A Estranheza Fora da Página é um exercício de escrita a quatro mãos que questiona a poesia e a chegada do poema, matéria visível. Como quem se prepara para a celebração de imaginários perdidos no espaço cego da página, a constituir-se em corpo. Torna-se por vezes visível. E surpreende. Candelabra, hesita, tropeça, voa. O poema enrosca-se na invisibilidade daquilo que o verbo e a criação murmuram em força córica, imprevisível e ainda indecomposta. Surge em espaços de fuga e de apreensão, desenha esboços, fragmentos suspensos, que ganham presença e tocam as palavras em tensões quase imateriais. Agitam-se imagens imprecisas, fulgurações súbitas ou lúdica sensioralidade. Sensorium. Queremos ouvir rente à terra o som interior das convulsões minerais, os movimentos inapreensíveis das veias do espírito. Com a cabeça presa na aura de uma constelação solta-se um infinito amplo. Para chegar à matéria do interior de uma quase exterioridade da percepção. A estranheza inexplicavelmente acaba por se apossar dos poemas interrogando-os, quebrando-lhes a cintura, despindo a intensidade em pedacinhos de letra. Estremecimentos do som, transfiguração em sílaba, palavra, verso. No acento desconhecido das coisas o peso das vogais acende-se. Ou alguém precipita a raiz do sonho quando nada mais há para escrever.

Ana Mafalda Leite & Hirondina Joshua

uma palavra que nos sopre no coração
acorde o dom: recitação
um pequeno refúgio uma verdade impura que nos
              consagre qualquer coisa
não é voz nem silêncio
tatuagem em braile começo de uma vidência
precisamos de poemas
de cinemas de vontades
contra a surdez voragem do mundo

ser um poema que ainda não sabe
um cordão de escrita que apeteça e responda
um abajour que acenda fogo lento
uma paisagem crescendo fora do corpo
onde todos se juntam para não falar:

uma fábula intensa, quietamente silenciosa
dizes-me
ensino o difícil caminho das mães
invoco a palavra elementar.
deito-me sobre o útero, instigo o sangue para que
              se torne terrestre:
a sílaba encarnada na garganta, a dor em
              metamorfose.

também os dons são criminosos
conta a insónia sobre os autores.
– os ouvidos remotos e as patas escalam diante da
              noite.
o vento quando é chamado lembra os fantasmas
              enlouquecidos de véus, todos de olhos
              fixos e gotejantes. lá fora parece haver
              chuva, malmequeres. e o pior dos ofícios:
              sentir a menstruação devagar retratando a
              pureza.

uma mão cheia de terra vermelha
como quem arde. imagino. como quem cala
a voluta estranha dos pontos de interrogação. um
              gancho ao contrário
no meio da dúvida. um pequeno alarme na
              garganta
sobe devolvendo ao mistério da pergunta
uma desarticulada mão cheia de palavras.

diria mesmo uma mão cheia de terra vermelha
como quem arde. soprando lume da boca.

deponho então o que resta do poema na página
que fica colocada no centro da escrivaninha
escrevo como quem solta uma asa um elfo na
              brancura da página
agarro a raiz da sombra que faz esse ser de
              presença e coloco a maiúscula deitada
na palma da mão
fecho-a devagar e devagar a abro
apenas a música dos sons se solta
e sintoniza a estranheza

fora da página

o som estremece
vindo desse interior
guelra sonora
espasmo intranquilo

em cima a página estremece
na tinta se espraia

acorda a branca rebentação

A Estranheza Fora da Página
Edições Humus
Idioma: Português
Páginas: 60
Ana Mafalda Leite

Ana Mafalda Leite

É uma escritora portuguesa e moçambicana. A recente publicação de Janela para o Índico (Rosa de Porcelana, 2020), reúne antologicamente o seu percurso de publicação em poesia, iniciado em 1984 com Em Sombra Acesa. Em A Estranheza fora da Página realiza juntamente com Hirondina Joshua um exercício a duas mãos de meditação sobre a matéria do poema, sua fulguração em ritmo e palavra.

Hirondina Joshua

Hirondina Joshua

Poeta e escritora moçambicana, Membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Curadora do projecto Exercícios da Retina no Mbenga Artes e Reflexões (Moçambique) sobre divulgação de textos e conversas com escritores lusofónos. Na revista palavra comum (Galiza) colabora com ensaios sobre a arte da escrita. Tem colaborado em várias revistas, jornais, festivais, colóquios, podcasts, antologias nacionais e internacionais. Livros publicados: Os ângulos da casa ( Fundação Fernando Leite Couto, 2016 - Poesia); Como um levita à sombra dos altares (Húmus, 2021 - Contos); A estranheza fora da página com Ana Mafalda Leite ( Húmus, 2021 - Poesia); Córtex ( Exclamação, 2022 - Poesia)

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