Imagem da autora e capa do romance publicado pela Editora Tabla


Apresentação do livro pela tradutora Safa Jubran

O arador das águas recebeu a Naguib Mahfouz Medal for Literature em 2000. Niqula Mitri, o narrador e protagonista deste romance, é um homem solitário que percorre a cidade de Beirute, devastada pela guerra civil, recordando as histórias de seu pai e de sua mãe egípcia, sua relação com a amada Chamsa, e vários episódios da história universal que costuram, em sínteses vertiginosas, o seu amor pelos tecidos.

O arador das águas é um livro sobre solidão, isolamento e… perdas: a perda da terra natal, destruída e usurpada; a perda de um mundo sutil e refinado, com a invasão da brutalidade, tanto na forma de guerra quanto na forma de um mundo moderno globalizado; a perda do amor, das pessoas próximas, da família e da amada. Mas também é um livro que fala dos ganhos, ganhos insuspeitados: a solidão traz uma certa liberdade, um encontro profundo consigo mesmo, a possibilidade de percorrer um caminho iniciático de autoconhecimento; e ao invés de fazer um inventário das ruínas, Niqula opta por colher amoras, improvisar uma vara de pesca, cultivar um jardim, contemplar tecidos banhados pela luz.

A narrativa é montada sobre 4 pilares temporais que se cruzam ao longo do livro: um momento presente, em que Niqula constrói um novo mundo para ele, para sua vida solitária, a partir dos escombros de uma cidade devastada pela guerra; um passado remoto, em que conta a história de seus pais e os pais de seus pais, chegando ao bisavô paterno; um passado recente, feito de recordações de sua vida com a mãe, já viúva, e com a amada Chamsa, a empregada curda; e um passado histórico, tanto da cidade de Beirute quanto dos eventos ancestrais que narram peculiaridades, em sua maioria, ligadas aos tecidos — Niqula herda de seu pai não apenas a loja de tecidos, mas uma espécie de código têxtil, uma lente pela qual ele pode compreender o mundo.

Hoda Barakat construiu, em O arador das águas, uma obra-prima da narrativa que, como um tear, sobrepõe, em distintas cores, tempos, histórias, conhecimentos e memórias. E tudo amparado por uma urdidura de intensa força poética, onde a tecelagem aparece como ferramenta analógica de compreensão e prática do nosso lugar num desenho cósmico muito mais amplo… pura metafísica.


Trecho do romance O Arador das Águas recém-publicado pela Editora Tabla

Você cresceu, Chamsa. Cresceu mais rápido do que as minhas mãos podem suportar. Mais rápido do que os meus dedos podem alcançar. Largue seu linho, Chamsa, e venha agora para o veludo.

Chamsa ria enquanto desmanchava suas tranças ruivas. Ela não estava envergonhada de seu corpo cheio. Sua carne alva transbordava de minhas mãos e de meus braços. Ela crescera e aumentara como a massa abençoada. Suas coxas adquiriram a fragrância da baunilha; suas nádegas, o sabor de biscoitos fofos. Fazia minha saliva escorrer, feito um destilado de água de rosas.

Eu sou gorda.

Não. Você não é gorda. Você é farta e abundante, flui com generosidade feito chuva de nuvens carregadas, quando os céus estão satisfeitos. Arredondada, feito o pêssego da Pérsia, doce até o caroço.

Chamsa ria. Suas pulseiras douradas tilintavam e com elas meu coração, que garoava fininho, se espalhando feito farinha na planície nevada de sua barriga.

Cinzas brancas sobre a brasa rosada da sua pele, Chamsa. Tensa, para que eu veja, para que apareça aos meus olhos, para que eu sopre bem de leve sem ondular o veludo da cinza nem apagar a brasa rosada, brasa escondida, à espera da minha pele, da palma da minha mão, sempre fria, da minha boca faminta, sequiosa e sempre ofegante.

Eu sou gorda, disse Chamsa, porque não tenho país. Eu como para que o meu corpo cresça e plante o seu peso firmemente na terra, como para fazê‑lo pressionar o chão. De tanto caminhar, após deixar a nossa terra, eu me sentia flutuando no ar. Agora, eu engordo para me fixar e sentir a presença de uma pátria. Para que minhas dimensões se expandam e ocupem o ar, para me estabelecer em algum tipo de densidade e habitar uma casa que pertença a mim. Chamsa abandonou o linho quando abandonou a timidez da nudez de seu corpo movendo‑se na luz sob meu olhar. Chamsa abandonou sua vergonha quando começou a aprender o veludo. Em casa, eu lhe narrava o veludo o dia todo, até o anoitecer, quando ela voltava para seu próprio lar. Mas ela o aprendeu, também, nas luzes da noite e na penumbra, nos momentos em que os combates pesados tornavam seu pernoite na minha casa algo aceitável para sua família, mesmo que a distância entre as duas casas fosse muito curta. Comecei a ensinar o veludo para Chamsa antes de a guerra começar. Eu trazia da loja amostras do veludo mais bonito que tínhamos. Grandes cortes, que eu revelava aos poucos. Em cada aula eu reservava uma história para lhe contar e ela subia comigo a um novo nível de prazer, feito o discípulo de um mestre sufi, que exercita seu deleite através do conhecimento, da descoberta e do desvelamento. Pouco a pouco, seus sentidos ficaram mais aguçados e ela aprendeu também a dizer. Expressava seu desejo em voz alta, exigia obediência e buscava a submissão. Ela me ensinava a servir seus sentidos e qual trilha seguir por seu corpo. Era assim também que destrancava sua memória, dizia quem ela era, contava sobre seu povo, sua gente e a terra que havia deixado. Meu pai era muito velho quando atravessou o rio, disse Chamsa.

