Marcelo Tápia sempre soou-me legenda referencial da Poética com amplitude de sistema e do grande logos. Aquele que ecoa os arcanos, sentencioso, sóbrio, poeta cuidadoso no esmero da tradição de Pound ao dizer mostrando com harmonia. Uma preciosidade seu Týkhe, reunindo com unidade de propósito aristotélico uma seleta de poemas com sugestão de tríptico sob a marca orgânica do trajeto do erudito sem prejuízo do talento de sua lira venturosa por estro e ressonâncias. “Dez poemas súbitos”, “Éskhatos” e “Deriva”, como se dividem.

Reconheço no mestre a estirpe dos raros que ainda se debruçam na intensidade densa — é mister calcar nessa ênfase — da Poética brasiliana decaída em esgarçamento de conteúdo e forma em nome do que chamamos “literatura fofa”. Um opus alinhavado no ofício milenar, entrecortado pela convivência altamente enriquecedora com a vanguarda concreta paulista que brilhou no cenário nacional com o melhor da produção Noigandres, ressalvando Marcelo sem a ortodoxia derivada das contendas da primeira dentição do movimento. Recordo, no convívio com o amigo Gilberto Mendes, que até a leitura de Rilke era malvista pelo cânone dos Campos nos anos 60. Com que primor Tápia disseca nossos parnasianos! Com que culto prolífico revisita a ourivesaria bilaquiana até a releitura dos santenses Vicente de Carvalho e Martins Fontes, sem nenhum desdém modernoso, agora felizmente ultrapassado pelo resgate de todos os parnasos e preciosistas da plêiade tributária da sua “Via Láctea”.

Um componente inevitável é o lastro acadêmico de Tápia, que lhe dá a estatura poética das helenistas Anne Carson e Sophia de Mello Breyner. Um cosmopolita no sentido mais agregador e mixado, sem descurar de nossa tropicalidade eloquente. Cada poema busca um ordenamento do paroxístico da expansão à sinergia da contenção possível, sístole e diástole, o cíclico sincopado de oxímoros, começando por “Extremo”:

No tenso
limite

do avesso,
no terno

limite de um
fim

e de um
recomeço,

culmina a
existência.

Que existe
no fluxo

na vaga
demência

dos dias
profusos,

e acorda no
extremo.

É quando
cintila

o vão do
momento,

a explosão
contida.

Poemas todos compostos no fatídico 2020 pandêmico conotam forte acento existencial, quando todos calculamos algum acerto de contas interno. Seguindo a dialética do caos-cosmo, o belo “Do não”:

Resíduo,
artefato,

emerge das
mãos

o desejo do
ato,

dejeto de
nãos.

Rebento da
ausência,

som da
solidão;

luz da
inexistência,

é objeto de
vãos.

Nada ser de
fato,

não ser em
essência,

deságua em
intacto

senão da
inocência.

Num plano aberto, o artista catalisa toda potência em nomear através da função poética atilada ao máximo na ambiguidade referencial, repelindo a discursividade fácil em nome de correspondências intrínsecas ao questionamento pelo verso que — “diz-se” — pela “escrita-leitura” de assentada polissemia. Dialógico no limite, construção simultânea por camadas intercambiáveis. Por que não lembrar de Bilac intertextual, sem autorreferente, nos célebres “A um poeta” ou no “Vaso chinês”, quando Tápia exacerba o cinzel em “Evocação da Musa”?

A mim
amiga Musa canta,

a minha
toada entoa;

de tuas
brenhas a brisa sopra

a incitar a
minha alma à toa.

Que economia expandida a partir de tão poucos elementos em maximização! O que se repete numa outra pegada nos desdobramentos da “Odisseia”, onde Tápia nada de braçada, como no poema “Descanso do guerreiro”, que desloco ao meu culto íntimo por Kaváfis:

Odisseu
senescente

desvira o
desvario;

escolhe a
terra amena.

longe do mar
em fúria,

e agoniza no
colo

de Penélope,
quente

afago, bom
augúrio,

acalentando
o sonho

que deságua
no mar,

fluído
desejo ardente

liberto por
cansaço,

pelo bem que
é deixar-se

estar, sem
ir adiante,

abdicar da
errância,

da altivez
desmedida

como dom
superado,

sem o clímax
final:

naufrágio só
na ânima,

calma
imersão em Hades.

Dos gregos passando pelo Tao Te King, como em Blanchot deslindando Mallarmé, a indeterminação aqui não é nenhum acaso. Sintomaticamente, o tour de force se dá em “Ápice”.

Conhece-se
o cimo

quando se
insinua

a queda: o
motivo

móvel não
perdura.

Mais tarde
ou mais cedo

o ímpeto
concede

vez à
desistência,

voz ao lado
avesso.

Em cumes e
em fundos

mal e bem
conjuram-se:

somos só
trajeto,

vão entre
dois mundos.

Tempus fugit, o Devir que escorre, memória como possibilidade,

tenho Týkhe parâmetro da poética que insiste.

Foto de Flávio Viegas Amoreira

Flávio Viegas Amoreira

Escritor, poeta e jornalista, nasceu em Santos, em 1965, mora em São Paulo atuando como agitador cultural pela capital paulista, Litoral e Rio de Janeiro. Considerado um dos mais inquietos escritores da "Novíssima Literatura Brasileira", já lançou 12 livros entre contos, poesia e romance: Maralto (2002); A Biblioteca Submergida (2003); Contogramas (2004); Escorbuto, Cantos da Costa (2005), Edoardo, o Ele de Nós (2007), todos editados pela 7 Letras Editora - Rio de Janeiro; além de livros publicados por editoras paulistas, antologias internacionais até ser incluído na denominada "Geração Zero Zero", reunião de contistas considerados mais representativos da primeira década do século XXI no Brasil, antologia organizada pelo prestigiado crítico literário Luiz Brás e editado pela "Língua Geral", em 2011. O escritor é crítico de cinema, curador de artes plásticas e colaborador com crônicas e ensaios para jornais brasileiros e sites, revistas literárias e publicações estrangeiras. Ligado à música e às artes visuais, já teve vários textos encenados em monólogos e adaptações teatrais. Tem constante atividade nos meios digitais, com importante atuação em sites, blogs e redes sociais com literatura digital e criação online de textos. Contato: flavioamoreira@uol.com.br

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