“Mr. Laurence Olivier can play many parts. Romeo is not one of them. His voice has neither the tone nor the compass and his blank verse is the blankest I ever heard”. Essa passagem é de uma crítica teatral da década de 1930 e diz mais ou menos que “Mr. Laurence Olivier é capaz de interpretar muitos papéis. Romeu não é um deles. Sua voz não tem nem o tom nem o ritmo certo, e seu verso branco é o mais vazio que já ouvi”. Existe aí um trocadilho entre dois sentidos da palavra “blank”: pois “blank verse” é o verso branco, ou verso sem rimas, usado na maior parte da peça (embora haja também sonetos, parelhas rimadas e prosa); mas “blank” também quer dizer “vazio, enfadonho, inexpressivo”. Ora, por que o autor da crítica achou “vazia” a interpretação do grande Laurence Olivier? Vejamos.

Essa encenação de “Romeu e Julieta” ocorreu em 1935 e foi dirigida pelo também grande John Gielgud. Ocorre que, na época, o costume dos palcos era declamar Shakespeare de forma mais ou menos musical. Os versos não eram ditos, eram cantarolados: o próprio John Gielgud décadas depois admitiu que, ao menos em uma ocasião, entregou-se à tendência de recitar Shakespeare como se fosse “uma diva na ópera”. Mas Laurence Olivier queria introduzir um tipo de interpretação mais naturalista — e por “naturalista” eu quero dizer o seguinte: que o verso seja pronunciado não como um epigrama, mas como algo que foi sentido naquele momento pelo personagem. O segredo aí é incorporar o ritmo à emoção, em vez de submeter a emoção ao ritmo.

O mundo ainda não estava preparado, talvez, para essa abordagem de Shakespeare. Por isso a interpretação de Olivier “flopou” (“it was a terrible flop”, na palavras dele). Porém, essa abordagem do verso como algo naturalmente surgido a partir da emoção — como se o modo natural e imediato da expressão da alma fosse em versos — seria crucial para as adaptações de Shakespeare ao longo do século XX: digamos, do “Hamlet” dirigido pelo próprio Olivier, em 1948, até o “Macbeth” feito por Joel Coen em 2021. A interpretação de Macbeth por Denzel Washington se liga diretamente ao Romeu flopado de Laurence Olivier, encenado mais de 80 anos antes.

Assistir às adaptações cinematográficas de Shakespeare é essencial não apenas para quem se interessa por sua obra, mas para quem deseja compreender as funções da poesia e o caráter original do verso métrico, que não precisa ser martelado para ser sentido e cujo poder jaz numa relação orgânica com a fala, ou seja, na manifestação dos ritmos do corpo: a respiração, o pulsar do sangue, o piscar dos olhos. Existe um ritmo em tudo o que fazemos e é esse ritmo que o verso pede. Os repentistas brasileiros bem o sabem. O repente para funcionar depende da verossimilhança do que é dito, como se aquelas coisas só pudessem ser ditas daquela forma: como se o próprio instante falasse.

O fato de que uma discussão sobre a melhor forma de interpretar os versos de Shakespeare se estenda dessa forma entre 1935 e 2022 e o fato de que eu possa associar essa questão a um fenômeno popular típico do Brasil são evidências de que Shakespeare é nosso contemporâneo. Seus versos continuam não apenas ao nosso redor, mas à nossa frente, transformando-se com o passar do tempo e talvez zombando de nossa obsessão cronológica. Os mortos continuam falando; nós é que precisamos descobrir como transformar sua fala silenciosa em voz.

José Francisco Botelho

José Francisco Botelho

Nasceu em Bagé, em 1980. É jornalista, escritor, tradutor, crítico de literatura e cinema, havendo colaborado com diversos veículos de circulação nacional

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