I -A natureza animal
Estranhei Mariana (quero dizer, Fabiane) quando a encontrei, estática, em frente ao prédio de História e Geografia – É que eu vim me despedir da USP – disse ela – antes de ir embora.
Lembro que pensei – “curioso, ela estar se despedindo dos lugares…”
Eu não suspeitava, mas já era o concebimento de Mariana, a protagonista de Ilhas Suspensas.
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Fabiane havia acabado seu Mestrado com muito sucesso. Após haver sido orientada pela banca do exame de qualificação a não achar tudo válido, sem discriminação, e por mim, como orientadora, a descobrir a dominante, o prisma pelo qual ela analisaria “A amiga genial” de Elena Ferrante (acabou sendo a “ausência”, como muito bem diz o poeta madeirense Eduardo Quina em sua Cosmogênese “a escultura do ser é lapidação da ausência”). Agora estava pensando em seu Doutorado, para o qual já havia se inscrito na própria USP, mas nos despedimos nessa tarde ensolarada, sem saber até quando.
Na verdade, o processo de transformação de Fabiane em Mariana já havia iniciado quando, a pedido médico, lhe fora concedido um período de adiamento ao prazo de elaboração da tese de doutoramento.
A explicação do porquê desse processo, no romance Ilhas Suspensas, começa assim:
Clomid. Letrozol. Desogestrel. Fostimon. Miosan. Venlift. Olanzapina. Zolpidem. Essa era a combinação química com a qual o corpo de Mariana tentava lidar na manhã do terceiro para o quarto dia de estimulação hormonal, a terceira tentativa de fertilização in vitro. Naquela tarde, sete meses antes da mudança que estava por vir, ela faria um ultrassom transvaginal para acompanhar o crescimento dos óvulos, e que – a montanha-russa de emoções, a explosão de espinhas, as crises depressivas – que adviriam, seriam consequência do tratamento.
Já dá para ver certos procedimentos que entrarão no estilo da narrativa: enumeração abrupta de dados científicos e outros – Mariana será bióloga animalista: lê Ed Yong “Como os sentidos dos animais revelam reinos ocultos”, – sem as explicações óbvias que inferiorizam o leitor, e a personificação de estruturas – o corpo, no caso – de entes e de seres.
Para ser coerente com os preceitos da Teoria Literária, eu também deveria escolher o prisma pelo qual apreciar o delicado romance que Fabiane escreveu. Além da linguagem que vem em primeiro lugar:
Em seu caderno de anotações, Mariana também vai misturando transcrições de trechos de obras literárias, livros de ciência, e quando relê o mosaico sente que só poderia escrever assim: em língua portuguesa e na terceira pessoa do singular — que, neste caso, seria mais uma espécie de primeira pessoa do plural. Um “ela” que se funde a um “nós”, contingência para as leituras que faz, para as conversas que tem, para a voz dos mortos, as ideias alheias que reverberam nela e se tornam suas também. Somos entidades simpoiéticas, na expressão de Haraway: qualquer individualidade está sempre fundada numa multiplicidade.
Há também as imagens, como as que assombravam Mariana nos momentos de desassossego: a maternidade como imposição simbólica, o luto ( o velório de sua sobrinha, a morte da mãe, etc.); as ilhas suspensas (ótimo título!): as circunstâncias em que Mariana se encontra no país estranho e suas sensações: a mistura de sentimentos, pressentimentos, transcrições e sonhos que constituem o assim chamado umwelt (mundo perceptivo particular do ambiente circundante) no país para o qual ela, o marido e Quincas emigram:
Mariana nunca tinha visto uma concentração de pessoas velhas como na nova cidade, em especial no novo bairro, e ficava admirada com a autonomia que testemunhava. Não a de velhos atletas que desafiam os livros de recordes com seus corpos musculosos, mas a de carrinhos-andadores que acompanham as pessoas às feiras, às lojas, a todos os lugares. O reumatismo lhes entortava o esqueleto, mas não os impedia de caminhar. No compartimento inferior dos andadores, guardavam batatas, cebolas, pimentões, frutas da estação, pães recém-saídos do forno. Na praça onde acontecia a feira de agricultores, havia uma loja de sapatos ortopédicos bem desenhados e duas de aparelhos auditivos. Vivia num pequeno parque temático da velhice e, sendo ela uma alma antiga, começou a se sentir em casa.
Quincas? Na resposta que enviei a Fabiane, logo após minha leitura do livro, eu disse que Quincas era o fiel da balança, o ponto de equilíbrio da história toda. Mas quem é Quincas?
