DESENHO A PENA

Em cima dos telhados de uma casa
pousa o grou-coroado e observa o pôr
do sol. Na crista, o zênite em calor
é a coroa de um rei, cocar em brasa.

Graciosamente pula e a queda atrasa
num duplo bater de asas que é rigor
e suavidade. E o pássaro, a antepor
uma à outra, dança e o espírito extravasa.

E é belo o seu balé. Girando em torno
de si, crepita como chispa em forno
e se dança é porque tem que dançar.

Na espiral há milênios. A destreza
imprime círculos e elipses no ar,
e assim que tem que ser, só por beleza.

FRESCOBOL

Apolo arremessou o disco ao sol
(na arte da sedução, seu aliado
de cegueira e calor). Era esperado
vencer naquele arcaico frescobol,

não que fosse vencido. Em direção
à luz, Jacinto perde o disco e a vista,
e o olhar do deus se inflama se revista
as suas costas jovens, em tensão.

Jacinto entesa os seus tendões e apura
o passo, e embora fosse todo pressa,
o sol o cega e atrasa a volta. Nessa
jogada calculada, o deus procura

examinar minúcia em suas costas.
Mas, sempre perto de Jacinto, o Vento
Oeste inflama outro fogo, ciumento
ao ver aquelas cenas sendo impostas.

Vencido pelo ódio, o Vento evoca
as noites onde, mais que ele, Jacinto
atiçou o calor de seu instinto
e provocava… Como então provoca.

Zéfiro, outrora calmo, traz procela
no seu peito, observando aquela ofensa:
“se sou vento que atiça o fogo” — pensa —
“noutro ritmo também apago a vela.”

E contra o jovem sopra aquele disco.
O corpo de Jacinto, pura lava,
bebia o sol, suando o refratava,
e ele, feliz e absorto, nenhum risco

sentia, como sempre… E, em investida,
atravessava o ar em arabesco
e num piscar de olhos desse fresco-
bol, viu que essa foi toda a sua vida…

Em um milésimo rachou-se o crânio.
Nessa explosão, seu cérebro em gotículas
voava pelo ar como partículas
de um sol que desabasse, subitâneo.

Apolo corre e, incrédulo, o reanima…
Nada acontece. O fôlego (este apêndice
da alma) se foi… Zéfiro arrepende-se
e enquanto choram sobre o sangue, rima

com o vento Oeste a luz de Apolo, e a chama
expande o miolo azul entre o vermelho,
se o ar reflete o fogo sobre o espelho
de sangue que nas lágrimas se enrama.

Da mistura nasce uma flor violeta,
se regado de sol, se deuses chovem
no fluido sangue quente desse jovem…
Viola tricolor a íris preta.

SANHAÇOS

Há pouca música nas bocas,
e todas elas me asseveram:
os pássaros estão cansados,
de tão gordos não voam mais.

Os pássaros não voam mais;
deixa-os pra trás, que isso é sonho,
essa tua sanha de enxergar
o ziguezague dos sanhaços

onde não há. Tomam por doido
se dizes: no cinza que veem
existem fios de azul-turquesa.

Mas, por pirraça, digo e voam;
e é de tanto voar que o céu
se impregnou nas suas asas.

ESBOÇO RECIFENSE

No termômetro, em rubro: trinta e cinco.
O asfalto quente na Rua da Aurora,
            cinza teto de zinco,
em ângulos confusos estertora,

tremendo no horizonte. Pelo vento
o range-range de outras vozes. Vê-se
            um cachorro sarnento
mijar num pneu de caminhão, e, nesse

calor, eu fico olhando pra sua mola
marrom — e o relógio dentro do pulso
            pensa em como não cola
nem impede, a ferrugem, seu impulso.

MAQUINÁRIO

É um fogo diferente: é como a ignição
de um maquinário sujo embebido no óleo;
constantes explosões gravitam o carvão
negro — menos que tu! — no preto dos teus olhos.

Pistões comprimem o ar, e a fala, obstada, cessa.
No barulho fabril se espessando na febre,
pingam suor de óleo, e esses pistões, em pressa,
esperam que jamais o silêncio se quebre

ou que se quebrarão. A caldeira rumina
a decomposição em gosma dos metais,
por outro lado, ronca a ausência em meio à mina
que agora é só buraco inútil, nada mais.

A tua mão vomita a graxa de outros dias
(um diesel carmesim escorrendo entre os dedos),
embaixo dela eu vi oleodutos de azias
se inflamando na espera árdua por teus torpedos.