Do dorso da sua cansada mula, que batia os cascos nas pedras das montanhas, ele disse à minha mãe: Não. O que você está vendo é apenas uma ilusão. Está imaginando coisas graças à neblina e às nuvens baixas. A terra que buscamos é sempre verdejante. Ainda estamos muito longe das suas bondosas fronteiras.

Meu pai foi forçado a deixar sua tribo, os Hakkari, e as colinas de Kharbut, que desde os tempos do meu avô já não eram mais um lugar seguro. Assim, nós nos tornamos praticamente indistinguíveis dos Ghamiri, o povo das planícies, a quem costumávamos chamar de órfãos ou vacas mortas. Eles nos serviam, eram os nossos riyit, e não pastores livres como nós.

Após recusar ser nomeado chefe da nossa tribo pelos turcos, o que significava pagar o jurak sobre o kabchur, isto é, um imposto sobre o gado, meu pai, já idoso, também se recusou a trabalhar como ulam ou bighar a serviço do Estado. Ele não permitiu que os homens fizessem trabalhos forçados, da mesma forma que não aceitou as recompensas, o dis kirazi. Ele disse: Não. Nós não daremos refúgio nem alimentaremos as tropas que passam contra a nossa vontade. Nós não obedecemos aos senhores dos soldados. Meu avô, que amava o meu pai mais do que todos os muitos outros filhos, costumava lhe dizer que apoiava o emir Amin Badirkhan, Charif Paxá e Abdulqadir Chamdinan, que fundaram o primeiro jornal curdo, o Curdistão, e uma escola também. O jornal teve que mudar de nome repetidas vezes, depois que se tornou clandestino, até se intitular Hatawi Curd, que significa “Sol Curdo”, definitivamente. Foi a minha mãe quem me contou essas coisas, passadas a ela pelo meu pai, que, por sua vez, ouvira do meu avô, o xeique mestre, dono de conhecimento profundo. Tudo isso foi confirmado pelo meu primo, o aprendiz. Depois que a guerra eclodiu, com a invasão dos turcos, meu avô e os seus companheiros começaram a exigir independência. Em resposta, os turcos iniciaram uma operação de extermínio. Quem conseguiu escapar acabou fugindo para longe quando Mustafa Kemal Ataturk ocupou Constantinopla. Muitos começaram a se encontrar secretamente para preparar a proclamação da Independência. Um coronel inglês do serviço secreto britânico fez promessas otimistas a esses exilados. Chamava‑se coronel Bill, mas era um mentiroso. Desde o Tratado de  Paris, firmado com os armênios, até o Tratado de Lausanne, os turcos e os ingleses nos enganaram e nós acabamos assim, como você pode ver. Eu guardo na memória tudo isso e muito mais.

Não somos serviçais, dizia Hatawi, e eu então beijava os dedos de seus pés. Mas o meu avô não gostava das guerras nem das matanças. E no rimal, na grande tenda, quando o revolucionário xeique Said Albirani o procurou para convidar a ele e à sua tribo a se juntarem aos rebeldes, meu avô recusou. As condições não lhe agradaram. Ele disse que o xeique Albirani era precipitado e inconstante, domado pelos desejos de vingança e de morte. Disse que nos seus olhos havia uma crueldade sombria. E quando, no mesmo rimal, Aghri Dey veio ter com o meu avô, trazendo uma proposta semelhante, cinco anos após a oferta do xeique Albirani, meu avô levou um tempo para responder. Todas as grandes tribos estavam reunidas no Conselho, onde os homens discutiam longamente e tomavam chá. Só saíam para urinar na grama e logo voltavam para a reunião. Eles jantaram em silêncio e, em seguida, colocaram diante do meu avô um par de chinelos para que ele tomasse uma decisão final por eles, como era o costume. Ele calçou os chinelos e saiu do Conselho. Dirigiu‑se à tenda do seu bir, isto é, à tribo do clã ao qual ele pertencia, falou com eles brevemente e todos os homens assentiram. Eles não gostavam de guerras que não fossem limpas, aquelas do tipo katchi, movidas pela vingança. Naquela noite, abraçado à sua esposa, meu avô dormiu triste.



A Tabla é uma editora dedicada às culturas do Oriente Médio e do Norte da África, e seus desdobramentos e influências nas culturas ocidentais.

Nosso objetivo é apresentar essas culturas, principalmente a literatura árabe, de forma autêntica e legítima, desde a tradução direta do idioma original para o português, até a escolha dos autores e das temáticas das publicações, buscando excelência e diversidade.

Acreditamos que é importante percorrer e construir pontes culturais, sempre enfatizando as interseções positivas, por isso a Tabla é um projeto amplo, não só de publicação, mas de promoção de debates, de divulgação nos meios acadêmicos, de formação de tradutores, de construção de parcerias e outras ações que vão muito além do livro e que têm como meta a consolidação, no Brasil, da presença da cultura árabe de forma autêntica e atual.

Hoda Barakat

Hoda Barakat

nasceu em Beirute, no Líbano, em 1952. Graduada em Literatura Francesa pela Universidade de Beirute, trabalhou como professora, tradutora e jornalista antes de se mudar para Paris, em 1989, onde vive até hoje.

Safa Jubran

Safa Jubran

nasceu em Marjeyoun, no Líbano, em 1962, e chegou ao Brasil em 1982. É professora livre-docente na Universidade de São Paulo, onde leciona língua e literatura árabes desde 1992.

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