O SEGUNDO ADVENTO

Girando e girando no amplo turbilhão
Não pode o falcão ouvir o falcoeiro;
Coisas se desfazem; o centro não mais se sustenta;
A mera anarquia impera sobre o mundo,
A vaga de escuro sangue é solta e por toda parte
Afoga-se a cerimônia de inocência;
O melhor perde toda a sua convicção enquanto o pior
Está cheio de intensidade apaixonada.

É claro que alguma revelação está por vir;
É claro que o Segundo Advento está próximo.
O Segundo Advento! Dificilmente são ditas as palavras
Quando a vasta imagem do Spiritus Mundi
Nubla minha visão: algo nas areias do deserto,
Uma forma com o corpo de leão e cabeça humana,
Uma oca e impiedosa mirada como o sol,
Move os seus membros lentos enquanto tudo oscila 
sombras sobre coléricos pássaros desolados.
A escuridão goteja novamente, mas agora eu sei
Que o pesadelo de vinte séculos de pétreo sono
Foi conturbado pelo balanço de um berço.
E que besta brutal, chegando ao fim de sua festa,
Rasteja até Belém para nascer?

FIZ UMA CAPA PRA MINHA CANÇÃO

Fiz uma capa pra minha canção
E a cobri de cima ao chão,
Bordada de joias e pedrarias
Tiradas das velhas mitologias;
Mas os tolos a roubaram e, sem poder,
Vestiram-na para todo mundo ver.
Canção, deixai-os todos de lado
Pois há mais valor em 
Andar pelado. 

QUANDO VOCÊ FOR VELHA

Quando for velha e triste e acabrunhada 
Tome este livro e junto às labaredas 
Leia lentamente e sonhe como o teu
Olhar suave pouco a pouco escureceu.

Muitos amaram teus momentos de ternura,
E falsa ou veramente amaram tua formosura,
Mas houve alguém que amou tua alma errante
E todas as dores de tua face cambiante.

E Inclinada sobre as barras reluzentes
Murmura como o amor deixou-te de repente
E cruzou montanhas e, então, ao vê-la
Escondeu o rosto entre uma multidão de estrelas.

PARA ANNE GREGORY

Nunca chegaria
Um jovem apaixonado
Pelas doces palavras ditas
Em seus ouvidos
Amar-te pelo que és
E não por teus cabelos dourados

Mas eu poderia pintá-los
De negros, azuis ou encarnados
e assim conseguiria
O jovem apaixonado
Amar-me pelo que sou
e não por meus cabelos dourados.

Mas ontem à noite eu ouvi
De um velho religioso e ilustrado
Que cria ter num livro comprovado
Que apenas Deus Poderia
Te amar pelo que tu és e não
Pelos teus cabelos dourados.

AQUELAS IMAGENS

E se eu te pedisse para deixar
A caverna de teu pensamento?
É melhor saber se exercitar
Na luz do sol e no vento.

Eu nunca te pedi para ir
Pra Paris ou pra Dakar
Renuncie a teu cativeiro
Chame a musa de volta ao lar.

Procure aquelas imagens
Que mostram selvagem labuta,
O leão e a virgem, 
a criança e a prostituta.

Acha no vão do ar
Uma águia a planar
E reconhece os cinco
Que fazem a musa cantar.

               Em nosso tempo o destino do homem
               apresenta seu significado em termos
               políticos.
                                                  Thomas Mann

POLÍTICA

Com aquela garota ali de pé como eu poderia
Fixar minha atenção
No embate político entre o romano,
O russo ou o alemão?
Embora haja um homem viajado
Que entende do riscado
E um político veterano
Que já leu e pensou em tudo
E talvez o que ele diz seja verdade
Sobre a guerra e seus estardalhaços,
Mas Oh eu queria é voltar à juventude
Para poder envolvê-la em meus braços.

Plínio Fernandes Toledo

Plínio Fernandes Toledo

É bacharel em filosofia e especialista em Filosofia Contemporânea pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais; mestre e doutor em Ciência da Literatura (Teoria Literária) pelo Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fez trabalhos de revisão técnica para a Editora Martins Fontes, destacando-se o livro de Heid M. Hurd, O Combate Moral e, pela mesma editora, a tradução direta do alemão do livro de Hans Kelsen, O Estado como Integração. Foi um dos co-autores da obra sobre filosofia do direito intitulada Hermenêutica Plural, organizada pelos professores Carlos Eduardo Boucault e José Rodrigo Rodriquez, publicada pela editora Martins Fontes em 2002, da qual participou com um ensaio sobre o nascimento do conceito de lei na Grécia Antiga. Coordena desde 1998 um Grupo de Pesquisa voltado para o estudo da dialética platônica e seus influxos sobre o pensamento crítico na modernidade. Seu objeto de interesse tem sido a construção teórica do diálogo possível entre filosofia e crítica literária. Possui vários artigos e obras literárias publicados em revistas científicas e especializadas. Defendeu a tese sobre a Sociedade do Espetáculo de Guy Debord, intitulada A Astúcia da Dialética, sob os auspícios de uma bolsa concedida pelo CNPQ. A tese foi indicada para concorrer ao prêmio CAPES 2015 pelo Departamento de Ciências da Literatura, Teoria Literária da UFRJ.

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