Em Clarice Lispector entrevista, publicado pela Editora Rocco, o leitor tem acesso a uma face menos cristalizada — e talvez por isso ainda mais reveladora — de Clarice Lispector. Conhecida sobretudo pela escrita introspectiva e pela radicalidade formal de seus romances e contos, Clarice surge aqui como jornalista ativa, curiosa, estrategista da escuta e construtora de diálogos que iluminam tanto seus interlocutores quanto a si mesma.

Organizada por Claire Williams, professora da University of Oxford e uma das mais respeitadas especialistas na obra clariciana, a coletânea reúne 83 entrevistas realizadas ao longo de décadas, das quais 35 são inéditas em livro. O volume revela uma Clarice múltipla, polifônica e surpreendentemente direta, atuando em um terreno que exige presença, improviso e atenção ao outro — qualidades que dialogam de modo singular com sua literatura.

As entrevistas abrangem um amplo espectro do Brasil moderno: escritores, músicos, dramaturgos, artistas de teatro, cinema e televisão, cientistas, professores, políticos, atletas, sambistas, jogadores de futebol e até primeiras-damas. Essa diversidade não é acidental. Ela evidencia a capacidade de Clarice de transitar entre mundos distintos sem perder sua marca fundamental: a busca pelo ponto de tensão onde o discurso social se desorganiza e algo mais íntimo, às vezes inesperado, vem à tona.

Diferentemente do modelo clássico de entrevista informativa, Clarice frequentemente desloca o foco das respostas objetivas para zonas de hesitação, silêncio e ambiguidade. Suas perguntas não raro são oblíquas, existenciais, aparentemente simples, mas carregadas de densidade afetiva. Ao entrevistar, Clarice não se apaga — ela comparece como presença sensível, e essa presença molda o diálogo. O resultado são conversas que funcionam como pequenas cenas literárias, nas quais o entrevistado é convidado a sair do personagem público e tocar algo menos domesticado.

Ao mesmo tempo, o livro permite reler a própria obra de Clarice sob outra luz. Muitos dos temas que atravessam seus romances — a identidade, o fracasso da linguagem, o cotidiano como abismo, o milagre iminente — reaparecem aqui em estado bruto, filtrados pela oralidade e pelo encontro com o outro. A jornalista e a escritora não se opõem: elas se contaminam. As entrevistas revelam uma Clarice atenta ao mundo, profundamente inserida em seu tempo histórico, interessada nas contradições do Brasil e nas formas pelas quais as pessoas narram a si mesmas.

Mais do que um complemento à obra literária de Clarice Lispector, este volume amplia seu território. Ele nos mostra que, ao entrevistar, Clarice fazia o mesmo que sempre fez ao escrever: criava situações de linguagem em que o outro — e o leitor — é convidado a se perder um pouco para, talvez, se encontrar de outro modo.

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