Allemande

Nós somos feitos da mesma
Matéria de que são feitos os signos;
Não somos tecidos de sonhos
Somos grafados na memória,
Como se tivéssemos substância,
Embora não haja nada em nós que
Fica ou que nos identifica, pois
A cada hora, a cada minuto, a cada
Segundo, esvaziamos nosso ser
Sem compreender que apenas
O que fugiu compõe nossa
Essência, mas somente na medida
Em que é salvo pelo signo,
Que nos arranca do turbilhão
E nos concede alguma firmeza,
Alguma imagem em que nos
Mirar como se fôssemos reais,
Em nossa irrealidade que é feita de
Linguagem, de um pouco de memória
Que a palavra guarda em seu
Cofre de significados e estruturas.
Lá estamos nós coordenados,
Subordinados ou presentes como
Algum resíduo que sobrou
De uma cadência, de um movimento,
De uma vertigem que nos tira o
Solo e nos deixa em movimento
Até que o signo nos inventa e cria
Uma aliança entre a memória e o ser
E nos alcança como uma dança
Um jogo de regras
Em que somos
Ao nos perdermos.




As ligações de amizade são mais
fortes que as do sangue da família.

É (…) melhor arrepender-se por ter feito
alguma coisa do que por não ter feito nada.
                                       Giovani Boccaccio

Aquele que contra o amor recorre à razão e
à virtude age como quem eleva a voz em meio à tempestade.
                                             Dante Alighieri
Ravena

Vivo agora em paz em terras florentinas
Onde o amor e a morte estreitam laços
E longe do poeta soberano, tento, num esforço
Da imagem, pensar as noites frias de Ravena,
Onde, no exílio, Dante sonha seu poema:
E em cada verso há trabalhado o plano
De traçar em uma só viagem as arcanas
Maravilhas que contemplou em seu destino,
Desde as contradições da condição humana,
Até as dores e as decepções amorosas
Que soube tão bem cantar em sua prosa
Poética, no Convívio e na Vida Nova.
Da flor do lácio à minha herança lusitana,
Da Via del Corso ao passeio divino,
Da escura selva, cuja via verdadeira era perdida,
E no perder-se nela quase me foi inteira a vida,
Vejo o poeta que amou sua Toscana,
Tanto que aceitou a solidão e o desengano,
Por entregar a ela uma figura cuja força
É tamanha que não há valor que meça.

Canta ele agora a escuridão do inferno,
Há de cantar em breve o amor e a luz divina,
Quando sua alma num abraço eterno
Com a unidade que ordena o universo
Terá terminado enfim o último verso
E terá cumprido a imposição mais dura
De desenhar em calculada arquitetura,
Projetada segundo um rigor adamantino,
Todos os trajetos e todos os desatinos
Pelos quais passou e passará toda criatura
Que vem vagando nessa terra, a esmo,
Quase sem rumo e em busca de si mesma,
Vagando os planos na ordenação do Cosmo.

Quando o poeta terminar a última linha
Da Comédia, na qual já se adivinha
A resolução de todos os conflitos,
Cozido enfim o último verso, num aflito
Parecer do grave rumo que nos encaminha
A busca incansável de auto redenção
Baterá num mesmo tom o mesmo coração
E a sua alma terá encontrado a minha
E selado nosso infindo amor sem condição:
Somente então a sombra de sua presença
Terá tocado, enfim, o solo de Florença.



Valor

                   “O apreço não tem preço …”
                                             A Blanc

Era um costume
Comum
Quando se dava
Um presente
Tirar o preço
Do produto
Nesse instante
A mercadoria
Perdia seu
Capital atributo,
Mudando seu estatuto,
Transmutando
Seu valor
Numa única
Alegria,
No calor
De entregar
O que se sente
Sem saber
Se é preciso,
Sem saber bem
O que se queria
Só tornar
O afeto presente

Um bem, uma
Consagração
Da candura,
Da afeição.

