Apresentação e tradução do polonês Piotr Kilanowski

Quatro poemas, quatro poetas, um tema. Ou quase um. Temos três diálogos antes da viagem para o paradeiro mais misterioso das nossas vidas e um poema que reflete a solidão dessa viagem inconcebível. Dois dos poemas, o de Jarosław Iwaszkiewicz e o de Tadeusz Różewicz, ambos marcando seu silêncio pela falta de um título, ambos saindo da garganta apertada (talvez a articulação de Różewicz esteja mais apertada, mais essencial e mais simples e por isso mais impactante) nos colocam diante do último diálogo da mãe e do filho. A figura de pietá, na qual a ordem da natureza está revertida, obriga a doadora da vida ser também a pessoa que ajuda a fazer a transição para a não-vida, a outra margem. O que está nela? O nada? Se for, dentro dele também há uma réstia de esperança, como no poema de Iwaszkiewicz, o infinito do não saber.

Todos esses poemas contêm em si a escuridão e a tentativa de expressar o inexpressável. Todos são um grito, um protesto que ele mesmo sendo mudo, por tentar expressar o silêncio, emudece o leitor. O protesto contra a condição humana e, em algum nível, também a aceitação da sua inevitabilidade. O drama existencial nos primeiros três poemas é encenado pela primeira forma de um drama: diálogo. E se no poema de Aleksander Wat temos a situação que pode se referir ao último diálogo apenas metaforicamente, o mais essencial dos poemas, o mais dramático, da autoria de Różewicz, é também aquele que nos despoja de quaisquer ilusões. As palavras mais banais, mais gastas, quase todas com marcas de oralidade são dispostas pelo poeta de uma maneira que não apenas rasga o leitor mas também o obriga a mergulhar no infinito das palavras como “tudo” e “nada” colocadas em uma oposição completa. Começando pela situação coloquial, que sugere uma partida ou viagem, Różewicz por meio de absoluta economia de palavras, que ecoam ao longo do poema e do diálogo, fortalece o efeito da nossa impotência diante do inevitável. Renovando as palavras gastas nos aproxima daquilo que não pode ser dito.

“Busco as palavras que não existem”, disse Jerzy Ficowski no livro
A leitura das cinzas, que por meio da palavra poética tentou instaurar o monumento à ausência provocada pelo Holocausto. Różewicz não procura essas palavras. Por meio das que existem nos aproxima à não-existência que sustenta a nossa existência. Tudo isso, “a vida inteira”, para nós, seres compostos da eterna insatisfação, será sempre um espantoso “só isso” …

No último dos poemas o grito faz parte da paisagem inóspita do espaço da morte. A morte, o extremo da alteridade que nos retira a condição de sujeito nos transformando em objeto no poema de Zbigniew Herbert aparece no cenário do mito grego. A alma que ainda há pouco talvez estivesse dialogando está prestes a iniciar a viagem para a outra margem. É a margem da transcendência, a terceira margem do rio? É a margem do nada? É a margem do esquecimento? O silêncio sepulcral, sem sequer um uivo de um cão, o negror tão completo que a noite nem é alumiada pela pálida luz da lua indicariam isso. A imagem dos antigos contos de fadas da humanidade é mais uma tentativa de domesticar o inexpressável na tentativa de compreendê-lo por meio de mais uma narrativa.

Esses poemas que registram toda essa angústia são “a vingança da mão mortal”, como disse Wisława Szymborska que de seu poema a respeito da morte fez um hino à vida, tirando da morte a sua pretensa onipotência: “Quem afirma que ela é onipotente/ é ele mesmo a prova viva/ de que onipotente ela não é./ Não há vida/ que pelo menos por um momento/ não tenha sido imortal.” (trad. de Regina Przybycień). “Só isso”, apesar de tudo ainda é “tudo isso”.

Jarosław Iwaszkiewicz

(1894-1980) foi poeta, prosador, dramaturgo e político polonês. O amor e a morte e sua relação, assim como efemeridade da vida sempre figuraram como temas importantes na sua obra. Vários dos contos de Iwaszkiewicz serviram como inspirações para os filmes de Andrzej Wajda. Foi um dos fundadores e membro de Skamander (Escamandro) o mais importante grupo poético do entreguerras polonês. Sua obra lírica, extremamente melódica e pessoal é marcada pela constante presença de elementos contrários: afirmação da vida e fascinação pela morte, fé no poder da arte e dúvida no poder das ações humanas, elementos contemplativos e sede de viver.

Jarosław Iwaszkiewicz

***

Mamãe, eu fiquei cego?
“Não, filho. Só a noite escura”.

Por que é tão terrível?
“Nada, filho. Não tarda”.

E ainda frio por cima
“Depois não sentirás mais nada”.

Mesmo assim, tenho medo.
“Deus é bom – diz Epícuro”.

Oh, tem uma réstia na frente.
“Chamam isso de existência”.

Roma, IV-V, 1975.

Jarosław Iwaszkiewicz

***

Mamo czy ja oślepłem?
“Nie synku. Tylko noc ciemna”.

Dlaczegóż jest tak straszna?
“Nic synu. To już niedługo”

Jeszcze i zimno do tego.
“Potem już nic nie poczujesz”.

Ale się jednak boję.
“Bóg dobry – mówi Epikur”.

O, jakiś promień przede mną.
“To się nazywa istnienie”

Rzym, IV-V 1975.

