estou à deriva no oceano um vagabundo flutuando no oceano e debaixo de meus pés eu posso sentir o estrondo do iceberg eu posso sentir a mutação o grito do iceberg enquanto se estica e ricocheteia o leito do mar e dirige as correntes oceânicas e começa a mover-se para o norte eu posso sentir aquele som subindo pelas plantas dos meus pés e me dizendo que este iceberg vai indo em direção ao norte. É assim o meu sonho. Então aqui estou eu neste confortável laboratório e logo ali fora está a paisagem que Scott e Shackleton viram quando chegaram aqui pela primeira vez cem anos atrás. Diferente de Scott e Shackleton que viram o gelo como um tipo de monstro estático que era preciso atravessar para chegar ao polo Sul nós cientistas agora somos capazes de ver o gelo como uma entidade viva dinâmica que está tipo produzindo mudança tal como os icebergs que eu estudo. Para mim, tem sido uma aventura selvagem. Primeiro de tudo descobri que o iceberg que vim a estudar não só era maior do que o iceberg que naufragou o Titanic e não só era maior que o próprio Titanic mas era maior do que o país que construiu o Titanic. Ou seja, bem grande. Este é o b-15 e o que vemos aqui é um penhasco branco de 46 metros de altura o que significa que há mais de 305 metros de gelo debaixo da linha d’água. Este iceberg é tão grande que a água dentro dele correria o rio Jordão por mil anos e é tão grande que a água dentro dele correria o rio Nilo por 75 anos. Este é um trecho do vídeo que gravamos enquanto sobrevoávamos o iceberg. Ele parece gigante e se eleva sobre nós ainda que estejamos em um avião sobrevoando o iceberg. O iceberg está sempre sobre nós e está sempre sobre nós porque é um mistério que não podemos compreender. Eis uma foto do que vimos quando chegamos ao centro do iceberg. Agora que montamos nosso equipamento, teremos a oportunidade de monitorar como o iceberg deriva para o norte. Eles são tão grandes que há alguma coisa de medo e nós não sabemos o que de fato vai acontecer quando eles finalmente começarem a derreter no oceano para além da Antártica. Agora estamos vendo aqui um tipo de filme cortado das imagens que o satélite fez do mar de gelo e do continente da Antártica e o que vocês veem aqui são sombras cinzas e este tipo de sombra cinza mais clara é o mar de gelo e estes pedaços pequenininhos aqui são icebergs titânicos e esta pequena criança aqui ela não é um iceberg tão grande se comparada a estes outros aqui mas esta criança bem pode ter o tamanho da ilha da Sicília mediterrânea e ela é como uma abelha zunindo em círculos feliz por estar em águas quentes enquanto deriva para o norte. Eu adoraria ver a Antártica como uma paisagem estática monolítica um monolito de gelo que nem as pessoas do passado costumavam ver mas agora a nossa visão confortável sobre a Antártica não existe mais e nós a vemos como um ser vivo que é dinâmico e que está produzindo mudança. Mudança que está irradiando para o resto do mundo possivelmente em resposta ao que o mundo irradia para a Antártica e certamente lá no fundo nós sabemos que será assustador assistir ao que acontecerá a estas crianças quando elas chegarem ao norte.

Transcrição e tradução de Luis Gustavo Cardoso.

 

I’m actually adrift in the ocean a vagabond floating in the ocean and below my feet I can feel the rumble of the iceberg I can feel the change the cry of the iceberg as it’s screeching and as it’s bouncing off the seabed as it’s steering the ocean currents as it’s beginning to move north I can feel that sound coming up through the bottoms of my feet and telling me that this iceberg is coming north. That’s my dream. So here I’m sitting in this lovely warm lab and just outside is the environment that Scott and Shackleton first faced when they came here about a hundred years ago. Unlike Scott and Shackleton who viewed the ice as this sort of static monster that had to be crossed to get to the south pole, we scientists now are able to see the ice as a dynamic living entity that is sort of producing change like the icebergs that I study. For me it’s been a wild ride. First of all, I found out that the iceberg that I came down to study not only was larger than the iceberg that sank the Titanic, it was not only larger than the titanic itself, but it was larger than the country that built the Titanic. That’s pretty big. This is b-15 so what we see here is the white cliff it’s about 150 feet tall so that means that there’s over a thousand feet of ice below the water line. This iceberg is so big that the water that it contains would run the flow of the river Jordan for a thousand years, it’s so big that the water that is inside of it would run the river Nile for 75 years. This is a little bit of video that we shot when we were flying up to the iceberg it looks big and it looms above us even if we’re on an aircraft flying above the iceberg the iceberg is always above us it’s above us because it’s a mystery that we don’t understand. Here’s a picture of what it looked like once we had arrived in the center of the iceberg. We put out our instruments, now we’re gonna have an opportunity to monitor how the iceberg drifts north they’re so big there’s an element of fear we don’t know really what’s going to come ahead when they eventually begin to melt in the ocean beyond Antarctica. What we’re seeing now here is a time-lapse sort of animation of satellite imagery of the sea ice and of the continent of Antarctica and what you see are three shades of gray this sort of lighter shade of gray is the sea ice and these little bits and pieces here these are titanic icebergs this little fella right here he’s not a very big iceberg compared to these other ones but that guy there might be the size of the island of Sicily in the Mediterranean it’s like a little tiny bumblebee zipping around in a circle happy to be in the warm waters as it’s drifting North. I’d be happy to see Antarctica as a static monolithic environment a cold monolith of ice sort of the way the people back in the past used to see it but now our comfortable thought about Antarctica is over, now we’re seeing it as a living being that’s dynamic that’s producing change. Change that it’s broadcasting to the rest of the world possibly in response to what the world is broadcasting down to Antarctica certainly on a gut level it’s going to be frightening to watch what happens to these babies once they get north.

Luis Gustavo Cardoso

Luis Gustavo Cardoso

é músico e escritor. Publicou o livro de poemas Noite Grande, Editora Areia, 2017.

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