Uma notícia muito antiga

puxar a pele
lembrar dessa extensão
onde debato com desgaste
o papel pintado
essa alucinação
um acidente da matéria
ou monólogo para alvenarias
aberto pela basculante
do sonho.


Lição

sob a cúpula ampliada pelo escuro
suspenso no susto de haver mundo
onde sons contendo ritmo
revidam o absurdo
tudo ao redor
num desdém
se desenha
e me iguala ao primeiro
símio inquilino de seu teto
que após saciar o sexo
aponta pra cima e grita

não sei


Cromossomos

o primeiro azul
que nenhuma câmera capta
entre rothko e tomie ohtake
aparece e cobre
a urbe onde todos jazem
dentro do profundo poço
escuro do sono

uma manhã amarela
correndo em direção ao mar
sem saber ainda que relógios divergem

uma noite vermelha
de pó da estrada de barro
na casa da avó
onde o pai
dentro do peito com asma
olha o filho grisalho
sobre o colchão de palha

uma tarde obscura
prenhe de sua futura
solidão
onde descobriu que todos ali
eram apenas os mortos dos que virão


Roubo

        (para Orides Fontela)

trovões invadem
casas coisas córtex
e se instalam na antessala
– orides vórtex –
do indomesticável destino


Instantâneo Série B

agarrado na grade que separa
naquele momento o gramado
vazio da arquibancada também
era uma terça qualquer e o senhor
de colete e sandália torcia de memória
como aquela tiete do hispano hipnólogo
nas tardes televisivas dos anos noventa
que magnetizada por palavras em seu ouvido
comia cebola como se fosse maçã


Freak Xerox

é como se dentro do susto
visse a carcaça do universo
e que de uma hora para outra
se transformasse no velho
que não mais olha
a bunda alheia

naquele átimo inigualável
mais ultravioleta
que qualquer mitologia
uma craca ancestral
do cotovelo à omoplata
do garrão ao metacarpo
percorreu o assustado
caveirão embriagado

e dali pra diante
era só esperar
a boia se assentar na pança
sentado defronte
a um tradutor de libras
com luvas de boxe

e sem o perdão da palavra
arrancou as três pálpebras
deixando os olhos
como persianas derretidas
de sociedades secretas
em casas de esquina

que sem mais nem menos dizia
que as paredes retas e brancas
não são nem brancas,
nem retas, nem paredes,
mas elas não dizem nada
e quietas como sempre ficaram

naquele momento
como ferida que volta pelas costas
o Nada me olhou sorrindo


O Sambista Caminha

fatiota de alfaiate
na moleira um panamá
sapatinho bem polido
gáspea alva e bico fino
o ex-vizinho avoengo
mestre-sala do seu corpo
sambalança na calçada
onde zanzam os abismais
e exala mesmo trôpego
da sola até o côco
misturado no pescoço
a sinfonia do malandro
e a síncope do Congo

Fabiano Scholl

Fabiano Scholl

(1980) Mora em Porto Alegre/RS, fotógrafo e estudante de Artes Visuais na UFRGS.

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Este post tem 3 comentários

  1. Brito

    Muito bom, Bluesman.. continue assim . 👍

  2. Marcelo Martins

    Orgulho deste amigo…eu sempre digo que na fotografia existem fotógafos e existem artistas…o Fabiano é um Artista!

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