A poesia da poeta italiana Calandrone desde cedo, ou melhor, em sua raiz, se depara com o tema do amor, um aspecto que pode parecer banal e corriqueiro; pois qual não é a poesia que em algum momento não irá se confrontar com esse tema? Contudo, há no tratamento do “amor” em Calandrone uma tensão – ou tensões – que o transforma, que o move, que o desloca, inclusive do ponto de vista da forma e da língua. Todo esse percurso que toma corpo principalmente a partir de Scimmia randagia (Crocetti, 2003), La macchina responsabile (Crocetti, 2007), Sulla bocca di tutti (Crocetti, 2010), Serie fossile (Crocetti, 2015), Gli scomparsi (pordenonelegge, 2016), Il bene morale (2017) – títulos que já falam por si só –, em 2019 alcança um ápice com a montagem de Giardino della gioia, publicado pela Mondadori. Duas traduções de Maria Grazia Calandrone estão previstas para 2022: a antologia poética que será lançada pela Urutau e o romance Splendi come vita, pela Relicário.

© – FÓSSIL

ponha uma mão aqui como uma venda branca, feche-me os olhos,
preencha o limiar de benções, depois que
você passou no meio
do ouro verde da íris
como uma abelha régia
e – palha
sobre palha,
de ouro e grão debulhado –
você fez de mim
o seu favo de mel

uma constelação de abelhas ronda a tília
com sapiência inumana, um redemoinhar de inteligências não larga
a árvore do mel

                                   – seria redutivo dizer amor
essa exigência da natureza

                                                    enquanto um vazio anterior cicatriza
entre flor e flor sem deixar rastro:

                                                              use a boca, tire-me do coração
o ferrão dourado,
a memória de um raio a qual queimou minha forma humana
em alguma pré-história

onde os loucos acariciam as pedras trocadas por cabeças de crianças:

                                                                                                           chegue mais perto, como a primeira
entre as coisas perdidas
e aquele rosto se ergue da pedra para uma vez mais sorrir

24.5.13

© – FOSSILE (de SERIE FOSSILE, 2015)

metti una mano qui come una benda bianca, chiudimi gli occhi,
colma la soglia di benedizioni, dopo che
sei passata attraverso
l’oro verde dell’iride
come un’ape regale
e – pagliuzza
su pagliuzza,
d’oro e grano trebbiato –
hai fatto di me
il tuo favo di luce

una costellazione di api ruota sul tiglio
con saggezza inumana, un vorticare di intelligenze non si stacca
dall’albero del miele

                                   – sarebbe riduttivo dire amore
questa necessità della natura

                                                    mentre un vuoto anteriore rimargina
tra fiore e fiore senza lasciare traccia:

                                                              usa la bocca, sfilami dal cuore
il pungiglione d’oro,
la memoria di un lampo che ha bruciato la mia forma umana
in una qualche preistoria

dove i pazzi accarezzano le pietre come fossero teste di bambini:

                                                                                                           avvicinati, come la prima
tra le cose perdute
e quel volto si leva dalla pietra per sorridere ancora

24.5.13

CARTA IMAGINÁRIA

                     onde eu era carne ela era marfim
                     (Pier Paolo Pasolini)

madrugada
de tenra
carne, presa
no exoesqueleto da Lei

no trágico
mês de novembro
tudo chorava

me segura firme, fora
do limite humano

me segura como uma mãe
que abraça em sonho

22.12.13

LETTERA IMMAGINARIA (de SERIE FOSSILE, 2015)

                     dov’ero carne essa era avorio
                     (Pier Paolo Pasolini)

alba
di tenera
carne, stretta
nell’esoscheletro della Legge

nel tragico
mese di novembre
piangeva tutto

tienimi forte, fuori
dal limite umano

tienimi come una madre
che abbraccia in sogno

22.12.13

VOCÊ SÓ TERÁ A VIDA

Os sapatos não foram encontrados.
Mas a luz incidia coital sobre o corpo da garota
cristalizado no testemunho.
Entre os olhos e o ventre
rastros de lavadouro – um percurso ao revés pra determinar os álibis.
O portão estava fechado com muitos giros de chave.

Ardia como uma hóstia na matéria
lacrimal do finalzinho da tarde – com a cabeça presa nos arbustos
e a obstinada repetição das voltas. Por causas desconhecidas
ela não pôde completar seus anos
quaisquer que fossem suas funções individuais, mas um imóvel
adeus à beleza do mundo
esquentava a fibra que resiliente
grito de alegria do corpo sem dor.

NON AVRAI CHE LA VITA (GLI SCOMPARSI, 2016)

Le scarpe non vennero ritrovate.
Ma la luce batteva coitale sul corpo della ragazza
cristallizzato nella testimonianza.
Tra gli occhi e il ventre
tracce di lavatoio – un percorso a ritroso per stabilire gli alibi.
Il portone risultò chiuso con molte mandate.

Ardeva come un’ostia nella materia
lacrimale del tardo pomeriggio – con il capo impigliato tra gli arbusti
e la pervicace ripetizione dei giri. Per cause sconosciute
non ha potuto compiere i suoi anni
qualsiasi funzione avessero singolarmente ma un immobile
addio alla bellezza del mondo
riscaldava la fibra che resiste
grido di gioia del corpo senza dolore.

Patrícia Peterle

Patrícia Peterle

(1974) nasceu em São Paulo, cresceu no Rio de Janeiro e mora em Florianópolis. É crítica literária, tradutora e professora de literatura italiana da Universidade Federal de Santa Catarina. Tem vários ensaios dedicados à escrita poética e seus poemas foram publicados nas revistas Acrobatas, Mallamargens, Ruído Manifesto, Revista Sepé, Palavra Comum, Mirada Janela Cultural e Subversa-literatura luso brasileira.

Andrea Santurbano

Andrea Santurbano

(1970), nasceu em Pescara, na Itàlia, é crítico e professor de literatura italiana na Universidade Federal de Santa Catarina.

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