Número desconhecido. “Papai morreu”. Pausa. “Me disse para…” Pausa de novo. “… te telefonar quando acontecesse. Para você vir buscar um pedacinho dele. Disse que te prometeu.” Ofega.
“Te deixou também o pincel de caligrafia e o lápis com que escrevia haiku para a revista”, acrescentou, como sempre fazia comigo, com sarcasmo. Em seguida: “Mais nada e nada de valor, se você tinha alguma expectativa.” Ri de zombaria e desliga o telefone. Retorna em menos de um minuto: “Venha por trás, logo depois da incineração, quando todos vão partir rumo ao cemitério. Vou te esperar na capela, do lado do crematório. Não faça nenhuma cena, por favor. Seja normal. Pelo menos dessa vez.” Desliga de novo.
Um pedacinho dele!
Sabia que esse momento chegaria. Sabia que doeria. Desabei numa cadeira, fechei bem os olhos e o vi. Senti seus braços me envolvendo por trás, depois os lábios me beijando a nuca. Ouvi seu riso: “Te amo. Você é uma louca! Não, você é ligeiramente psicopata.”
Era verdade, eu era. Sou.
*
“Estou com inveja, você continua a mesma”, disse-me quando nos encontramos numa cafeteria, dois meses antes.
Quantos anos haviam se passado? Dezenove. Ainda estávamos tão conectados como no início, mesmo depois de tantas mudanças e acontecimentos, mesmo se ficássemos muito tempo sem nos vermos.
Vi-o envelhecido à minha frente. Com a mesma cabeça raspada, como quando o conheci. Com a mesma barba e bigode unidos num cavanhaque, só que agora completamente brancos. Quando o conheci, ele era apenas um pouco grisalho.
Agora estava tão magro! A cabeça pequena fazia a boina que a cobria parecer gigantesca. A helanca preta (ele ainda lembrava que ela era minha preferida e a vestia a cada encontro) colada ao corpo o tornava ainda mais magro. As calças, também pretas, pareciam um saco amarrado por um cinto. Mas continuava vaidoso como no passado, com óculos de armação de ouro no nariz e relógio (também de ouro) no pulso delgado e transparente. E, claro, envolvido naquele seu aroma misterioso de bastões de incenso misturado ao do primeiro perfume que lhe dei de presente, Tom Ford – black orchid, que continuou comprando.
Estiquei as mãos por cima da mesa, buscando as dele. Suspirou, colocou-as entre as minhas e fechou os olhos. “Estou magro demais, é o que você vai dizer, não é?” “Você está magro demais”. “Pois saiba que o câncer não voltou.” “Você está sendo sincero?” “Estou.” “Vai me contar se está acontecendo alguma coisa? Como é que eu vou saber se você morrer? Se você morrer do nada, como é que eu vou ficar sabendo? Você conversou com o Maru?” “Ei… não posso, já te disse que não posso, você sabe que não posso.” “Mas você prometeu!” “Mas você sabe que ele te odeia e sempre ironiza o fato de eu não me desgrudar de você, mesmo depois de tantos anos. Ele não compreende.” “Faça-o compreender, por favor. Tenha uma conversa com ele, diga que é de pai para filho, ou de homem para homem. Peça-lhe que tente compreender a nossa relação, sobretudo por ela já não incomodar faz tempo. Ela vive apenas dentro de nós e cada um recebeu o seu quinhão. E faz tempo que já desapareci de lá. Talvez ele consiga superar o ódio por mim e me avisar.”
Então paramos no primeiro motel e fizemos amor. Faz tempo que eu não o sentia tão apaixonado, eu sentira muita falta de sua ternura e de nossa intimidade.
Dois dias depois ele me telefonou, dando risada: “Falei com ele, olha, falei bem assim: ô, Maru, para mim é importante que você telefone para ela e a avise. E peço ainda que você guarde uma parte minha depois da incineração para lhe oferecer. É a nossa promessa. Você ficou louco? ele me perguntou, as partes restantes são APENAS para a urna familiar! O que vou dizer à mamãe? Como é que eu vou explicar para ela que preciso separar um pedaço de osso??? Ficou desesperado. Falei que eu confiava em sua força criativa e pronto. Prometeu.” “Tem certeza de que ele vai manter a promessa?” “Mais do que certeza. Ele é honrado. Me pediu teu número e te adicionou na agenda como Depravada.”
Ouvi-o dando uma gargalhada gostosa. Dei risada também.
Como Maru, nunca ninguém me odiou. Por vezes achava compreender o seu ódio, mas, na maior parte das vezes, tinha a impressão de que ele exagerava só por terribilismo ou para chamar a atenção do pai. Nem mesmo a mãe dele me odiava daquele jeito. A irmã menor, Shizuka, parecia não nutrir nenhum sentimento por mim. Não gostava de mim, mas também não me odiava. Conseguia encontrar forças para um cumprimento e até mesmo para uma breve conversa. E com o filho mais velho, Nobu, uma amizade e uma cumplicidade se formaram desde o início da minha relação com o pai deles.
