IV

Amando aquele homem saberia ela ser algo completamente aceitável, já que para essas inconveniências, a esposa deveria, antes de tudo, acalmá-lo. Sentiu tal pressão no peito, comum quando pressentia desastres, arrependida de não ter nascido nem um pouco fria. Tinha uma empatia angelical. Aquela sensação sufocante perdurou até seu marido sentar-se em uma cadeira de plástico, daquelas que quebram às vezes. Como uma boa mãe, permitiu pensar que seu esposo poderia sofrer um acidente com o frágil e cortante assento, esqueceu-se completamente da baixaria de antes. Aproximou-se lentamente dele, que permanecia com o rosto contra as mãos. Sua incapacidade de resolução de conflitos era irritante, já o tinha alertado várias vezes antes de se casarem, depois cansou-se. Mas o amava deveras, era melhor calado muitas vezes, sossegado em um canto, trabalhando, compenetrado nos escritos e levemente comprimido pela má postura. Não lhe considerava um príncipe, mas ele o era, sem se esforçar. E se o quisesse ser conscientemente, patético sê-lo-ia. Provavelmente iria manter-se assim, cabisbaixo, até o fim do dia. Não poderia fazer tanta coisa quanto a isso, mas lutava contra uma vontade que queria empurrá-la para fora de sua casa, para caminhar no parque, como já era rotineiro naquela hora da manhã. Reformulou os horários no primeiro mês de casamento, com a chegada dos filhos. Tinha dificuldade de mudar seu dia, fora um período estranho, onde acordava com vontade de fazer o passeio na madrugada, por não o ter feito na hora que deveria. Ele, entretanto, sempre a ajudou, e com o passar do primeiro ano ia se esvaindo da memória a vida passada, e com ela, as práticas habituais. Sentiu-se com se saísse de um banho de fervura quando o esposo transpôs em forma de calor toda raiva e ressentimento através de um abraço. Estava sendo sustentado por ela que, como um pilar grego, não desabou quando a responsabilidade da alma de um outro lhe caiu sobre os ombros. Era como se o tivesse sonhado e dado a vida. Sabia que iria cair, por fraqueza do corpo, por isso, agachando devagar foi colocando-o de volta na cadeira que dali a pouco poderia quebrar, com a dor da mãe que arrisca o filho.

FREDERICO de Medeiros Vieira Santos

FREDERICO de Medeiros Vieira Santos

Nascido em Petrópolis (2003), Cidade Imperial do Rio de Janeiro, na qual o clima ameno e o silêncio atraíram escritores renomados, como Stephan Zweig e Vinicius de Moraes.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on pinterest
Pinterest
Share on telegram
Telegram

Deixe um comentário