II –  A delicadeza vegetal

Plantas? Aqui vão algumas considerações de outra escritora-poeta que optou pela natureza vegetal e que, quem sabe, poderá consolar um pouco Mariana.

 *

Falei de literatura para vários adolescentes que me olhavam perturbados, garotos que mal escrevem, disse-lhes: mantenham o estranhamento vivo, mantenham uma pergunta maciça no centro da testa, que fique mesmo sem resposta em sinal de alerta”, escreve a poeta-performer-paisagista Natalia Barros no livro A insurreição da flor que foi lançado entre amigos em 2022. É um excelente conselho para quem quer escrever e, de fato, o estranhamento é um dos ingredientes fundamentais da arte literária.

Gostei muito dessa “insurreição” e pedi à autora que me enviasse outras. Recebi seu livro de estreia, Caligrafias, de 2012, que começa com uma simples afirmação na bio-grafiaacredito em vida antes da morte” e vai em frente: sigo por matas ciliares / por onde quer que eu vá / levo comigo / a bagagem do que invento: 

 

sob esta luz que viu
envelhecer os homens
há também um jardim
de luas verdadeiras
há lepidópteros
e uma artemísia
com o seu pequeno caule
a cair para uma certa altitude
ninguém pergunta
pelas razões dessa luz …

Oratório de María Negroni
(tradução de Eduardo Quina)

Aos poucos fui percebendo que essa bagagem tem tudo a ver com o mundo vegetal:


FUNDAMENTAL

aprendo com o jardim
ainda mais
com a invenção do jardim
quero o que tornou – se
– necessariamente –
não vinha ao caso e veio
flor impressionista
flor intacta
flor inesperada
cansei do inabitado
da brutalidade obscura
do não reconhecer

Se Natalia tem em comum com Mariana a “alma antiga”, seu caminho (seu “ final”) não é aberto a incertezas, mas tem rumo:


Leio constantemente jornais velhos, não dou conta do ritmo alheio.
Dou conta do meu quando posso – mas nem sempre é bom poder.
Minha cabeça carrega cabelos que caem todo dia,
crescem todo dia. O corpo é de grande movimento.
Pura combustão solar. É verão, quem puder aguente,
ou na melhor das hipóteses, goste.

Como Mariana ela procura seu eixo: alegria e tristeza são uma coisa só:


MEMÓRIA

a carne é forte
o espírito é forte
as lembranças são presentes
— para ser alegre
para ser triste —
uma coisa inclui a outra coisa


A dama da noite, sem escrúpulos, segue inebriando o pomar.
Apaziguado o dia clareia. Inspeciono os estragos.
Carrego galhos, troncos e feixes de gravetos com as mãos.
A força dos braços tem função, ordem, embelezamento.

Cuido do jardim, procuro o sentido.
Sigo o chamado do sim.


deixo cair sementes
para reconhecer
o caminho
de volta
do instante acontecido
quando a loucura aparente se distrai
transformando-se
num potente jardim florido.

 

Somos entidades simpoiéticas, diz Donna Haraway a Mariana, e Natalia propõe:


Já experimentou plantar tomate?
Tentei várias vezes. No canteiro da horta ficam lindos a princípio,
mas é só dar as costas que eles vão se dispersando, invadindo
o pomar, escondidos na terra adubada e nos bicos dos passarinhos.
Quando vejo, estão misturados, felizes, no vaso de cactos,
no pergolado das roseiras ou no canteiro das helicônias.
Detestam ficar enfileirados, no lugar previsto.
São deliciosamente anárquicos. Agem em grupo e apesar
da frágil aparência, são bastante perigosos. Muita gente gosta
de se manifestar jogando tomates, eu prefiro tê-los e comê-los.
Poesia também é assim.


Ao findar o livro, Natalia também sofre com a vista lúgubre de um  cão sem vida
:

 

O CÃO

No meio do trânsito na estrada, como sempre pesado,
vi num viaduto, um homem carregando um corpo
de um grande cão morto, recentemente atropelado.
Não parecia que o cachorro fosse dele,
parecia apenas que ele estava lá, naquela hora,
e que teve compaixão.
O cachorro não era de ninguém, o homem não era ninguém,
e seguiam agora juntos pelo asfalto quente.
O homem com o corpo do cão nas costas.
Um parangolé.
Atravessaram o meu caminho. Feito coisa feita destino.
 

Mas, coragem, Mariana:

Drama não é o fim de cada ato.
A vida é drama de fato.
A ação é dramática. 

A alegria também.

Foto de Aurora Fornoni Bernardini

Aurora Fornoni Bernardini

Aurora Fornoni Bernardini é professora, escritora e tradutora. Na Universidade de São Paulo (USP), além de mestrado e doutorado sobre futurismo russo e italiano, concluiu em 1978 sua livre-docência sobre Marina Tsvetáieva. Bernardini começou a estudar russo em 1958 e, no fim da década de 1960, durante o mestrado, foi convidada para lecionar no curso de russo da USP por Boris Schnaiderman (1917–2016). Atualmente é professora titular de pós-graduação nos programas de Literatura e Cultura Russa (atual LETRA) e de Teoria Literária e Literatura Comparada (FFLCH/USP). Em 2003, foi finalista do prêmio Jabuti pela tradução de Cartas a Suvórin, de Anton Tchékhov (Edusp, com Homero Freitas de Andrade); em 2004, recebeu o prêmio Jabuti (segundo lugar), com o poeta Haroldo de Campos, pela tradução de Ungaretti: daquela estrela à outra (Ed. Ateliê Editorial); em 2006, foi vencedora do prêmio APCA pela tradução de O exército de cavalaria, de Isaac Bábel (CosacNaify, com Homero Freitas de Andrade); em 2006, foi contemplada com o prêmio Paulo Rónai pela tradução de Indícios flutuantes — poemas, de Marina Tsvetáieva (Martins Fontes), de quem Bernardini ainda verteu Vivendo sob o fogo: confissões (Ed. Martins, 2008); em 2007, foi vencedora do prêmio Jabuti (terceiro lugar) também pela tradução de Indícios flutuantes; em 2014, foi finalista do Jabuti pela tradução de “Os sonhos teus vão acabar contigo”: prosa, poesia, teatro, de Daniil Kharms (Kalinka, com Daniela e Moissei Mountian).

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