Ator Bengt Ekerot e Ingmar Bergman durante a filmagem de ‘O Sétimo Selo’ (1957). Fotografia: Louis Huch/Svensk Filmindustri


Sobre algo tão denso quanto Bergman prefiro me soltar num gozo do que lembro sem pretensão acadêmica ou intelectual. Minhas impressões mais tocantes são sobre “Morangos Silvestres”, verdadeiro tratado existencial, um inventário sobre a percepção das coisas vividas, o relevo de algo que realmente conta. Da mesma forma sobre “O Sétimo Selo”, um lance de dados ontológico,  plataforma ampla, quase um painel apurado acerca dos frutos da terra, a crueldade da convivência e o terror diante do nada. O abismo da condição humana e a inescapável teia de medo que nos cerca só superada pela resistência imanente: os artistas são os sobreviventes pela perícia em driblar a paralisia que nos envolve. Bergman não era ele mesmo um intelectualista, era essencialmente um artista de teatro, um encenador, obviamente embebido de filosofia na tradição de outros mestres como Strindberg e Knut Hamsun na literatura. Bergman é aquele artista siderado no envolvimento completo com sua construção: está para o cinema como Shakespeare para a dramaturgia e Cervantes para as grandes novelas. Envolve-se com detalhes, elabora diálogos pungentes e precisos, arrebanha equipes de virtuoses na interpretação e técnicos, sabe que o importante é a encenação suprema, ela mesma um universo em si.

Tanto nos grandes dramas como “Fanny e Alexander” ou no minimalismo psicológico de “Persona” são notáveis seu timing e prospecção fundamentais da alma do que se conta e reflete. Case “Monika e o Desejo” com “Sonata de Outono” e terá uma amostra imortal da família, das instituições tradicionais, do sexo e do casamento. E quão dilacerantes “A Fonte da Donzela” e “O Rosto”! Nunca canso de repetir que vejo Kierkegaard e Nietszche em cada tomada, cada perspectiva da filmografia em que o mestre intercala ternura e crueldade, doçura e feroz denúncia de nossa miséria moral na busca da redenção. Compaixão:  essa também mesma busca em cada instante é a matéria que aspiramos num dia de brisa redentora. Celebremos Bergman nesse inverno brasileiro! A ele tanto devemos mesmo nos trópicos não menos complicados.

 

Flávio Viegas Amoreira

Flávio Viegas Amoreira

Escritor, poeta. Colunista da seção "Terra em Transes" da Revista Piparote.

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Este post tem um comentário

  1. Rebeca Gelse

    Parabéns Flavio! o cinema tem o poder de agregar vários planos e Bergman costurou múltiplos repertórios para condensar na sua ARTE o sublime poder de superá- los.

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