Tadeusz Różewicz

(1921-2014) foi poeta, prosador e dramaturgo polonês. Sua obra foi traduzida para cerca de 50 idiomas. Sua poesia, marcada pela crueldade da vivência da guerra é um retrato e um protesto contra atrocidade, indiferença e crise da cultura. Różewicz, na tentativa de escrever poesia depois da experiência devastadora de guerra criou uma dicção própria, por vezes classificada como anti-poesia, que influenciou toda a produção polonesa do pós-guerra. Seus versos unem a simplicidade com a força expressiva e profundas interações dialógicas com outras obras de cultura. Sua poesia percorre o caminho da extrema economia de palavra à pós-moderna tagarelice que interage com outras obras de arte, autobiografismo, acontecimentos do mundo ao redor e reflexões metaliterárias.

Tadeusz Różewicz

***

à memória de Konstanty Puzyna

Já está na hora
o tempo urge

o que levar consigo
para a outra margem

nada

então isso já é
tudo
mamãe

sim filhinho
isso já é tudo

então é só isso

só isso

então isso é a vida inteira

sim a vida inteira

1991

Tadeusz Różewicz

*** 

pamięci Konstantego Puzyny

Czas na mnie
czas nagli

co ze sobą zabrać
na tamten brzeg

nic

więc to już
wszystko
mamo

tak synku
to już wszystko

a więc to tylko tyle

tylko tyle

więc to jest całe życie

tak całe życie

1991

Aleksander Wat

(1900-1967) foi poeta e prosador polonês. Um dos fundadores do futurismo polonês que revolucionou a expressão linguística na poesia da época, Wat ao longo da vida percorreu o caminho do vanguardista que desconstruía a ordem da cultura e da religião a um dos autores mais fascinados pela tradição cultural e religiosa. Um grande erudito que almejava a obra que seria uma denúncia contra o totalitarismo soviético (uma parte dela que acabou sendo concluída por Czesław Miłosz foi um livro de conversas gravadas entre os dois poetas Mój wiek – O meu século) descrevia a condição de um intelectual na era dos totalitarismos. Sua poesia escrita em vários estilos e poéticas, sempre condensada e repleta de referências culturais acabou tendo como um dos temas centrais a dor. O poeta foi acometido pela doença (Síndrome de Wallenberg) que lhe causava dores constantes e excruciantes e foi um dos motivos de seu suicídio. Uma seleta de sua poesia e prosa em minha tradução está sendo preparada para publicação pela editora Âyiné.

Aleksander Wat

“Conversação na margem do rio”

– “Olhe,
a luz se esvai
como aroma de ânforas”.

– “Não precisa de poesia
abandone metáforas”.

– “A noite nos agarrou
e nas patas amassa.
O dia se esvaiu
como fumaça.”

A voz cessou. Apagou-se a Estrela.
Sufoco, calor.
– “Confie! Force as vistas!”

Negror.

1952

Aleksander Wat

„Rozmowa nad rzeką”

– „Patrz
światło się ulatnia
jak zapach z amfor.”

– „Nie trzeba poezji
poniechaj metafor.”

– „Noc nas zdybała
ugniata w łapach.
Dzień się ulotnił
jak zapach.”

Głos ustał. Gwiazda zgasła.
Duszno parno.
– „Bądź ufny! Wytęż oczy!”

Czarno.

1952

Zbigniew Herbert

(1924-1998) foi poeta, ensaísta e dramaturgo polonês. Sua obra é marcada pela sensação de pertencimento à tradição ocidental e a sensação de deserdamento dela por ter que viver os tempos bárbaros dos totalitarismos comunista e nazista. O uso que Herbert faz da tradição, relendo os mitos e as obras de cultura sob a perspectiva moderna é também um sensível testemunho do drama do intelectual que precisa se defrontar com a ditadura comunista e a deformação consumista. Uma das criações mais famosas de Herbert foi um retrato desse intelectual, uma espécie de seu alter ego poético, o Senhor Cogito. Temas centrais da obra de Herbert orbitam em torno do sofrimento, da morte e do papel da cultura na releitura do mundo ao seu redor. Além do livro de ensaios publicados pela editora Âyiné, Um bárbaro no jardim, a mesma editora prepara a publicação de volume de sua poesia em minha tradução.

Zbigniew Herbert

A margem

Aguarda na margem de um rio imenso e moroso
na outra margem Caronte o céu brilha turvo
(não é aliás céu nenhum) Caronte
já está aqui apenas lançou a corda sobre um galho
ela (a alma) retira o óbolo
que por pouco tempo azedou sob a língua
senta na popa da barca vazia
tudo isso sem uma palavra

se ao menos a lua

ou o uivo de um cão

1969

Zbigniew Herbert

Brzeg

Czeka nad brzegiem wielkiej i powolnej rzeki
na drugim Charon niebo świeci mętnie
(nie jest to zresztą wcale niebo) Charon
jest już zarzucił tylko sznur na gałąź
ona (ta dusza) wyjmuje obola
który niedługo kwaśniał pod językiem
siada na tyle pustej łodzi
wszystko to bez słowa

żeby choć księżyc

albo wycie psa

1969

Piotr Kilanowski

É tradutor de poesia, professor da literatura polonesa na Universidade Federal do Paraná, fundador e coordenador do Centro de Estudos Poloneses na mesma universidade (http://cepol.polonesufpr.info/). Traduziu para o português entre outros os livros de Jerzy Ficowski (A leitura das cinzas), Anna Świrszczyńska (Eu construía a barricada), Zbigniew Herbert (A viagem do Senhor Cogito e Senhor Cogito – anotações da casa morta), Władysław Szlengel (A janela para o outro lado. Poemas do gueto de Varsóvia), Wisława Szymborska (em pareceria com Eneida Favre Riminhas para crianças grandes), Irit Amiel (Não cheguei a Treblinka a tempo) e, para o polonês, os poemas de Paulo Leminski (Powróciło moje polskie serce). Em breve futuro deverão ser publicadas suas traduções de seletas de poemas de Krystyna Dąbrowska, Aleksander Wat, Anna Świrszczyńska e Zbigniew Herbert.

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