A Literatura Infantojuvenil (LIJ) consolidou-se como bem cultural no Brasil a partir do século XX, quando do surgimento de grandes escritores e ilustradores, do avanço do meio editorial e da consolidação da Teoria da Literatura, na qual a criança e o jovem foram inseridos com suas peculiaridades. 

Diante da leitura de um livro de LIJ, o leitor de qualquer idade tem múltiplas sensações, não só no plano intelectual, como também no sensorial, tátil e visual, construindo uma nova identidade a cada leitura e tirando proveito do conteúdo e da forma.

Na leitura do livro O exercício de ser criança,[1] de Manoel de Barros, por exemplo, carregamos água na peneira, fazemos pedra dar flor, criamos peixe no bolso, desfrutamos o mundo mágico do menino que faz peraltices com palavras e mergulhamos em bordados, compostos pela ilustração da família Diniz Dumont, que extraem fantasia, lirismo e poeticidade. Ângela Lago ilustra e escreve Psiquê,[2]provocando, além da absorção do mito grego de Eros e Psiquê, a iluminura do olhar, com a beleza contida na particularidade editorial do livro, representada por protagonistas que são sombras, e mantendo o mistério e o primor de um cenário escuro que resplandece já na capa, com o brilho das estrelas. Ida e volta,[3] de Juarez Machado, livro sem texto, é outro exemplo de apresentação de imagens abertas a inúmeras leituras e a todos os leitores. Trata-se de uma narrativa, composta por 19 quadros, em que os acontecimentos se sucedem no tempo e no espaço indicados por pegadas humanas presentes no percurso, cujo início e final estão localizados no mesmo lugar, o que lhe confere um caráter de circularidade. Juarez inova na diagramação, o livro é de 1976, e a capa faz parte da história, conduzindo à retomada da leitura. Esse livro é considerado um clássico do “livro sem texto”, inaugurando com maestria e singularidade a aventura de “ler” e “contar história” através de imagens.

O livro Fita verde no cabelo,[4]de Guimarães Rosa, é outro exemplo primoroso de texto para adolescentes, no qual o equilíbrio entre texto e imagem é incontestável. Tanto Rosa quanto Roger Melo, ilustrador, exprimem diversos sentimentos tristes ao leitor, que viaja num personagem imaturo e repleto de significados, no qual as nuances do verde imprimem a essência da obra e dão vazão à continuação da história da Chapeuzinho Vermelho, dos irmãos Grimm.

Poderia citar outros milhares de autores, ilustradores, artistas e livros que fizeram e fazem da LIJ um universo de criação artística, dinâmica e inventiva, levando leitores de todas as idades ao mundo da fantasia, da aventura, do inesperado, do real, do irreal e do inimaginável.


[1]          BARROS, Manoel. Exercício de ser criança. Rio de Janeiro: Salamandra, 2005.

[2]          LAGO, Ângela. Psiquê. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

[3]          MACHADO, Juarez. Ida e volta. São Paulo: Agir, 1976.

[4]          ROSA, João Guimarães. Fita verde no cabelo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

Rebeca Gelse Rodrigues

Rebeca Gelse Rodrigues

É psicóloga, educadora, assessora literária, contadora de histórias e poeta.

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Este post tem um comentário

  1. EMILIA CAMARA SANT ANNA

    Que lindo, Rebeca. As histórias alimentam nossas almas.

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