Lençóis de óleo preto em meio a Serrambi…
Um peixe se debate ainda dentro d’água
e em suas guelras, cola abjeta a vir de ti,
produzida no esgoto atroz de tua frágua.

No sol o grande pai que o tarô me contou
e um fogo fixo corta o céu, não de través.
Do sol línguas de magma incendeiam quem sou
e o céu reflete a luz de escuridão do que és.

Fumaça lacrimeja os olhos — não teus olhos! —
e o fogo é outro, não o que aquece e ilumina.
Nos teus olhos explode a exploração de espólios;
de ti um cheiro quente — é sangue ou gasolina?

NOT DARK YET

Do quarto vejo o eclipse
enquanto escuto Dylan.
Mais um trago de uísque
pra encurtar a vigília.

Vendo tua mudança,
moon, I replay the past…
Eu, alvo, lua branca
que o vermelho reveste.

Do quarto vejo o eclipse
enquanto escuto Dylan;
um trago no cigarro
pra encurtar minha vida…

Mas ela continua.
Escondida, é clara.
E há noites em que a lua
de nuvens faz anáguas.

ONDE SE GUARDA O POETA

Ornamentada pelos símbolos,
na biblioteca do poeta
não há incenso nos turíbulos,
e queima só sua costela.

E queimam pó, assim, suspensos,
pregados na parede, fixos,
o pó, ou eles próprios, tensos
madeiros de outros crucifixos.

A cor do fogo dele é tripla,
amarelo violeta, é tríplice:
no ouro a clareza de Polímnia,
no roxo o ardor de Terpsícore.

Pairam as filhas de Mnemósine
em cima do poeta e queimam,
pela enésima vez escorrem
da memória até a caneta.

E o olor que sai é de azaleias
dançando no vento e ao sol,
mas misturado à luz de vela,
preciso ardor de girassol.

E fogo duplo, luz do ocaso,
no céu azul é que ele queime.
Nesse incensário algo mais claro,
o azul bebê do seu Verlaine.

E o poeta olha a biblioteca:
não há mais quadro na parede,
só um, aquele que o inquieta,
que não queimou em sua sede.

Um quadro grande de uma ave,
um gavião sobre um triângulo
com um círculo é seu entrave,
ainda não viu em outro ângulo:

esse triângulo invertido
é o símbolo da água, poeta.
Por tuas musas ele é triplo,
sob ti, que as domas, sendo esteta.

E dentro dele um redemoinho,
domo do alto mar e procela,
vento pulsante de menino,
Verlaine guiando tua vela.

Porém, acima disso tudo,
um gavião olha para o limbo;
outra madeira — pensa, astuto —
para queimar nesses turíbulos.

E olha longe, para o alto,
e esquece que do lado dele
está suspenso outro incensário
naquela samambaia verde.

Seu fogo é verde, primitivo,
resumos de delicadeza
nessa planta sem flor, no esquivo
olor da renda portuguesa.

Planta sedenta de água e alto,
de início áspera, mas se rende
e sobe as suas rendas caso
algum carinho lhe apresentem.

E o gavião não vê detalhes
nesse antiquário de família.
É natural que não o encare:
olha a distância mais longínqua.

Não vê que seu verde incensário
tem como nome Davallia,
que em suas folhas cortes vários
do que já foi, do que seria.

E nem da robustez da planta,
desse poder que há no simples…
A sua dimensão é tanta
que não há quem a versifique,

que apreenda por inteiro os símbolos,
digo que nem as nove musas,
porque há fogos que perduram
quanto mais queimam em turíbulos.

FLAMINGOS

Ocaso rosa claro
e flanam como nuvens
flamingos sobre o lago
atrás de algas vermelhas,
crustáceos oxidados.
        Esgarçado,
evade-se o horizonte…
E logo é noite. O céu
é claro ao plenilúnio.
Se dormem, os flamingos
não testemunham branco
virar vermelho, a lua
invejar suas plumas.

Mas um acorda; pensa
já ser dia de novo,
e quando vai comer,
para e olha pra cima…
Milésimo de instante
que o olho se liga à lua
    e parece brilhar.

Henrique Gomes do Nascimento

Henrique Gomes do Nascimento

24, nasceu em Olinda, Pernambuco. Poeta e tradutor, contribuiu com algumas revistas literárias, como Mallarmargens e Ruído Manifesto. Seu primeiro livro, Pássaros na noite, encontra-se no prelo da Editora Mondrongo, e contará com ensaio de Matheus Mavericco, orelha de Emmanuel Santiago, retrato por Pedro Mohallem e capa e desenhos de Sandro Castelli.

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