*
Tranquei o último ano de faculdade, depois de teimar em ir para o Japão com visto de estudo. Fui até a embaixada do Japão, me informei e iniciei os trâmites. Freqüentei cursos de língua japonesa, para me enquadrar no número de horas exigido para se obter o visto, me preparei para o exame que atestava minha participação e o nível atingido.
Apaixonada por línguas estrangeiras desde pequena, o japonês logo me conquistou. A partir do nível mínimo exigido, meu interesse cresceu e continuei os cursos focando no nível intermediário. Não parei aí e cheguei ao nível avançado.
Visto que entre o colegial e a faculdade eu fizera uma pausa muito grande, não logrei adotar o estilo de vida estudantil, creio que até por isso consegui trancar a matrícula com tanta facilidade.
O intervalo depois do liceu aconteceu por causa de um mal-entendido com meus pais. Depois de a minha mãe dizer que seria o caso de eu arranjar um trabalho porque ela não me sustentaria durante a faculdade, meu pai interveio e disse que me sustentaria ele, mas não para estudar Jornalismo, que era o que eu queria, que não era profissão séria. Só vagabundos e pés-rapados. De modo que prestei onde ele queria, onde dizia ele que eu poderia obter um emprego bom, com salário alto. Na Faculdade de Geografia – Geografia do turismo, da Universidade. Teria dois exames extensos, quão difícil poderia ser? Francês e Geografia. Em Francês fui campeã olímpica desde o primeiro ano do colegial e continuei sendo quase até o fim. Em Geografia era suficiente aprender algumas matérias e, na sorte que eu costumava ter, com certeza elas cairiam. Apresentei-me confiante. O Francês eu tirei de letra e, em Geografia, bem, em Geografia caíram não sei que cordilheiras e eu, que havia estudado apenas algumas matérias, como planejado, só sabia escrever sobre o Danúbio. Comecei a prova com algumas linhas dirigidas à comissão: Prezada e honrada Comissão, e sublinhei “prezada”, não sei que matéria caiu para mim mas seria pena eu não ser aprovada, pois sei tudo sobre o Danúbio.
E preenchi páginas inteiras. Sem dizer que as enchi também com um monte de invenções. Claro, não me aprovaram. Fui verificar com papai a lista de aprovados, e ao lado do meu nome estavam as notas 9,95 em Francês e 1,25 em Geografia. Só isso alcançara o meu Danúbio.
Decidi fazer uma pausa, não prestar mais em nenhuma faculdade e arranjar um emprego. “Preciso me recompor”, disse ao papai.
Até que, após três anos de vagabundagem, senti fome de aprendizado e prestei Jornalismo. Fui aprovada, mas não estava contente. Não era velha demais em relação aos outros, mas sentia uma diferença. Eles vinham direto das carteiras do colegial e eu, chegava dos bares, botecos, ambientes com gente fora-da-lei e toda espécie de indecência. Lembro-me claramente, no entanto, do meu amor pelo estudo. Até eu me surpreendia. Freqüentava as aulas com prazer, escutava e anotava tudo com interesse, mais que uma cdf. Não me deixei envolver por nenhum grupo de colegas. Nem durante as aulas, nem fora delas. Durante os intervalos, eu me recolhia e ficava lendo. Fumava apoiada na parede e tentava adotar uma postura que evidenciasse meu desinteresse por companhia. Após alguns meses de tentativas, ninguém mais me abordava. Apenas cumprimentos breves. Eu tinha vindo para aprender. Parecia-me absurdo que, durante as provas, alguns colegas colavam de mim. Digo “absurdo” porque no colegial era eu quem colava e mais cabulava as aulas. Agora eram meus colegas que colavam de mim com toda a confiança, e me senti lisonjeada.
Lá pelo último ano de faculdade, algo ainda faltava. Talvez liberdade, talvez aventura e viagem. Por acaso encontrei, nem sei mais onde, o anúncio sobre o Japão e os vistos de estudo e foi aí que tudo mudou.
Haveria de estudar, numa escola no Japão, durante um ano e três meses, língua japonesa, possuindo mais bagagem de conhecimento do que exigiam. Tinha um diploma de nível avançado, de modo que emitiram o visto de estudo sem qualquer problema.