Quincas havia completado doze anos em maio, poucos meses antes da mudança. É mais tempo do que está casada com o marido. Acredita, como Haraway, que o genoma de Quincas e o seu sejam mais parecidos do que deveriam ser, de acordo com os manuais. Misturaram-se de tal forma que não consegue imaginar a separação que viria. Quando um dos dois deixasse de existir, o outro levaria consigo parte do corpo morto, impregnado em suas células. Depois desapareceriam aos poucos, transformando-se juntos em matéria orgânica, quem sabe experimentando a sensação das plantas.
Quincas é o cachorro deles, o representante da natureza animal não apenas estudada, mas vivida por Mariana em todos os momentos cruciais, a ponto de personificá-lo, não como substituto do filho que não veio, mas como interlocutor, confidente, e sim – dentro do perspectivismo de Nietzsche e do nosso Eduardo Viveiros de Castro –, a ponto de ela mesma caninizar-se. É essa natureza animal que escolhi como dominante temática, em minha leitura de Ilhas Suspensas, imersa na delicadeza das descrições e na contundência das considerações, e fui recompensada:
Há coisas que Mariana não conta a ninguém, mas quando ela e Quincas estão sozinhos, ela anda de quatro pelo apartamento tentando enxergar móveis, pisos, tapetes e manchas de luz sob a perspectiva dele. O apartamento visto assim, de baixo, é bem diferente. Ela também se deita nos cantos preferidos do cachorro e se encolhe toda nas duas camas dele, uma no quarto e outra na sala, a ponto de quase caber inteira. Quincas gosta do experimento, acompanha de perto as expedições, os olhos vívidos, as orelhas alertas. Cheira Mariana deitada em sua cama, cheira Mariana cheirando sua comida, solta pequenos grunhidos alegres e abana o rabo, em aceno, quando ela se aproxima de sua fonte e bebe um pouco de água (…) Estão contentes.
Mariana faz amizade com Florence, organizadora e animadora de um grupo de mulheres que, entre outras atividades, praticam Yoga. Visita a casa dela, conhece seus hobbies e conhece Afrodite, a gata com seus filhotinhos que se dá bem com Quincas. Seu âmbito de relacionamentos se alarga. Mas o luto persegue Mariana e … Quincas morrerá.
E agora? O final do livro permanece em aberto. O que fará Mariana, antes que, nesse mundo ameaçado, todos nós nos transformemos em matéria orgânica quem sabe experimentando a sensação das plantas, ou mesmo em matéria inorgânica?
Ao acompanhar o marido que foi transferido para outro país, Mariana continuará sua pesquisa?
Adotará outro bichinho, seguindo a sugestão de Donna Haraway que em seu “Manifesto das espécies companheiras” incentiva criar laços com animais, plantas e outras entidades não humanas para enfrentar o antropoceno e o capitaloceno?
Aurora Fornoni Bernardini
Aurora Fornoni Bernardini é professora, escritora e tradutora. Na Universidade de São Paulo (USP), além de mestrado e doutorado sobre futurismo russo e italiano, concluiu em 1978 sua livre-docência sobre Marina Tsvetáieva. Bernardini começou a estudar russo em 1958 e, no fim da década de 1960, durante o mestrado, foi convidada para lecionar no curso de russo da USP por Boris Schnaiderman (1917–2016). Atualmente é professora titular de pós-graduação nos programas de Literatura e Cultura Russa (atual LETRA) e de Teoria Literária e Literatura Comparada (FFLCH/USP). Em 2003, foi finalista do prêmio Jabuti pela tradução de Cartas a Suvórin, de Anton Tchékhov (Edusp, com Homero Freitas de Andrade); em 2004, recebeu o prêmio Jabuti (segundo lugar), com o poeta Haroldo de Campos, pela tradução de Ungaretti: daquela estrela à outra (Ed. Ateliê Editorial); em 2006, foi vencedora do prêmio APCA pela tradução de O exército de cavalaria, de Isaac Bábel (CosacNaify, com Homero Freitas de Andrade); em 2006, foi contemplada com o prêmio Paulo Rónai pela tradução de Indícios flutuantes — poemas, de Marina Tsvetáieva (Martins Fontes), de quem Bernardini ainda verteu Vivendo sob o fogo: confissões (Ed. Martins, 2008); em 2007, foi vencedora do prêmio Jabuti (terceiro lugar) também pela tradução de Indícios flutuantes; em 2014, foi finalista do Jabuti pela tradução de “Os sonhos teus vão acabar contigo”: prosa, poesia, teatro, de Daniil Kharms (Kalinka, com Daniela e Moissei Mountian).