Sempre gostei de ler, mas atualmente tenho escrito, aproveito a quarentena e me escondo no meu trailer que fica à beira da praia. É pequeno, equipei-o com o indispensável para ficar 4 ou 5 dias. Quando escrevo me sento na mesinha com uma janelinha de frente para o mar. O ritual é sempre o mesmo: laptop, música clássica ao fundo, água, frutas e um pequeno vasinho indispensável, com flores naturais. Para essa janelinha fiz uma cortina que é uma espécie de termômetro que norteia O QUE e o PORQUÊ busco motivo para expor meu microcosmo, meu caminho sinuoso e árduo com a linguagem. É inventado? ou são referências existentes que passei e vivi? Tudo junto e misturado, a passagem da vida com a literatura é indefinível e enigmática. 

Escrever é ver tudo do avesso, costurar as coisas do mundo, tentar revelar o irrevelável, ou ver algo dentro de mim que possa converter como utilidade pública. É uma forma de organizar minhas intempéries interiores, não com o intuito de me salvar, mas de expor perguntas e habitar meu tempo. Hoje abri a cortina e vejo o mar azul e infinito e não vejo seus limites. Parece não ter margens, é tão fundo, imenso, soberano, forte, grande, onde ele termina? Onde começa? E é tão sábio que se mostra aos poucos, lá no horizonte quieto, profundo, introspectivo, escondendo maravilhas embaixo, em cima e dentro, no meio as ondas gigantes que trazem barulho e formato único a cada movimento, até que chega aos poucos em pequenas ondas e o instante se faz pleno para abraçá-lo ao máximo, trazendo na superfície suas profundezas. E eu mergulhada em meus erros à deriva, busco na escrita um barco de dúvidas. Eu e o mar dois seres que se mediam, ele na imensidão da água que o cerca, do vento que o envolve, do sol que o aquece e eu quando sinto escolher dentro de mim as mesmas instâncias do mar. Eu e o mar nos encontramos na areia, nas ondas que se quebram perto do trailer, ali nos unimos até nos tornarmos uma pequena poça de areia que traz à tona os instantes profundos, o meu e o dele. Ele, o mar, na imensidão de toda sua magnitude e eu tentando colocar no papel o que estava longe e que vem aos poucos espraiando relatos das minhas profundezas.  Gosto de buscar o caminho da minha escrita que é o degrau para chegar a minha verdade, da qual nunca alcanço, porque essa viagem nunca termina.

Rebeca Gelse Rodrigues

Rebeca Gelse Rodrigues

É psicóloga, educadora, assessora literária, contadora de histórias e poeta.

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Este post tem um comentário

  1. Carlos Rodrigues

    Lendo sua escrita, senti-me desnudado. Vivo em um trailer e você descreveu meus sentimentos com muita precisão. Tocou-me fundo quando disse: Escrever é ver tudo do avesso, costurar as coisas do mundo, tentar revelar o irrevelável, ou ver algo dentro de mim que possa converter como utilidade pública.

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