Juana de Ibarbourou (1892-1979) foi uma das vozes centrais da poesia hispano-americana do século XX. Nascida em Melo e radicada depois em Montevidéu, construiu uma obra marcada pela presença da natureza, do corpo, do desejo e pela passagem do tempo, em linguagem direta e de forte musicalidade. Seus primeiros livros, como Las lenguas de diamante (1919) e Raíz salvaje (1922), alcançaram ampla circulação no mundo de língua espanhola, enquanto os volumes posteriores incorporaram tonalidades mais graves e meditativas. Figura de grande reconhecimento em seu país, presidiu a Sociedade Uruguaia de Escritores e recebeu, em 1929, a consagração simbólica de “Juana de América”.

Ao redor dessa projeção pública, porém, formou-se também uma trajetória marcada por tensões pessoais e familiares, dificuldades materiais, problemas de saúde e longos períodos de recolhimento. Celebrada por leitores de diversas gerações, foi ao mesmo tempo alvo de reservas críticas entre setores da vida intelectual uruguaia, que por vezes reduziram sua obra a uma imagem oficial ou decorativa. Ainda assim, sua poesia encontrou reconhecimento em autores como Miguel de Unamuno, Juan Ramón Jiménez e Federico García Lorca, e permanece como uma das expressões decisivas da literatura latino-americana. Apesar de sua importância histórica e de sua ampla recepção no âmbito hispânico, segue sem tradução editorial consistente no Brasil e permanece, entre nós, quase desconhecida.

Seleção e tradução de Luis Marcio Silva

A Figueira

Porque é áspera e feia,
porque todos os seus ramos são cinzentos,
eu tenho pena da figueira.

No meu pomar há cem árvores belas,
ameixeiras redondas,
limoeiros retos
e laranjeiras de brotos luminosos.

Nas primaveras,
todas elas se cobrem de flores
ao redor da figueira.

E a pobre parece tão triste
com seus galhos torcidos que nunca
de apertados botões se reveste…

Por isso,
cada vez que eu passo ao seu lado,
digo, procurando
tornar doce e alegre a minha voz:
“É a figueira a mais bela
de todas as árvores do horto”.

Se ela escuta,
se compreende a língua em que lhe falo,
que doçura tão funda fará ninho
em sua alma sensível de árvore!

E talvez, pela noite,
quando o vento abanar sua copa,
embriagada de júbilo conte:

“Hoje me chamaram formosa!”

Rebelde

Caronte: serei um escândalo em teu barco.
Enquanto as outras sombras rezam, gemem ou choram,
e sob teu olhar de sinistro patriarca,
as tímidas e tristes, em voz baixa, imploram,

eu irei como uma cotovia cantando pelo rio
e levarei ao teu barco meu perfume selvagem,
e irradiarei nas ondas da correnteza sombria
como uma lanterna azul que iluminasse a viagem.

Por mais que tu não queiras, por mais sinais sinistros
que me lancem teus dois olhos, mestres do terror,
Caronte, serei em teu barco como um escândalo.

E exausta de sombra, de coragem e de frio,
quando quiseres deixar-me à margem do rio,
baixar-me-ão teus braços qual conquista de vândalo.

Silêncio

 
Minha casa tão longe do mar.
Minha vida tão lenta e cansada.
Quem me dera deter-me a sonhar!
Uma noite de lua na praia!
Morder musgos avermelhados e ácidos
E ter por fresquíssimo travesseiro
Um montão dessas curvas pedras
Que há polido o sal das águas.
Dar o corpo aos ventos sem nome
Abaixo o arco do céu profundo
E ser toda uma noite, silêncio,
No vazio ruidoso do mundo.
 

Estio

Canto da água do rio.
Canto contínuo e sonoro,
acima bosque sombrio
e abaixo areias de ouro.

Cantar…
de cotovia escondida
entre o escuro pinheiral.

Cantar…
do vento entre os ramos
floridos do giestal.

Cantar…
de abelhas diante do repleto
tesouro do colmeal.

Cantar…
da jovem moleira
que ao rio vem lavar.

E cantar, cantar, cantar
de minha alma embriagada e louca
sob a luz solar.

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