Assim que cheguei aqui, os primeiros meses passaram como um turbilhão. Nem senti quando já havia passado mais da metade do ano. Muitas coisas novas, a emoção das descobertas, a alegria da liberdade, a sensação do viajante, da qual sempre gostei, tudo isso me fazia sentir uma determinada magia. Estava sozinha, longe e, o que era mais intrigante, era independente e precisava me virar com tudo. Tinha vinte e quatro anos, mas por dentro eu me sentia com dezesseis. Na minha cabeça, eu era um personagem adolescente, como aqueles que eu invejara assistindo a Barrados no Baile e Uma Galera do Barulho ou o que mais exibiam no país durante a minha adolescência. Vivia assim como desejara viver no colegial, sempre que sonhava com liberdade, independência e vida cinematográfica.
Ia para a escola, terminava depois do almoço e depois ia trabalhar meio período num restaurante fast-food. Ao voltar para o pequeno quarto alugado eu sentia, de novo, estar vivendo num sonho, num filme. Ligava o ventilador de segunda-mão, deitava no colchão colocado direto no chão e descansava com o olhar pregado no teto durante uma hora. Tudo era pequeno e escasso, mas era limpo e só meu, de maneira que toda aquela pobreza me parecia romântica, boêmia.
Ia tomar banho, que beleza ter o meu xampu, o meu condicionador de cabelo, o meu gel de ducha! Que beleza era ter a liberdade de trocar, a meu bel-prazer, a bucha de banho! Que sensação maravilhosa poder viver o sonho da adolescência! Como eu sonhava com isso enquanto, no banheiro de casa, tudo o que encontrava era um pedaço grande de sabão, cortado de través e cheio de cascas de sabão mais velho, grudadas. Minha mãe produzia o próprio sabão num caldeirão imenso em cima do fogão. Mantivera esse costume aprendido no comunismo. Misturava soda cáustica e sebo de porco. Adicionava também umas folhas de nogueira e urtiga no final e misturava vigorosamente com uma pá imensa de madeira, empoleirada numa cadeira. Depois deixava esfriar, virava com o papai o caldeirão de cabeça para baixo na varanda e cortava o sabão em pedaços grandes com um serrote. Depois distribuía para as vizinhas do prédio. Pareciam felizes em receber aquilo, mas sempre me perguntava se realmente usavam. Eu agora me surpreendia, rodeada por tantas fragrâncias de cosméticos, como é que o nosso cabelo não caiu por causa daquele sabão. A bucha também só era trocada depois de virar um trapo e a toalha arranhava o meu corpo quando eu me enxugava.
Agora eu me enrolava numa toalha macia e pensava não precisar de muita coisa para ser feliz enquanto olhava pela janela. Amanhã vou aproveitar o dia livre para ir de bicicleta às montanhas, até o telhado vermelho que se avista entre as árvores. Faz uns sete meses que olho para ele. Amanhã vou descobrir o que ele cobre.
*
Um templo! Depois de uma hora e quarenta e cinco minutos, cheguei. Durou menos do que imaginara e a impressão foi a de ter durado ainda menos. Tive a impressão de ter pedalado no máximo vinte minutos.
Silêncio completo. Apoiei a bicicleta numa árvore e olhei para cima, para o telhado alto e vermelho. Depois em derredor. O quintal imenso estava repleto de estatuetas de pedra, de diversas dimensões. Seu estranho aspecto me fazia me sentir em outro universo. A maior parte das estátuas estavam em posição sentada, com as mãos repousadas na parte interna das coxas. A testa era larga e, sob ela, sobrancelhas muito espessas, esculpidas em relevo, cobriam pálpebras imensas, inchadas e cerradas. Depois o nariz afinado para baixo, situado exatamente até o lábio superior. As linhas da boca lhes davam um aspecto franzido e, parecia-me, com um vago sorriso nos cantos. Invadida por sua serenidade e pelo sossego do quintal, continuei caminhando.
Uma vasta entrada. Dei alguns passos e me detive perante um vaso imenso, de pedra. Estava preenchido com areia fina, cinzenta, em que estavam enfiados bastões longos e finos que queimavam e disseminavam um aroma de madeira e grama fresca, flores e frutos secos. Inclinei-me para sorver aquele aroma incomum, inspirei profundamente e ergui o olhar. Atrás do vaso, a poucos passos de distância, erguiam-se duas portas altas, de vidro, que estavam abertas. À esquerda e à direita delas, retas e brilhantes ao sol havia duas pilastras vermelhas, talhadas em espiral. No espaço detrás das portas, daquilo que fui capaz de avistar, do lado direito, um pedestal de madeira, em forma de púlpito, ao lado do qual havia mais um vaso, menor do que o do lado de fora, no qual queimavam bastões de incenso mais curtos e mais grossos. Do lado esquerdo, uma mesa quadrada, grande e muito baixa. Sem cadeiras. Em cima dela havia umas folhas e dois pincéis grandes, de caligrafia japonesa, em desordem. A parede da esquerda era toda de vidro e através dela podia-se ver o lado de fora, e a da direita parecia resguardar atrás dela outro espaço.
