A espalhafatosa e colossal exaltação do mixuruca como “grande feito” pelos aglomerados medíocres, dispostos em matilha, deprime o gosto a níveis muitas vezes irrecuperáveis. Godard falava sobre como era fácil “matar o público” de uma arte como o cinema. Descrevia as operações necessárias: poucas e decisivas.
No entanto, a boa filosofia, de raiz aristotélica, indica que as coisas são APROVADAS porque são boas, e não BOAS porque aprovadas, pois uma custosa e difícil educação do apreciar precede qualquer julgamento engajado em compromissos superiores ao efêmero sucesso comercial ou ao êxito de marketing. Do contrário, ocorre um sequestro do juízo pela falácia da majoritariedade, fenômeno que leva áreas como a arte (movidas por inovação, mérito, excelência e/ou dissonância) para uma “homeostase da suficiência” e um “gregarismo homogeneizante” (ambos falaciosamente democratistas, afinal, “todos podem fazer isso que qualquer um faz”).
Por trás dessa dinâmica operam redes de confirmação corruptas, que percorrem desde meios vergonhosamente fraudulentos até abonações abusivas, processadas em regime de endogenia velada de autoridades acadêmicas em postos recém-conquistados (tantas vezes em concursos duvidosos), como se a Universidade Pública não passasse de um “clube de jovens críticos-autores amigos”. Isso é, além de deplorável, ridículo. E mais ainda quando se processa em nome de uma vaga ideia de “contemporaneidade”. Toda essa dinâmica pode ser desmascarada com um mínimo esforço sociológico. Aliás, muitos a enxergam, mas ninguém mais tem saco de protestar contra o “cretino fundamental”. Haja paciência!
Nunca Nelson Rodrigues esteve tão certo: os idiotas vencerão por maioria. E, contra essa massa amorfa e acrítica (sem contra-hegemonia e ainda entoando em coro contente a própria vacuidade redundante), até um autor reacionário pode se tornar virtualmente revolucionário.
Em nosso observatório da “fabricação da consagração”, também se nota, logo à primeira vista, uma desesperada busca do chamado “prestígio por coalescência”, algo que pode ser resumido mais ou menos assim: juntar, em um mesmo lugar (um post, uma exposição, um concerto), certo autor fraquíssimo e, por exemplo, outro ou outros canônicos, que enfrentaram dezenas de críticas e apreciações analíticas distanciadas, rigorosas e por diversas gerações. E o resto? Bem… O resto são as dancinhas do TikTok e o clubismo que segue a mesma lei do capital cultural em um país de semianalfabetos e divulgadores de orelhada: “enquanto formos poucos, todos somos bons”. E que se foda a crítica: vamos transformá-la em “press release” disfarçado! E só para os amiguinhos, viu?
Desse modo, a alma criativa mais profunda de um país é substituída por uma assembleia de (inter)bajuladores, a própria membrana que regula diversos processos desse equilíbrio inter/intragrupal e garante a unidade da nulidade: o império do mesmo como regra “natural” de uma pauperização progressiva, hoje capaz, inclusive, de atingir o nível cognitivo. Uma crítica contramajoritária e fundada em discernimentos de longa formação e necessário distanciamento há pouco nos deu, com exemplo de galhardia, a Professora Aurora Bernardini (leia a matéria na FSP), para torção geral dos narizes dos filhotes dos cursinhos dessa “literatura formulária” (ou “escrita criativa”), em prosa & versinhos que caibam contentes nos quadrinhos humilhantes do Instagram.
Marcus Fabiano Gonçalves
(1973) é gaúcho e mora no Rio de Janeiro, onde é professor de Hermenêutica e Filosofia do Direito na Universidade Federal Fluminense – UFF. Em 2019 publicou Bruno Palma, escolhedor de palavras – ensaio sobra a arte e o ofício de um tradutor (ECA-USP).