O verão é naturalmente praiano, um fenômeno cultural costeiro, verão no interior de qualquer continente é estio para arar, sem a atmosfera do esplendor gozoso do mar costeado de ondas. O verão nos trópicos torna-se ainda mais essa aura de desenlace rebeldia e busca pelo tórrido contato hedonista e corporalidade desnuda. O verão só existe diante o Oceano, permitam-me a radicalidade dum suarento boêmio ‘voyeur’ de quem passa a caminho de bronzear. Os verões dum poeta são a curva entre o bar e uma silhueta ensolarando capaz de voltar. É contemplação etílica de musas e surfistas, gladiadores das vagas com bafejo de todas maresias. O cinema rima com verão em forma de nostalgia: é a estação para fixar, saudade dum relance, distanciamento em planos amplos e assim rememoro “Bete Balanço” não com intelecção, mas como um instantâneo fixado em minhas retinas e epiderme já bem escaldadas. Cinema é mais que reflexão, é ‘contaminação virtuosa’ pela emotividade: daí que cito a polêmica frase de Paulo Emílio Salles Gomes ao vociferar lindamente: “o pior filme brasileiro é melhor que o melhor filme estrangeiro”. Logicamente que esse nacionalismo dum intelectual cosmopolita só teve condão de levar ao limite a necessidade de um país se reconhecer, se revelar, identificar-se visual, plasticamente. “Bete Balanço” expressa esse simbolismo múltiplo para quem nasceu nos anos 60 e já tinha pouca Utopia para sonhar, mesmo lutando novos sonhos em tanto ‘lusco-fusco’.

Trata-se duma fita geracional, documento ‘zeitgeist’, que tem valor de arqueologia urbana, um ‘rebobinar’ de evanescências e registro temporal que ainda deita raízes em Cultura como atitude e estilo. Atitude, termo tão batido e aplicável! Os anos 80 me parecem na superfície mais remotos que os anos 20, mesmo sua força em cada hábito dessa atual trans-modernidade. Uma década não é estanque a um corte de cabelo ou bainha de calça, seus efeitos só são medidos em placas tectônicas muito além da cronologia. O verão de 1985 foi um eixo, vértice implodindo e reforçando nos estilhaços todas certezas e contestações desde o pós-guerra. A praia era mais do que nunca o nirvana para o bode pós-desbunde, estávamos no limiar e desfecho de tantas mutações! O computador pessoal já engatinhava, a produção independente em música e literatura pré-digitalização proliferavam bandas e edições alternativas de poetas alucinados, surgiam ‘hip hop’, ‘techno’, de Seattle passando por Katmandu, o som de garagem casava com a ‘new age’. Tudo era ‘mix’: punks, darks e beatniks tardios conviviam com execráveis ‘figurinhas’ do planeta dividido entre Reagan/Thatcher com o falacioso ‘neo-liberalismo’ e seus ‘yuppies’: vivíamos na corda bamba num “clip sem nexo entre bossa-nova e rock´and roll”. Enquanto bebíamos freneticamente no primeiro ‘Rock in Rio’ embandeirados de verde-amarelo saudávamos a redemocratização com uma vitória ‘meia-boca’ de Tancredo e a derrota das Diretas-já ainda nó na garganta. Lógico que aos 18 anos vendo pela primeira vez “O último tango em Paris” de Bertolucci e “Saló” de Pasolini, sabia que a trilogia de Lael Rodrigues: “Bete Balanço”, “Rock Estrela” e “Rádio Pirata” já nascia datada, mas era a essência desse verão que permaneceria com seus lugares e rostos: a Cinelândia brizolista, a Farme de Amoedo ‘entendida’ tinham correspondentes em São Paulo com o ‘Lira Paulistana’, e Santos muito mais antenada e cosmopolita com ‘Heavy Metal’ e o canto do cisne da velha Boca. “Bete Balanço” faz-nos lembrar que o nosso ‘Studio 54’ eram as praças apinhadas de jovens lindos sem preocupar-se em serem ‘sarados’: a Beleza era substantiva, estava ali úmida e entumecida mesmo que espreitada pelo pânico: a Aids!

Escrevo esse ensaio como quem saúda os que tombaram órfãos duas vezes: por uma Utopia que não morreu com o muro e pelos tantos amigos e amores que partiram quando nosso amor era um ‘risco de vida’ e nossos “inimigos estavam no poder”. O verão de 85 me leva a um bar na Praça Sezerdelo Correa: ouvíamos Cazuza e esse escritor passava tardes nessa Copacabana onde todos poetas eram célebres e atores buscavam poesia. Foi o verão de Laurinho Corona e nossas cartas são testemunho: confesso que sobrevivi para contar que o verão é jovem porque ele se repete!

Flávio Viegas Amoreira

Flávio Viegas Amoreira

Escritor, poeta. Colunista da seção “Terra em Transes” da Revista Piparote.

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Este post tem 2 comentários

  1. Marília Martins

    Belo resgate dos anos únicos, anos 80, que não voltam mais!
    O Brasil nunca foi tão rico no rock nacional, como naqueles tempos. Reverberam até hoje.

  2. Marília Martins

    Anos 80, anos ímpares! O Brasil nunca produziu tão intensa e significativamente no rock, produção esta que ainda reverbera.
    Parabéns pela matéria! 🙂

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