Ouvi um farfalhar e dei alguns passos para trás. Entrei em pânico e, mesmo não tendo feito nada de mau, rodopiei nos calcanhares e saí correndo. Perto da árvore com a bicicleta, tropecei numa corrente grossa e caí. Fiz menção de me levantar e vi dois olhos que me fitavam. Era um cachorro que permanecia imóvel, com o focinho em cima das patas. Como é que eu não o tinha visto quando cheguei? E por que estava tão quieto? Por não parecer nada agressivo, aproximei-me dele e dobrei as pernas debaixo do traseiro. Fiquei por alguns momentos fitando-o nos olhos, tomei coragem e encostei levemente em sua cabeça. Não se incomodou, de modo que continuei acariciando seu pêlo áspero. Na zona do pescoço quase não tinha mais pêlo, parecia raspado pela corrente pesada que o cingia. Tentei ver se eu conseguiria afrouxá-la um pouco, enquanto me perguntava por que a pessoa que o acorrentara daquele jeito achava necessário usar uma corrente tão grossa para um cachorro de tamanho médio, velho e, sobretudo, manso.
“O nome dele é Taro!” ouvi uma voz atrás de mim e senti uma mão sobre o ombro. “Ajudo a senhora a se levantar?”
“O senhor talvez me ajude a compreender por que faz esse cachorro sofrer”, pensei comigo mesma e me virei irritada para a pessoa atrás de mim.
“Tudo bem, obrigada, posso me levantar sozinha.”
“Veio visitar o templo? Ou está procurando alguma coisa?”
“Vim… bom dia”, respondi-lhe enquanto limpava as mãos nas calças.
Em seguida me calei. Por que estava sendo rude? Talvez não fosse uma pessoa má. Tentei, no menor tempo possível, observar o máximo. Estava de pés nus enfiados em tamancos de madeira com dois saltos, um no calcanhar e outro no meio da sola. Tinha aprendido sobre eles na aula de cultura japonesa, chamavam-se geta. Estava usando um par de calças bege e uma camiseta leve e fina, branca. Suas faces eram barbeadas, por cima dos lábios finos tinha um bigode muito curto e a barba era um cavanhaque um pouco grisalho. No nariz usava óculos redondos, de armação dourada, detrás dos quais me fitavam alegres dois olhos pequenos e cor de café. Passou a mão pela cabeça recém-raspada, deu um sorriso e, pelas linhas do rosto, devia ter um pouco menos de cinqüenta anos.
Apresentou-se: “Sou Shouken, sacerdote do templo” e me disse que muito raramente passa um gaijin[1] por ali. Contente, se ofereceu para me mostrar as redondezas. Confessei que já dera uma olhadela. Deu risada e apontou para a janela de uma casinha, grudada ao templo um pouco mais atrás. “Eu te vi”, disse-me. “Vi até quando você caiu”. Rimos os dois. Não me incomodou que se dirigia a mim com um tratamento mais familiar.
Parecia muito amistoso e senti calor. “Por que você mantém Taro preso a uma corrente tão grossa?” “Ele foge. Foge e não consigo mais encontrá-lo durante dias. Por vezes fico procurando-o uma semana inteira pelo bosque. É perigoso para ele, é velho e quase cego. Fico preocupado que morra de fome ou de sede ou que não encontre mais o caminho de volta. Não importa como eu o prenda, ele sempre consegue fugir. Não fica preso o tempo todo, só quando estou ocupado e não posso ficar junto com ele. Quase sempre dorme comigo, dentro de casa. Sei que soa estranho, mas eu o amarro para seu próprio bem. Está comigo desde que era filhote, nunca saiu de perto de mim, não quero que nada lhe aconteça. Quero que morra tranqüilo e amado.” “Talvez queira morrer tranqüilo no bosque, já que sempre foge e não volta mais” “Talvez. Mas eu tenho uma dívida para com ele.” Deixou de sorrir.
“Lá bem atrás tem o quê?”, perguntei-lhe para mudar de assunto e, alguns metros depois, a meus pés se estendia o primeiro hakaba[2] que vi na minha vida. Abarrotado de pedestais de mármore e uns pedaços retangulares, também de mármore, enfiados neles. “Chamam-se hakaishi[3]”, disse-me ele, “e em cada uma delas está escrito o nome da respectiva família.” Descobri depois que, ali onde havia também algumas placas estreitas e compridas, no formato de esquis de madeira, alguém falecera e nelas estava escrito um nome novo. A tradição exigia que o falecido recebesse do sacerdote um nome budista, com o qual faria a travessia para o além. As pedras funerárias eram pagodes formados por cinco cubos de mármore representando “os cinco elementos da filosofia budista – terra, água, fogo, ar e espaço” disse-me ele. Escutava-o e, olhando curiosa ao redor, sua voz e explicação haviam se transformado num ruído de fundo. Como tudo era diferente, que atmosfera diferente da dos nossos cemitérios! Mas logo livrei-me daquele pensamento.
