A história do soldado que se recusou a acreditar no fim da Segunda Guerra, narrada por um dos maiores cineastas de nossos tempos.

Editora Todavia

Embrenhados na selva de uma pequena ilha nas Filipinas, o jovem tenente japonês Hiroo Onoda e seus três companheiros de guerrilha “põem-se a caminho pelas décadas que têm pela frente”. Último sobrevivente, e certo de que o fim da guerra não passa de uma mentira do inimigo, Onoda levará quase trinta anos para ser convencido a finalmente se render.

O crepúsculo do mundo é uma história de sobrevivência, de honra, de estoicismo e de um indivíduo confrontando, até os limiares da loucura, as forças destrutivas da civilização e da natureza indiferente. Um prato cheio, portanto, para o diretor de cinema Werner Herzog, que aqui confirma ser um prosador de firmeza e poder sugestivo impressionantes.

Seu relato, baseado em entrevistas que fez pessoalmente, abraça a fluidez imaginativa para tentar reconstituir em minúcias não apenas os fatos, mas também suas implicações estéticas e filosóficas. Os detalhes às vezes soam alucinógenos: um saco de roupas sujas infla com um bolor que parece algodão-doce, um chiclete num tronco de árvore se torna o sinal inequívoco de uma emboscada.

A passagem do tempo — seus fluxos, seus significados — parece ser de especial interesse do autor. O tempo “deixa de existir […], dispara, salta semanas, meses, porque uma única brisa encrespou as folhas”. Onoda anda de costas para que suas pegadas apontem na direção contrária e despistem o inimigo. No céu, em impressos e transmissões de rádio, sinais do progresso podem lhe parecer incompreensíveis: um satélite artificial passeando entre as estrelas, uma página de jornal tomada de anúncios, um avião que voa sem hélices. As novas guerras lhe parecem iterações de um único conflito interminável.

Onoda matou inocentes, tornou-se uma lenda local, foi anistiado pelo governo filipino e recebido como herói no Japão após se entregar. Viveu algum tempo no Brasil e faleceu aos 91 anos, em Tóquio. Herzog não apara as ambiguidades desse extraordinário caso real. Pelo contrário, abre espaço à dúvida, à poesia e ao sonho para nos conduzir até muito além do convencional, ao reino das histórias que resistem em ser decifradas.

Um trecho:

Pela primeira vez, vê-se um indício de sorriso no rosto de Onoda. Ele assente. Continue, conte mais.

Incentivado, Suzuki prossegue. “A guerra acabou vinte e nove anos atrás.”

Incompreensão pura e imóvel no rosto de Onoda.

“Não pode ser.”

“O Japão capitulou em agosto de 1945.”

“A guerra não acabou. Faz uns dois dias, vi um porta-aviões norte-americano acompanhado de um destróier e de uma fragata.”

“Indo para leste?”, Suzuki supõe.

“Não tente me enganar. O que eu vi, eu vi.”

Suzuki permanece firme. “Tenente, os Estados Unidos têm sua maior base de apoio naval no Pacífico na baía de Subic. É onde cuidam de todos os navios de guerra.”

“Perto da baía de Manila? A apenas noventa quilômetros de lá?”

“Isso.”

“Essa base já existia no começo da guerra. Como é que navios americanos hão de ter acesso a ela?”

“Os Estados Unidos e as Filipinas são aliados.”

“E os bombardeiros? Eu os vejo sempre.”

“Em voo para a Base Aérea de Clark, ao norte da baía de Manila. Por que, tenente, se me permite perguntar, unidades de proporções tão enormes não atacariam e esmagariam a ilha de Lubang? Afinal, Lubang controla o acesso à baía de Manila.”

“Não tenho conhecimento dos planos do inimigo.”

“Não existe plano nenhum, porque a guerra acabou.”

Por um momento, Onoda luta consigo mesmo. Depois, levanta-se devagar, dá um passo na direção de Suzuki e aperta-lhe a boca do fuzil entre as sobrancelhas.

“Diga-me a verdade. A hora chegou.”

“Tenente, não tenho medo da morte. Só acharia deprimente morrer quando estou falando a verdade.”

LANÇAMENTO: 07/04
GÊNERO:  Ficção estrangeira
CATEGORIA: Romance
CAPA:  Violaine Cadinot
TRADUÇÃO: Sergio Tellaroli
PÁGINAS: 96
PREÇO: r$54,90
ISBN:   978-65-5692-261-4
PREÇO E-BOOK r$ 36,90
E-ISBN: 978-65-5692-264-5

Werner Herzog

Werner Herzog

Nascido em 1942, em Munique, Werner Herzog é um dos cineastas mais aclamados da atualidade. Dirigiu, entre outros, os filmes Aguirre, a cólera dos deuses (1972), Fitzcarraldo (1982) e O homem urso (2005).

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