Em Café Tangerinn, romance de estreia de Emanuela Anechoum, emerge uma narrativa de formação atravessada por deslocamentos geográficos, afetivos e identitários. Publicado no Brasil pela Biblioteca Azul, com tradução de Francesca Cricelli, o livro se impõe como uma obra sensível e contemporânea, capaz de articular intimidade familiar e questões mais amplas de pertencimento, migração e memória.
A protagonista Mina, aos trinta anos, vive em Londres, onde construiu uma existência aparentemente bem-sucedida, cuidadosamente editada para as redes sociais. Esse distanciamento — da família, da cidade natal no sul da Itália e de sua própria história — é interrompido pela morte do pai, Omar. O retorno forçado à cidade costeira onde cresceu funciona como um rito de passagem tardio, no qual o luto se converte em investigação: ao revisitar o Café Tangerinn, bar fundado e mantido pelo pai, Mina recompõe fragmentos de uma vida que desconhecia e, ao mesmo tempo, de si própria.
O café, espaço central do romance, opera como verdadeiro arquivo vivo. Frequentado por imigrantes, vizinhos e personagens à margem, ele concentra histórias de sobrevivência, solidariedade e tensão cultural. Omar, imigrante marroquino muçulmano em uma pequena cidade italiana, é reconstruído não por meio de uma idealização retrospectiva, mas por vozes múltiplas, às vezes contraditórias. Essa polifonia confere densidade moral ao romance e evita soluções fáceis para os conflitos de identidade que o livro propõe.
A escrita de Anechoum se destaca pelo equilíbrio entre delicadeza e acidez. Há uma atenção minuciosa aos gestos cotidianos, às hesitações emocionais e às fissuras silenciosas que atravessam as relações familiares. Ao mesmo tempo, a autora não poupa ironia ao abordar o desenraizamento contemporâneo, a ilusão de pertencimento oferecida pelas grandes cidades e a distância entre a imagem projetada e a experiência vivida. Nesse sentido, a obra dialoga com tradições recentes da literatura de formação feminina, evocando comparações com A redoma de vidro e com a Tetralogia Napolitana, sem jamais se reduzir a elas.
Mais do que um romance sobre retorno, Café Tangerinn é um livro sobre escuta. Ao ouvir as histórias do pai narradas por outros, Mina aprende que a identidade não é uma essência fixa, mas um tecido de relações, silêncios e narrativas compartilhadas. A busca pelo “lugar no mundo” deixa de ser geográfica e passa a ser ética e afetiva: trata-se de assumir heranças complexas, atravessadas por culturas distintas, perdas e escolhas não resolvidas.
Com este romance, Emanuela Anechoum se afirma como uma voz relevante da nova literatura italiana, capaz de transformar experiências individuais em reflexão literária de amplo alcance. Café Tangerinn é uma estreia madura, que combina emoção contida, crítica social e uma prosa segura, convidando o leitor a revisitar suas próprias ideias de casa, origem e pertencimento.