Cada monumento tinha a seu lado um espaço dedicado às flores, bastões de incenso e água, caso o falecido viesse a sentir sede. Conforme o caso, poderia ser substituída por saquê, em função dos costumes e preferências do tempo em que era vivo.
“Este é o espaço mantido para a minha família, felizmente, ainda desabitado.” Deu um sorriso e logo acrescentou “e logo ali atrás estão todos os meus ancestrais.” Tinham sido muitos, julguei pelo número de madeiras sujas enfiadas junto aos monumentos, carcomidas pela intempérie e com o kanji dos nomes quase invisíveis. Mostrou-me depois uma urna. “E aqui está o meu tio predileto, Toshi-San.” Olhei para as placas de madeira pura. A tinta do nome novo – Aquele que é amado – era recente. Junto à urna, uma garrafinha de saquê e um maço de cigarros.
Tirei um cigarro do meu maço e respeitosamente me inclinei perante o tio: “boa tarde, prazer, sou Luana e gostaria de fumarmos juntos.”
Os olhos do sacerdote marejaram. Fumamos os três em silêncio.
*
Éramos namorados fazia dois meses.
“Quando você soube que havia se apaixonado por mim?”
“Logo que você caiu. Quando te vi sentada ao lado de Taro, no primeiro dia, analisando a corrente e quando vi que ele aceitava suas carícias. Em geral, não aceita. E você?”
“Quando vi teus pés usando geta.”
Deu uma gargalhada e um tapa na minha coxa de viés sobre a sua cintura. Fechou os olhos e, acariciando-me, continuou:
“Para ser franco, eu me apaixono toda vez que o seu lado psicopata aflora. É estranho que eu tenha visto certa manhã, pelas cinco horas, poucos dias após a sua primeira visita ao templo, bitucas dos seus cigarros no cemitério e meu coração se pôs a galopar. Sabia que as deixara para eu ver que você tinha passado por ali. Aquilo me incitou. Afinal, a que horas você podia ter vindo? Às duas da madrugada? Às três? De bicicleta, um trajeto tão longo? Talvez eu devesse temer ou me sentir desconfortável, mas a tua loucura me intrigou. Passei a sonhar com você, acordava com freqüência e ia até o quintal ou cemitério para tentar te apanhar. No entanto, passavam-se dias inteiros até surgir o próximo cigarro, fumado pela metade.”
Sabia. Sabia que estava provocando tudo aquilo nele. Apaixonara-me não pelos seus pés usando geta, como eu costumava lhe dizer para o aporrinhar, mas, sobretudo, por causa de sua idade. Depois, por sua voz, sua tranqüilidade e sua maneira de manter os pés no chão. Precisava conquistá-lo. É verdade, eu passava de madrugada pelo templo e deixava sinais, brincava com a sua mente. Meu desejo era de que ele pensasse só em mim. Imaginava-o perturbado, tentando executar os rituais e depois levando o dia adiante, sem que minha imagem abandonasse seus pensamentos.
Provocava seus sentidos e emoções. Entrava no templo, aproximava-me da mesa da esquerda e, com o pincel de caligrafia molhado na tinta negra e luzidia, escrevia-lhe o kanji do amor 愛 – Ai – nas folhas que eu depois adicionava às que estavam colocadas em ordem no púlpito alto da direita.
Dávamos agora risada quando me contava que seu coração parava de bater sempre que as encontrava no meio de um ritual.
No entanto, a maior loucura que cometi foi quando ele me disse que começara a dormir sozinho. Que abandonara o quarto compartilhado com a esposa, no primeiro andar, e que passara a dormir no andar de baixo, conectado ao templo. Comecei bastante cedo a dar uma de brava e ciumenta. Não engolia o fato de ela estar entre nós, mesmo se ele me dizia que não faziam mais sexo e que nem mesmo se abraçavam. Isso já muito antes de eu aparecer.
Disse-lhe que, se me amava, deveria ser só meu, só eu deveria sentir o calor de seu corpo.
Quando ouvi dele que montara o próprio quarto, compreendi que meus tentáculos haviam se espalhado e senti uma alegria maldosa. No mesmo dia, esperei anoitecer e montei na bicicleta. Meus olhos mal viam a hora de constatar o efeito dos meus encantos.
