Publicado pela Editora da Unicamp em coedição com a Edufu, o tratado de Cícero, traduzido por Bruno Fregni Bassetto, examina as relações entre virtude, interesse e responsabilidade na formação da vida política.

Como determinar a ação correta diante de interesses conflitantes? Em que medida a busca pela vantagem pessoal pode ser conciliada com as exigências da justiça e da vida coletiva? Essas questões orientam Os deveres (De officiis), de Marcos Túlio Cícero, publicado em 2025 pela Editora da Unicamp, em parceria com a Editora da Universidade Federal de Uberlândia (Edufu), com tradução de Bruno Fregni Bassetto.

Escrito nos últimos meses de 44 a.C., após o assassinato de Júlio César, o tratado pertence ao período final da vida de Cícero, marcado pela crise das instituições republicanas e pelo agravamento das disputas políticas em Roma. Diante de um cenário de instabilidade, o filósofo voltou-se à reflexão sobre os princípios que deveriam orientar a conduta humana, especialmente daqueles que participavam da administração dos assuntos públicos.

A obra assume a forma de uma carta dirigida a seu filho, Marcos Túlio Cícero Menor, que estudava filosofia em Atenas. O caráter educativo do texto, entretanto, ultrapassa o âmbito familiar. Ao reunir ensinamentos da filosofia grega e exemplos da história romana, Cícero procura estabelecer critérios para a tomada de decisões morais, considerando as responsabilidades do indivíduo perante a sociedade.

Organizado em três livros, Os deveres tem como uma de suas principais referências o pensamento do filósofo estoico Panécio de Rodes. A partir dessa tradição, Cícero desenvolve uma investigação sobre o conceito de officium, entendido como o dever ou a ação apropriada às circunstâncias. A questão fundamental não consiste apenas em reconhecer abstratamente o bem, mas em compreender como os princípios éticos devem orientar as escolhas concretas da existência.

No primeiro livro, o autor examina o honestum, aquilo que é moralmente honroso, relacionando-o às virtudes fundamentais da sabedoria, da justiça, da grandeza de espírito e da moderação. A reflexão considera o papel dessas qualidades na formação do caráter e na organização das relações humanas, destacando a importância da justiça e do respeito aos compromissos assumidos.

O segundo livro dedica-se ao utile, isto é, ao que se apresenta como vantajoso ou conveniente. Cícero investiga os meios pelos quais os indivíduos procuram alcançar reconhecimento, influência e prosperidade, examinando também os limites morais dessa busca. A utilidade, nesse contexto, não pode ser compreendida exclusivamente como benefício individual, pois a vida em sociedade exige relações de confiança, cooperação e reciprocidade.

No terceiro livro, o filósofo enfrenta o aparente conflito entre o honroso e o vantajoso. Sua argumentação procura demonstrar que uma vantagem obtida por meios injustos não constitui um benefício verdadeiro. A ação moralmente correta não se opõe ao interesse legítimo, uma vez que a violação da justiça compromete os próprios fundamentos da convivência humana.

Essa discussão adquire particular importância quando relacionada à experiência política de Cícero. Orador, jurista e homem de Estado, o autor participou diretamente das disputas que marcaram os últimos anos da República Romana. Sua reflexão sobre os deveres não se desenvolve, portanto, à margem da vida pública, mas em estreita relação com os problemas do poder, da autoridade e da responsabilidade dos governantes.

Ao aproximar a filosofia estoica dos valores e das experiências históricas de Roma, Cícero constrói uma ética voltada à ação. A virtude não aparece apenas como qualidade individual, mas como princípio indispensável à manutenção dos vínculos sociais. A justiça, a honestidade e o compromisso com o interesse coletivo constituem, nessa perspectiva, condições necessárias para o exercício legítimo da autoridade.

Com 496 páginas, a edição brasileira de Os deveres recupera um dos tratados mais influentes da tradição moral e política ocidental. Sua importância ultrapassa o contexto da República Romana, sobretudo pela permanência das questões que apresenta. Ao investigar os limites entre o interesse particular e a responsabilidade pública, Cícero propõe uma reflexão sobre a integridade da ação humana e sobre os princípios éticos que devem orientar a vida em sociedade.

Os deveres
Autor: Marcos Túlio Cícero
Tradução: Bruno Fregni Bassetto
Editora: Editora da Unicamp / Edufu
Ano: 2025
Páginas: 496
ISBN: 978-85-268-1792-0

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