é um processo de invenção, não de aplicação de ideias.” Nosso Guimarães-cosmo sabia que a estética é uma política amplificada na partilha do sensível.

Foto de Flávio Viegas Amoreira

Flávio Viegas Amoreira

Escritor, poeta e jornalista, nasceu em Santos, em 1965, mora em São Paulo atuando como agitador cultural pela capital paulista, Litoral e Rio de Janeiro. Considerado um dos mais inquietos escritores da "Novíssima Literatura Brasileira", já lançou 12 livros entre contos, poesia e romance: Maralto (2002); A Biblioteca Submergida (2003); Contogramas (2004); Escorbuto, Cantos da Costa (2005), Edoardo, o Ele de Nós (2007), todos editados pela 7 Letras Editora - Rio de Janeiro; além de livros publicados por editoras paulistas, antologias internacionais até ser incluído na denominada "Geração Zero Zero", reunião de contistas considerados mais representativos da primeira década do século XXI no Brasil, antologia organizada pelo prestigiado crítico literário Luiz Brás e editado pela "Língua Geral", em 2011. O escritor é crítico de cinema, curador de artes plásticas e colaborador com crônicas e ensaios para jornais brasileiros e sites, revistas literárias e publicações estrangeiras. Ligado à música e às artes visuais, já teve vários textos encenados em monólogos e adaptações teatrais. Tem constante atividade nos meios digitais, com importante atuação em sites, blogs e redes sociais com literatura digital e criação online de textos. Contato: flavioamoreira@uol.com.br

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