Ao chegar, pouco depois da meia-noite, notei a janela aberta e nem pensei duas vezes. Não me importava a esposa dormindo no andar de cima, nem seus filhos me importavam. Tudo se tornava ainda mais instigante. Trepei no peitoril e olhei para dentro. Ele não tinha mentido. Raios de luar atingiam a borda da cama e ele estava tão bonito dormindo. Em cima de um pedacinho de tapete, Taro abriu os olhos, preguiçoso, e voltou a fechá-los. Nem sei quando e como, mas num instante eu já estava na cama e acariciava seu rosto. Estremeceu e abriu os olhos: “É agora mesmo que vou infartar! Nessa luz você tem a beleza de um fantasma, meu amor” beijou-me a palma da mão e a conduziu para o meio das pernas. Estava duro. “Olha o que você faz comigo, olha como a tua loucura me incita.”
Ele me puxou para cima dele, fizemos amor e fui embora. Teria ficado mais tempo em seus braços, mas eu gostava de drama e de deixá-lo sempre embaralhado.
*
Não me contava muito sobre os filhos, embora eu perguntasse. Sentia-me tão apaixonada, que cada detalhe me interessava e eu sempre lhe dizia que tinha muita curiosidade em vê-los, ao menos à distância. Queria ver como eram aquelas partes dele, se eu o reconheceria em seus traços, em seu sorriso ou em sua crispação.
“Nobu tem vinte e cinco anos, um ano mais velho que você. Quando nasceu, fiquei muito feliz por ter um herdeiro. Interessava-se por tudo o que eu fazia, tínhamos uma ligação forte. Lá pelos anos do colegial, algo nele se transformou. Tornou-se rebelde e assim permaneceu. Até freqüentou uma terapia, por recomendação da escola, mas continuamos sem saber o que desencadeou aquela mudança drástica. É a minha maior decepção. Bebe muito, fuma muito, não pára muito em casa e, quando não sai, fica fechado no quarto, recebendo visitas de gente suspeita. Gasta muito dinheiro e sempre promete que vai arranjar trabalho. Não tem boas maneiras no falar, responde com grosseria, não terminou a escola e nem vai poder seguir a tradição segundo a qual o próximo sacerdote tem de ser o filho mais velho. Tentei algumas vezes expulsá-lo de casa, mas ele tem uma condição médica especial, sofre do mal de Crohn.” Não sabia o que era. “É uma doença que ataca o intestino grosso e o estômago. Segue uma dieta alimentar drástica, desde a infância. Mas em vão preparo suas refeições conforme as regras se ele leva essa vida desregrada. Parece que faz de propósito. Mais de uma vez ele me disse que nos odeia a todos, em especial a mãe.”
Não sei por que senti vontade de o defender. Quanto mais me contava num tom descontente, mais empatia eu sentia por Nobu. Agora é que eu queria mesmo conhecê-lo.
“Depois vem Maru, que tem vinte e três anos. Ele se envolve um pouco mais nas tarefas domésticas. É muito protetor em relação à mãe e respeitoso comigo. Tenta atender às expectativas.
Desde pequeno se esforçou por se alçar ao nível de Nobu. Acho que sofreu enquanto observava minha ligação com ele e meio que se alegrou quando Nobu enveredou por outro caminho. Maru terminou os estudos e agora freqüenta um mestrado em Agricultura, que é o que ele gosta. Estou pensando em mandá-lo para a escola sacerdotal. Alguém vai ter de herdar o templo, embora já tenha me dito claramente que não é isso o que ele quer da vida. Quer ter uma existência e uma familia normais, longe do templo e de tudo o que ele significa. Acho que longe de mim, também. Sinto sua frieza para comigo desde que comecei a me distanciar de sua mãe. Ademais, ele me responsabiliza pelo ódio que Nobu nutre por ela. Foi o que ele me disse.
A caçula é Shizuka. Nem sei o que dizer sobre essa menina. Não sinto nada por ela, não sinto nenhuma conexão entre nós. Tenho a impressão de que não liga para nada. Vive no mundo dela. Sempre calada, sem opinião, sem desejos, sem sonhos. Tão calada que durante muito tempo suspeitei que sofresse alguma forma de autismo. Não tem. Ela é assim, muito pouco presente e sempre atrás da mãe, como se fosse sua sombra. Está satisfeita, agora que você conhece a todos?”
“Não. Ainda quero encontrá-los um dia.”
Meus deslocamentos noturnos até o templo se tornaram um hábito. Esgueirava-me na cama ao seu lado e ia embora pouco antes das cinco da manhã. Sentia um prazer diabólico em fazer amor com ele ali, na mesma casa em que, no andar de cima, a esposa dormia. Sentia satisfação por ter escolhido a mim, que a nossa ligação era a mais importante e que juntos podíamos desafiar tudo.
