Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental, de Erich Auerbach, publicado no Brasil pela Editora Perspectiva, permanece como uma das obras mais decisivas do pensamento literário moderno. Mais do que um clássico acadêmico, trata-se de um livro fundador: um gesto intelectual que redefiniu a forma de ler a literatura ocidental ao longo de mais de dois milênios, articulando filologia, história cultural e sensibilidade crítica em um mesmo movimento interpretativo.
Escrito no exílio, em Istambul, durante a Segunda Guerra Mundial, Mimesis nasce de uma situação-limite. Auerbach, judeu alemão expulso da universidade pelo regime nazista, privado de sua biblioteca e de seu país, encontra na literatura não apenas um objeto de estudo, mas uma forma de sobrevivência intelectual e ética. Esse contexto não é um dado periférico: ele atravessa o livro de ponta a ponta, conferindo-lhe uma dimensão profundamente humana. Como observa Edward Said na introdução que acompanha esta edição, trata-se de uma obra de erudição monumental, mas também de um livro pessoal, disciplinado sem ser dogmático, rigoroso sem se fechar em sistemas.
A proposta de Auerbach é, à primeira vista, simples e ambiciosa: investigar como a realidade foi representada na literatura ocidental, de Homero e da Bíblia até o romance moderno, passando por Dante, Cervantes, Montaigne, Shakespeare, Balzac, Flaubert e chegando a Virginia Woolf. Cada capítulo analisa um trecho específico — um “instantâneo”, como define Manuel da Costa Pinto na apresentação — a partir do qual Auerbach ilumina não apenas um estilo literário, mas uma visão de mundo, uma concepção histórica do humano.
O método de Mimesis recusa a teoria fechada. Auerbach insiste que oferece uma “visão”, não um sistema. Essa recusa é uma de suas maiores forças: ao invés de impor categorias rígidas, o autor lê os textos com atenção extrema à linguagem, à sintaxe, ao ritmo narrativo, às hierarquias sociais inscritas na forma. O contraste inaugural entre a narrativa homérica e o texto bíblico — entre a clareza contínua de Homero e a densidade carregada de sentido das Escrituras — estabelece um eixo que se desdobra ao longo do livro, mostrando como diferentes formas de representar o cotidiano, o trágico, o sublime e o banal moldaram a literatura europeia.
Outro aspecto decisivo é a centralidade do realismo, entendido não como escola ou técnica, mas como problema histórico. Para Auerbach, a grande transformação da literatura moderna está na incorporação séria da vida comum, dos sujeitos ordinários, dos conflitos sociais e psicológicos antes relegados a gêneros menores. Nesse percurso, as literaturas românicas ocupam lugar privilegiado — não por preferência pessoal, mas por seu papel histórico na formação cultural da Europa, como o próprio autor faz questão de esclarecer.
A edição da Perspectiva, que marca cinquenta anos da publicação brasileira de Mimesis, reforça o caráter canônico e vivo da obra. A tradução clássica de George Bernard Sperber e equipe, revista por Rainer Patriota, mantém a precisão conceitual e a elegância do texto, enquanto os paratextos — a apresentação de Manuel da Costa Pinto e a introdução de Edward Said — oferecem chaves fundamentais para situar o livro tanto em seu contexto histórico quanto em sua atualidade crítica.
Lido hoje, Mimesis continua a desafiar o leitor. Não é um livro de leitura rápida nem de consumo imediato, mas uma experiência intelectual transformadora. Sua permanência se deve justamente à combinação rara entre erudição, imaginação histórica e compromisso humanista. Em um mundo que continua a lidar com exílios, guerras e rupturas culturais, a obra de Auerbach permanece como um testemunho de que a literatura — e a leitura atenta — podem ser uma forma de resistência à barbárie e ao esquecimento.