Atriz Rachel Brumana interpretando o monólogo “Via de Regra”


Teatro de Bolsa – edição da autora

Monólogo “Via de Regra”
Por Christine Röhrig


 

(Num banheiro de ônibus. Uma mulher de uns anos e tanto. Na bolsa dela: absorventes e absorventes internos soltos no fundo; estojo de maquiagem; lenços de papel; espelhinho; estojo com: sabonete, pasta e escova de dentes; escova de cabelo; pente; tiara; terço; uma pequena Bíblia; o catecismo; muitos santinhos; lenço de cabeça; sombrinha; rolinhos de papel higiênico amassadinho; carteira de documentos; retratos de sobrinhos e de parentes; foto do papa; fitinhas do Bonfim; relógio de pulso; sacos plásticos dobrados em triângulo; chinelos de dedo; meias;  crucifixos; uma saia branca manchada dentro de um saco plástico; cigarros; fósforos; isqueiro; tocos de vela num vidrinho; pinça, aparelho de barbear e tesourinha de unhas num estojinho; leite de rosas; chumaço de algodão dento de um saquinho plástico; batom vermelho, pó de arroz; uma muda de calcinhas; um par de meias soquete; meias de seda pretas; uma caixinha de grampos e dois bobeeis; uma toalhinha de rosto, dois comprimidos analgésicos)

 

Teresa:

Não adianta. Eu não vou abrir a porta. Só quando estiver bem escuro. Não, nem quando estiver escuro. Não vou abrir nunca. Jamais. Manda os bombeiros embora. Eu não estou entalada. Eu não saio porque não quero! Eu sei que a gente já está na garagem. Você já disse. Mas o motorista deve ter contado para todo mundo aqui. Não adianta. Daqui eu não saio, daqui ninguém me tira!!

(enquanto fala, tira da bolsa um lenço de cabeça, maquiagem e tenta camuflar a própria imagem. Nervosa.)

Não, não abro não. Eu sei que você está falando só para me acalmar. É da boca para fora. Você não tá nem ligando. Sempre foi falsa. Desde criança. No fundo sempre me achou ridícula. Eu sei que sente prazer em me ver assim humilhada. Ah, não. Claro que não. Tá bom então. Sei. Você sempre se achou a moderna, a amada, a bonita, a gostosa. Me achou ridícula sim. Mas finge que não. Com uma irmã assim, quem é que precisa de inimigos.

(faz caretas de dissimulada)

Finge ficar surpresa quando alguém te elogia. Eu sei como é. Faz parte do seu show ser humilde. Ai, ai, a bonita casual. A moderna casual. Há, há. Tá certo. Eu sei que eu sou diferente. Gosto das coisas no lugar. Sempre fui sistemática. Mas qual é o problema em não querer chamar a atenção. Não gosto de aparecer, ora! É crime agora ser do tipo mais recatada? Mais tímida? Seguir os preceitos e os ensinamentos do evangelho? É pecado? Parece que é. Agora eu sei que é. Não, e eu que achava que Deus gostava das tímidas e recatadas. Das certinhas. Tudo mentira. Ele apronta com elas o tempo todo. 24 horas por dia!! Não, hoje você exagerou, Deus! O que foi que eu fiz para merecer tantos castigos. (acende uma vela) Eu vou à igreja todos os domingos. Na primeira missa – aos domingos. Vou morrendo de sono. Mas vou! Vou sempre, faça chuva, faça sol, até porque quero evitar Seus castigos. Também me confesso semanalmente e conto a verdade. Conto tudo, bem quase tudo. E eu que nem tenho nada para contar. Nada acontece na minha vidinha pacata. Eu gosto assim. Aliás, nada acontecia!

(Acende um cigarro. Olha para a fumaça)

Meu único pecadinho. Mas quem é que não polui o ar? Há, duvido que as outras contem um terço do que aprontam. Contam nada. Duvido. Eu só faço umas coisinhas de foro íntimo. Que eu acho que são pecado. Que dizem que é pecado. Mas nem consta na Bíblia como sendo pecado.