Mas não só por isso eu gostava de como fazíamos amor, mas também os anos nele acumulados incitavam meus sentidos. Desde cedo gostei de homens mais velhos que eu. Não apenas mais velhos. Muito mais velhos. Achei várias vezes que isso se devia ao fato de que, na infância, antes de completar oito anos, um homem me lambeu na casa de máquinas do elevador do prédio em que eu morava com meus pais. Ainda não sei se me molestou ou me fez, finalmente, um bem. Não gostei, mas também não doeu. Lembro-me apenas de um desconforto e uma queimação. Tive sorte, ele não me forçou a fazer o mesmo para ele, nem me penetrou. Penso hoje na sorte que eu tive. Ele podia ter batido em mim ou mesmo me matado. Ao invés disso, ele me ensinou que tenho o poder de manipular os homens do jeito que eu quisesse.
Tentei, claro, ter também namorados da minha idade, mas as relações fracassavam rápido. Não me sentia à vontade, não conseguia me comunicar, não me sentia bem, e o sexo era desagradável. Com os mais velhos era diferente. Escutavam-me, davam-me toda a atenção, comunicávamos e conversávamos, levavam-me a sério e me sentia pertencer. Uma grande vantagem era o fato de que também me mimavam.
Na cama jamais me interessou o desempenho ou a técnica que os jovens tentavam exibir. Interessavam-me as sensações, e era o que eu procurava. Adorava as carícias sem fim, os beijos, os abraços. Excitava-me a idéia do enlace. Não gostava do sexo pelo sexo. Não gostava do sexo feito apenas no intuito de atingir o orgasmo. Minha mente podia chegar até ele de outros modos. Outras coisas eletrificavam meu cérebro. Acho que tudo começa no olhar. Sem falta ele tem de ser incendiário e só os olhos de um homem mais velho são capazes disso. Depois, a sua adoração. Nada mais do que isso atiçava a minha mente. Sempre senti que ninguém pode nos amar melhor na cama do que um homem mais velho.
Com o meu sacerdote, tudo se desenrolava como num sonho, embora houvesse sido difícil no início, quando se sentia complexado por causa da idade. Quando me revelou seu ano de nascimento e descobriu que coincidia com o do meu pai, seus olhos obscureceram. Os meus cintilaram de encanto. Todas as partes das quais sentia vergonha, a mim me atraíam. Sua idade o complexava, mas seu corpo maduro me seduzia.
Gostava de passar os dedos por suas rugas, beijá-las e vê-lo embaraçado. Gostava de lhe pedir que fechasse os olhos e se entregasse a mim. Então ele se esquecia do físico do qual não gostava. Arfava e gemia enquanto passava a língua por seus lábios entreabertos. Sorria enquanto eu o beijava atrás das orelhas e depois, quando minhas mãos desciam e passavam por seu peito, sentia como se crispava um pouco. “Você é bonito”, sussurrava-lhe. Sorria de novo e relaxava. E não era mentira. Ele não era feio nem velho, mas se sentia assim só porque eu era jovem demais, havia uma diferença de vinte e quatro anos. Ele era bonito daquele jeito, todo arrepiado de prazer. Daquele jeito, aturdido pelo meu amor que aprendera a acreditar e a aceitar. Brincava um pouco com os pêlos do peito, descia e lhe acariciava o ventre, o quadril, fazia ainda os dedos passarem um pouco pelos pêlos pubianos até, finalmente, eu apanhar seu sexo e o esfregar um pouco antes de me sentar e me entregar a ele. Ele abria os olhos, erguia o quadril e segurava minhas coxas. Com as palmas das mãos ainda passando por seu corpo, via seus olhos repletos de amor misturado a insegurança. “Você é amado”, lembrava-o inclinando-me por cima dele. Mordia-lhe a boca, enfiava as unhas em seu peito, ondulava apertando-o dentro de mim e me espremendo mais nele. Então ele enlouquecia de prazer e me penetrava em movimentos rápidos até terminar. Permanecia em cima dele e o apertava ritmado dentro de mim até sentir as últimas pulsações do pênis que se acalmava e saía deslizando por entre as nádegas. Gostava depois de olhar como punha as mãos em baixo da cabeça, aí eu encaixava um cigarro entre seus lábios, que ele fumava calado, de olhos entreabertos. Fascinava-me o poder que eu tinha sobre ele, sobre suas emoções e, em especial, sobre sua auto-confiança.
“Eu poderia fazer de você o que eu quisesse”, disse-lhe. “Eu sei”, respondeu-me, “e a alegria com que você me diz isso me faz pensar que, talvez não amor, mas obsessão é o que você sente por mim. E isso me excita.”
Pegou-me nos braços, deu-me um beijo ruidoso, derrubou-me de costas e adormeceu largando o corpo pesadamente sobre o meu.
