Aquarela sobre papel da própria autora



Onde estarão os séculos, o sonho
de espadas, o que os tártaros sonharam,
onde os sólidos muros que aplanaram,
onde a árvore de Adão e o outro Lenho?
O presente está só. Mas a memória
erige o tempo.


Jorge Luis Borges


Ushabit

Oh, Espírito do Tempo do Antigo Egito,
digno ancestral de remota origem.
Vós que atravessásseis os séculos
podereis dar-nos o Vosso testemunho
de uma civilização extraordinária.
Falai-nos do encanto místico
do nascer do Sol, às margens do Nilo,
e das fervorosas preces de um Faraó em Seu louvor.
Falai-nos da construção das colossais pirâmides,
secretas ainda, e dos sagrados rituais de imortalidade.
Contai-nos do nascimento do Vosso corpo –
indecifrável escultura de terracota e vítreo azul –
de como brotásseis das mãos hábeis do artesão egípcio,
em cerimônia semelhante à do nascimento do homem,
esfinge de pó que o sopro divino impulsionou.
Contai-nos do cumprimento de Vossa missão,
de como velásseis o repouso do Grande Senhor,
na travessia para a imortalidade,
sob o olhar atento de Anúbis.
Habitásseis muitas moradas, desde então.
O tempo efêmero de uma vida
guarda o Vosso repouso.
Na travessia para outras idades
o Amor transcenderá em Vossa substância.


“Alguém pergunta: “Estamos perto?”
E estamos longe
E nem rastro de chuva.
E nada pode
Salvar a tarde”

Mário Faustino


Antes

O antes, amor,
é apenas antes
e nada mais.
O antes é nunca –
se não há depois do antes
que o torne real –
e eu tenho medo, hoje,
desse antes de miragem.
Antes, amor, por parecer
tão próximo frustra a
iniciativa, nubla o olhar
e acaba por ser apenas:
antes.
E antes, amor,
jamais terá o seu depois
se arde o coração iludido
pela falácia da iminência,
e a maldição da inércia.
Antes já me levou
tardes inteiras,
horas, dias, semanas, meses,
na esperança de vivê-lo,
inutilmente.
Antes, amor,
é, as vezes, tão incerto
que é – jamais.


Tigre, tigre, flamante fulgor
Nas florestas de denso negror,

Que olho imortal, que mão poderia
Te moldar a feroz simetria?

William Blake

Reflexões

Dias de serenidade e paz.
Caminhando sob o sol da manhã,
habitual benevolência acolhe
as pessoas que passam apressadas
para o trabalho, crianças para as escolas,
o velho vendedor de frutas, contente
em sua quitanda. Da padaria, o pão recente
é levado à mesa do café matinal.
O livro aguarda, a pintura inacabada espera.
Terão atenção alternada no resto
de manhã e na longa tarde.
Depois, a suave noite. Janela aberta para o céu
de nuvens de algodão, revela o encanto das
mil luzes da cidade contra o negror do mar
na linha do horizonte. Os olhos procuram
os prédios, lá longe… O espírito vagueia ao som
da 5ª Sinfonia de Mahler. A leitura do
inquietante livro de Tomás Seixas,
o bom vinho, o cantar incessante do vento
nas frinchas da janela e a fresca madrugada,
povoada de sonhos, dádivas dos deuses
vigilantes! Placidez – vida vivida na plenitude
das imagens do Presente.

Mas a serenidade é transitória.
Dias em desassossego!
A febre ronda o corpo desde as primeiras
horas da manhã. A caminhada se faz penosa,
o pão amargo. Os olhos não contemplam as
imagens do cotidiano; são outras as que miram
e repassam, repassam, repassam sem cessar…
O livro espera inutilmente, a música silencia.
Uma doçura teima em persistir,
enquanto o indefeso coração lança, inexorável,
o sangue para as veias fatigadas.

− Que poder imortal governa os dias?
− O que é a Vida, o Tempo, o Amor, a Morte?

Ousar inquirir os deuses e esperar.
Almejar as respostas e viver a rotina dos
dias de serenidade e desassossego.
Desafiar o que é dado pelo Cosmo e
reter no Presente o que ficou para trás.
Leves tardes de espera recompensada,
o convívio materno e fraterno, a presença da
Lettera Negra, conhecedora de todos os segredos.
Amor incondicional e promessa de futuro.
Perda demasiada, para admitir que não seja
nenhum mistério.

Corpo e mente pertencem à memória do tempo.
A vida não foi em vão, mesmo que por hora
amada se pague árdua prestação em anos.
Na dor da vívida paixão ainda suplicar
Ata-me as cordas à Vida!, Senhor!
Por quanto tempo? O tempo é Volúpia e Espírito.
E continua a passar…
Marca a hora o relógio; mas o que é que marca
a eternidade?

A beleza de viver além do sofrimento
está no louvor à poesia, caminho escolhido por
atrevimento, em direção à queda no desconhecido
que é a morte de todos nós e nos acompanha como
um velho remorso
. O Amor, a despeito do Céu,
ergue um Inferno. A morte terá teus olhos!


Tomo nos olhos delicadamente
esta noite − jardim de puro tempo
com ramos de silêncio unindo os mundos.


Cecília Meirelles



Encontro

Acaso roubado ao cotidiano
de uma sexta-feira
no súbito encontro, em plena rua,
na noite mal começada,
quando as pessoas caminham
apressadamente em direção ao lazer
antecipado do fim de semana.

Momento fugaz e definitivo
para calar, para sempre, as palavras
guardadas no coração desavisado
atingido, de súbito, pela realidade
que invade o sonho, ou o sonho
invade a realidade?

Ninguém repara no encontro
do casal, quase sem se deter,
as mãos se tocando de leve
o caminho cruzado no infinito
a acompanhar os corpos em chamas
clareando a solidão de suas vidas
no convívio mundano, onde
essa luz não é percebida.


Antemanhã

A madrugada passou.
Na semiobscuridade do quarto
o fluir monótono da chuva.
Os passarinhos estão mudos
ou talvez abrigados em
uma distante varanda…
Cantarão ou se calam
recolhidos em tristeza?

A madrugada passou.
Um nome inevitável o vento
sussurra nas frinchas da janela
— eis a eterna presença!
Inúteis aquecidos lençóis,
abraço dissolvido no imaginário.
Inaudível monólogo para
um ouvinte ausente.


Fluir

Flui a vida em silêncio
flui a música da recordação;
tão somente o som da esperança.

Flui o sangue nas veias
flui a aura do corpo derramada;
a luz da tarde perece no mar.

Oxalá findasse a dor pungente
da saudade, irmã da noite;
memória de amplexo não antigo.


*Os poemas “Ushabit”, “Antes”, “Reflexões” e “Encontro” integram o livro Círculo de Seda (2017), publicado pela Editora Chiado, Lisboa. Os poemas “Antemanhã” e “Fluir” são textos inéditos da autora.

Anita Dubeux

Anita Dubeux

Nasceu no Recife, em 25 de maio de 1949. Formada em Ciências Econômicas. Residiu no Rio de Janeiro e em Teresina. Vive atualmente no Recife.

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Este post tem 2 comentários

  1. Marlene

    Só uma pessoa com sensibilidade poética escrevia poemas tão belos. Parabéns Anita.

  2. Sinesio

    Não conhecia Anita Dubeux, muito boa!

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