É uma regra que sabe
Ter qualquer um,
Que se sabe
De cor,
Está ali diante de nós,
Na nossa frente,
A substância
Do Valor.
Volátil como
Os sentimentos
Emerge por um
Momento
E cria um laço,
Um nó,
Um liame que
Não havia
Que ninguém
Conhecia,
Que se dissolvera
Na troca
E se consolida, agora,
Em troca,
No Uso,
Naquilo que
É preciso
Fazer para se ter,
De novo,
A gratuidade
Do que vale
Porque não tem
Preço,
Somente
O apreço
Que surge
Quando somem
As etiquetas.

Então a lembrança
Restabelece
Um laço
Do querer que
Se completa,
Querer do outro
Como parte que
Se multiplica
No todo,
E se experimenta
por inteiro
Não mais num produto,
Mas no fruto
Do amor
Verdadeiro,
Que só alcança
Completude
No dom
Da Gratuidade.




A Deus vai erigindo com palavras,
O mais pródigo amor lhe foi doado,
                                                (…)
                                    J. L. Borges

Cristiana

Todo amor é diverso, o amor é vário,
Nunca se encontra nos dicionários,
Nem nos corações guardado,
Está em todo lugar, pra todo lado,
Desde a natureza até o calvário,
Quando o amor se fez a dor imensa
Que trouxe à humanidade a recompensa
Pelos males por ela praticados:
No início dos tempos, no pecado
Original e na antiga ignorância,
Que persiste, insiste na distância
Da humanidade corrompida
Pelo afastamento de si, da sua vida
Verdadeira. Separação, fuga, descida,
Rumo à sua própria crueldade iludida,
Sem o amor, sem redenção, sem saída,
Presa do excessivo desejo, decaída,
À espera de quem lhe resgatasse a alma
E pudesse conduzi-la ao rumo certo
Na direção de um horizonte aberto

Pelo amor que tudo pode e tudo sabe,
Que no limite da carne nunca coube,
O amor divino que se encontra em tudo
O que houver de mais sagrado:
“O amor que não espera ser amado”.



Haicai

Naquele olhar há algo
Que me vem e nunca passa
O quê? Ah… sim! A Graça.



Tanka na Praça

Hoje ouvi com tristeza
notícia sobre 
Uma vítima indefesa 
Descobri que a
Praça da Liberdade tinha
Sido presa.

Plínio Fernandes Toledo

Plínio Fernandes Toledo

É mestre e doutor em Ciência da Literatura (Teoria Literária) pelo Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on pinterest
Pinterest
Share on telegram
Telegram

Este post tem um comentário

  1. PLÍNIO FERNANDES TOLEDO É , IRREFUTAVELMENTE, UM GÊNIO. UM GÊNIO COMO OS GÊNIOS QUE ELE CONHECE E IDOLATRA. PLÍNIO INSPIRA, INCENTIVA, ENCANTA, ENSINA, DÁ GRAÇA E SENTIDO À NOSSA VÃ EXISTÊNCIA. SIM, PLÍNIO É UM GÊNIO. SERIA CONHECIDO E ACLAMADO MUNDIALMENTE CASO TIVESSE NASCIDO EM UM PAÍS ONDE A ARTE TEM VALOR. MAS PLÍNIO É UM GÊNIO. E, COMO TODO GÊNIO, NÃO FUGINDO À REGRA, PLÍNIO POR SER PLÍNIO JÁ É SUFICIENTE. POIS TODO GÊNIO NÃO ALMEJA NADA ALÉM DA SABEDORIA, DA ARTE, DO CONHECIMENTO E DA GENIALIDADE. PLÍNIO ME FAZ CRER EM UM SER SUPERIOR CAPAZ DE CRIAR SERES QUE SÓ ESTÃO ABAIXO DELE… COMO OS GÊNIOS.

Deixe um comentário

© Copyright, 2022 - Revista Piparote
Todos os direitos reservados.