Carol Moldaw (Oakland, Califórnia, 1956) é poeta, romancista e crítica literária norte-americana. Autora de sete livros de poesia, entre eles Go Figure (Four Way Books, 2024) e Beauty Refracted (Four Way Books, 2018), recebeu o FIELD Poetry Prize por The Lightning Field (2003), além do Pushcart Prize, de uma bolsa de criação literária do National Endowment for the Arts (NEA) e de uma residência da Lannan Foundation. Seus poemas foram publicados em revistas como The New Yorker, The Paris Review, Poetry e The American Poetry Review. Atualmente, vive em Santa Fé, no Novo México.

Segundo a revista The New Yorker, sua poesia reúne diferentes formas de maturidade — emocional, artística e religiosa —, alcançando momentos líricos de rara beleza. Sua escrita se distingue pela observação atenta da experiência humana e dos impulsos que atravessam a vida.

A Editora Piparote tem a satisfação de apresentar, pela primeira vez em língua portuguesa, quatro poemas de Carol Moldaw, selecionados de seu livro Go Figure (Four Way Books, 2024).

 

Tradução dos poemas: Júlio Bonatti e Luis Marcio Silva.

Agra, Dezembro de 2008

Envolta em névoas
desde a tríade de cúpulas

e minaretes ao redor,
a mítica tumba dupla  

descansava no céu estirada
como se o mármore e o ar

se fundissem formando
um todo amorfo sólido.

Para percorrer o célebre
mausoléu, nos fizeram esperar

separados em filas de controle
ao largo de toda a manhã

e, tal como no lar,
a fila das mulheres

ia penosamente devagar:
já calejadas, suportamos

a revista de cada bolsa
enquanto os homens seguiam

adiante, acelerados
por buscas simples, superficiais.

Lá do final da fila olhávamos
como por um buraco de fechadura.

Do alto das muralhas,
soldados com seus rifles

nos ombros nos vigiavam,
oscilando suas miras

centímetro por centímetro
sobre nossa mísera multidão.

Voando da lama atiçados
por garotas com gravetos,

os mosquitos me fizeram desejar
estar usando um hijab, embora

feliz por não estar semienvolta
num sári com a barriga exposta.

Não conseguia entender nada
do que eu ouvia à espreita

até que, como se saísse da crisálida,
a opalescente silhueta 

dos arcos, domos e pináculos
emergiu qual truque de mágica,

e
foi tão incrível
como se falasse serenamente de amor.

Mumtaz e Jahan

Dizem alguns que ambos morreram envenenados.
Dos catorze filhos que tiveram, o último que ela deu à luz
nasceu num campo de batalha; pelo menos sete morreram
na infância ou ainda jovens; dois deles mataram
pelo menos outros dois. Anos depois de sua morte,
um dos filhos aprisionou o pai, seu viúvo,
que havia construído um mausoléu, o Taj Mahal,
em sua homenagem, com o túmulo e o cenotáfio dela
ao centro, sob a cúpula. Uma das filhas viveu
com o pai aprisionado até sua morte.
Ele planejara construir seu próprio mausoléu
do outro lado do Yamuna, mas o filho o impediu.
Em vez disso, Jahan foi sepultado ao lado de Mumtaz,
fora do centro. Mas não seria o Taj, na verdade, dele
(não restou o nome de nenhum arquiteto),
sua arte de imortalizar acabando por ofuscá-la?

Discussão

 

Sempre que nos víamos em apuros,
sério, não foi nada, nos ensinaram a dizer,
como se nada fosse. Tive que aprender
a insinuar e a inferir, somente mais tarde
pude me permitir dizer tudo abertamente.
Até hoje, admitir sentimentos ruins me dá vergonha
e prefiro dar de ombros ou omiti-los,
negando tacitamente o sentido desse sentir
como se o que não é dito não pudesse ferir.
Minha discussão interna é igual
à discussão que travo com o mundo: a mesma
decepção, a mesma incompreensão,
repulsa, descrença. Dissecá-la, como faço agora,
é como praticar dia após dia a flexão
de um tempo verbal proibido outrora: o presente imperfeito.

Meditação na garagem a céu aberto

As folhas não têm escolha
senão articular o vento:

álamos, como címbalos de dedo, cintilantes e inclinados;
o salgueiro, uma cítara solitária.

Folheando os choupos ao entardecer,
os ventos me encontram acomodada contra

o concreto da garagem a céu aberto,
de frente para as árvores, a entrada, a estrada,

as montanhas que se erguem do outro
lado do cânion, até que uma rajada brame

um êxtase sem mente nem coração
através do saco vazio que sou.

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