(olha para as mãos, se acaricia, para assustada)

Minha irmã que tá aí fora bancando o bombeiro, tem um monte de pecado. Tá tudo registrado na Bíblia em letras garrafais. Só não vê quem não quer. E quem não lê os ensinamentos. Ela tem fogo no rabo e cara de pau e Deus não diz nada. Ao contrário, até incentiva. Finge que não vê. Não tá certo isso. Não, e pra piorar o que parecia impossível ficar pior, tinha que mexer no meu período menstrual? Isso é demais. Era só o que faltava. Deve ter sido erro de digitação. Não é período menstrual, é período monstrual. Fico nervosa, choro à toa, mas não incomodo ninguém. Aguento todas as cólicas calada. Como penitência! Eu que sempre fui regrada. Vinha como um relógio. Certinho mesmo. Eu até me orgulhava disso. De vinte um em vinte um dias. Lá vinha o sangue. Descia que era uma beleza. Não, beleza também não. Beleza coisa nenhuma. Uma meleca, isso sim. Durava três dias e ia embora. Nesses três dias eu jamais lavei o cabelo. Eu me cuido muito. Não saio no sereno, não pego friagem, nunca ponho o pé no chão, só tomo meio banho, nem maionese eu faço, porque sei que ela desanda. E desanda mesmo. Eu sei que você não acredita. Também, você não faz maionese nunca. Aliás, não faz nada. Não lava, não passa, não cozinha. Teu negócio é cama e banho. (começa a depilar a perna com o aparelho de barbear)

E eu sou prevenida. Eu sempre carrego comigo um paninho e absorventes. E nunca uso roupa clara nesse período. No máximo um marrom café. Não, mas hoje Ele me castigou, me condenou a ficar aqui dentro para o resto dos meus dias.

(tenta cortar os pulsos)

Ah não. Mas isso não vai ficar assim. Me manchou com sangue, com sangue mancharei Vosso Nome!!!

(não consegue se cortar)

Não foi nada? Não foi nada??? Você não sabe o que aconteceu. Por isso fica falando. Queria ver acontecer com você? Começou quando paramos para almoçar. Em Aparecida do Norte, naquele restaurante elegante. Sabe qual, né? Todos aqueles rapazes educados. Uma mesa enorme. E o Eduardo também estava lá. Lembra do Eduardo? O bonitão que sempre veste camisa branca, e a fecha  até o último botão, o da gola. Fica tão lindo, tão decente e respeitável. (Suspira) Pois é. Estávamos almoçando, ele conversando comigo sobre tantas coisas interessantes. Da mãe dele, como ela era religiosa, como cozinhava bem, como ela ligava para ele todos os dias no serviço, como se preocupava quando ele chegava depois das oito da noite, como ela preparava a marmita dele, com tudo que ele gostava. Aí eu estava justo perguntando o que ela colocava na marmita e resolvi, (começa a choramingar) pela primeira vez na vida, fazer um charme. A gente tinha acabado de tomar o café e ele estava olhando tanto para mim. Aí fiz como no cinema. (conforme ela vai narrando, vai fazendo a ação) Tirei o maço de cigarro que estava na bolsa. Pus um cigarro na boca e meti a mão na bolsa sem olhar, pois estava olhando para ele, procurando pelo isqueiro. Surpreendentemente achei o isqueiro de cara e, como ele estava me olhando, resolvi demorar para acender o cigarro. Fiquei rodando o isqueiro na mão, falando e gesticulando. Eu reparei que a cara dele ficou meio estranha. Mas como eu poderia imaginar uma desgraça dessas. (chora) Só quando fui acender o cigarro com aquele isqueiro é que fui perceber que o que estava na minha mão e que girei bem na cara dele fazendo pose antes de acender…, que aquele isqueiro era um OB!!!! (Soluça desesperada) Não, você já pensou? Nunca mais vou olhar na cara dele. Mas você acha que acabou por aí o meu calvário?? Se enganou. Coisas muito piores estavam por acontecer. Constrangida, fui ao banheiro do restaurante para jogar um pouco de água no rosto e para ver se me acalmava. MALDIÇÃO!!! Minha saia branca de ir à missa, que eu vestia com tanto orgulho, apropriadíssima para o dia de Nossa Senhora Imaculada, estava completamente maculada de sangue. Uma rodela ENORME!!! (tira a saia manchada de sangue que está na bolsa dentro de um saco plástico) Não pode ser!! O relógio pifou?? Será possível??? De vinte um em vinte um, durante 38 anos, tinha que pifar logo hoje? Era só o décimo nono dia! E eu ali, querendo cometer suicídio duplo!!! Você acha que foi pouco. Que isso pode acontecer com qualquer uma. Eu não vejo mulheres andando com rodelas por aí. E eu que me cuido tanto!! (cochicha) Esperei todo mundo entrar nos ônibus. Prevenida sempre carrego uma saia reserva. Fiz a assepsia, coloquei a saia preta do vigésimo primeiro dia, amarrei o lenço na cabeça para ninguém me reconhecer, principalmente o Eduardo. Fiquei desesperada. Sabia que tudo estava acabado entre nós. Como é que eu ia olhar para ele? Ele sempre iria lembrar disso. Havia uma mancha entre nós. Bom, com esse disfarce, fiquei espreitando atrás de uma coluna do posto onde ficava o restaurante, esperando até que todos entrassem no ônibus. Demorou uma eternidade. Eu quase saí andando a pé, mas aí pensei que o ônibus talvez pudesse me alcançar e todo o comboio iria querer saber por que é que eu tinha resolvido caminhar. Então, disfarçada que eu estava, subo no ônibus e sentei no último banco do corredor. Bem perto do banheiro. Fiz isso para que nada mais de mal acontecesse comigo, principalmente envolvendo as minhas partes baixas! O banheiro, aliás é esse maldito banheiro aqui, fica entre as duas fileiras de assentos. Bem no meio das duas fileiras. E a maldita da porta dá no corredor. Já estávamos viajando há uma hora e eu, traumatizada, buscava conforto na Bíblia. Foi quando li “SANGUE DE JESUS TEM PODER!” Ó, óu, pensei. Deus está me mandando um aviso. É hora de ir ao banheiro verificar se está tudo correndo bem. Correndo bem!!! Levantei, muito discretamente, sem fazer barulho algum e entrei no banheiro. Ufa, ninguém nem percebeu. Esse maldito banheiro apertado. Tudo fica difícil. Mal conseguia me mexer. Muito menos pegar o absorvente na minha bolsa. Com muito custo ergui a saia até a cintura para não me atrapalhar, baixei a calcinha e já com o absorvente limpinho numa mão fui tirar o que estava usado. O ônibus estava numa descida e desembestado ultrapassava quem estivesse pela frente. Era difícil conseguir equilíbrio nesse cubículo. (enquanto fala, faz toda a cena) Bom, eu estava com a calcinha abaixada, a saia erguida, um absorvente sujo numa mão e o limpo na outra, quando o desgraçado do motorista freou bruscamente. A porta não aguentou e lá despenquei eu, invadindo o corredor com as duas mãos ocupadas, a calcinha arriada e a bunda exposta. Fui parar na altura do assento 12. Todos viram. Todos souberam. Todos riram. Por sorte, se é que posso falar em sorte nessa desgraceira menstrual, começou a subida da serra, o que fez com que eu voltasse para trás e caísse sentada na privada de onde eu tinha saído. Não adianta. Daqui eu não saio nunca mais!!

(Com expressão de desespero máximo, avista a bolsa. Começa a mexer nela, tirando item por item, experimentando, rezando, olhando no espelho, se maquiando. Aos poucos, vai se instalando no banheiro, tornando-o mais aconchegante: pendura a toalhinha na porta, lava a mancha da saia, pendura a saia para secar na janela, coloca as escovas na pia, passa um papel na privada, vai decorando tudo com os objetos que tira da bolsa  e a sua expressão se transforma em alegria, satisfação)

SLIDE: ATRÁS DE UMA GRANDE BOLSA, SEMPRE HÁ UMA GRANDE MULHER

Fim

BLECAUTE

Folheto:

Se você sentiu falta de algum item na bolsa, por favor, preencha o cupom, disponível na saída, dizendo qual e, se possível,  porquê.

Obrigado(a).

Christine Röhrig

Christine Röhrig

Trabalhou como editora na Paz e Terra, Unesp e Cosac&Naify. É tradutora de peças teatrais de diversos autores alemães como Bertolt Brecht e Heiner Müller e de livros infanto-juvenis, entre eles: “Os Contos maravilhosos dos irmãos Grimm”.

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