Não conseguia dormir, esgueirei-me e saí. Eram três da madrugada. Taro estava com o focinho em cima das patas junto à minha bicicleta. Soltei sua corrente: vamos passear, Taro. Voltamos logo, pois não tenho permissão de te soltar. Ou… quer saber? Fuja. Faça o que gosta. Fuja para onde quiser! Não fugiu, foi para trás do templo e caminhei atrás dele. Ele está bem, disse para mim mesma. Vou fumar um cigarro com Toshi-San e vou embora. Diante da urna, inclinei-me com respeito, como sempre, e me sentei com Taro do meu lado. “Sou eu, Luana, boa noite”, disse e dei uma tragada forte no cigarro. “Eu sei”, respondeu uma voz gutural que me fez pular. Vinha de trás de mim. Breu. Em seguida, o som de um isqueiro e, à breve faísca, metade de um rosto. “Você é a amante do papai”, continuou a voz, e surgiu sob o luar um belíssimo rapaz. Apoiou-se no lampião dentre nós e me fitou. Enfeitiçou-me o rosto magro e ossudo. Olhos de um negro intenso faiscavam e lábios carnudos se abriram num sorriso sedutor. Os dentes eram ligeiramente encavalados e amarelados pelo tabaco. Até isso tinha um certo charme. O cabelo negro e luzidio estava penteado para trás. Era esguio, não muito alto e usava roupas negras largas. Sua imagem me conquistou.
Estiquei-lhe a mão, que ele ignorou, tocando meu rosto com a ponta dos dedos. Gesto estranho de aproximação, vindo da parte de um japonês. “Nunca encostei num hakujin[4]”, retirou a mão e deu uma risada rouca.
Fitei-o longamente. “Não me pareço com o papai, não é?”, adivinhou meus pensamentos. Era isso mesmo. Não do ponto de vista físico, mas o olhar, a voz, o riso e o ar que emanava eram do pai. Até mesmo a maneira ingênua e ao mesmo tempo atrevida de me abordar.
“Vai ficar para mais um cigarro?”
Sentamo-nos.
“Até a mamãe sabe de você. Todos sabemos.”
*
Passaram-se mais três meses em que vivemos a nossa estória sem sermos incomodados. Sim, sentia um certo desconforto pelo fato de sua esposa saber e, no entanto, era incapaz de desenvolver um sentimento de culpa. Sentia que era uma questão que dizia respeito apenas aos dois. No final das contas, eu era uma pessoa livre. Não devia explicações e fidelidade a ninguém. Não eu era quem cometia um erro para com ela. Não eu lhe jurara ou prometera qualquer coisa. Além do mais, quando apareci na vida deles, sua relação já sofria dificuldades. Jamais conheci os detalhes disso.
Apesar de todas essas convicções, senti compaixão no momento em que pela primeira e única vez nossos olhares se cruzaram, enquanto eu o aguardava no carro certa tarde com uma muda de roupa. Ela ouvira o som do motor e foi interpelá-lo com Shizuka atrás dela. Ele passou ao seu lado sem dizer uma palavra, e ela se virou para mim. Vestia roupas simples, uma blusa amarelo pálido, de gola redonda na base do pescoço e uma saia violeta, que ia exatamente até a altura dos joelhos. Seu cabelo estava preso no estilo das mulheres mais velhas, com um rabo na nuca, e debaixo da franja escura e reta dois olhos negros me fitavam. Com ela se parecia Nobu, disse para mim mesma, e meu primeiro impulso foi evitar seu olhar, mas me deteve um sorriso tímido no canto de sua boca. Fitei-a. Não reconheci desprezo no seu rosto, nem ciúme, apenas um vestígio de desassossego. Tentei também dar um sorriso. Então Shizuka procurou segurar sua mão enquanto lhe sussurrava alguma coisa. Era gordinha, de cabelo preso como o da mãe, mas oleoso e mais desarrumado, de olhos pequenos e vazios e sobrancelhas raspadas. Roupas amarrotadas e encardidas cobrindo aquele corpo maciço lhe davam um aspecto indolente. Ela não se parece com nenhum deles, pensei comigo mesma, quando bang!, uma mão golpeou a janela do carro pela qual eu olhava. Sobressaltei-me. De imediato seguiu-se um rosto furioso, que eu não conseguia enxergar bem por causa do cabelo comprido, transpirado e grudado nele: “Você é uma depravada!” berrava, “Ele podia ser teu pai! Você me dá nojo!”
“Maru!” gritou seu pai.
Maru deu alguns passos para trás. Desgarrou-se quando o pai pôs uma mão sobre seu ombro e, quando tentou conversar com ele, interrompeu-o berrando de novo: “Uma depravada!”
Enquanto o carro se distanciava devagar, levantei os olhos e evitei que as lágrimas caíssem. Da janela de seu quarto, Nobu me dava um sorriso com a mão no coração.
*
“Você vai se extinguir, Luana, caso mude ou controle sua loucura. Vai definhar e morrer.”
Mas minha loucura e meus impulsos haviam amainado, de modo que não sentia mais a mesma alegria em coisas difíceis ou proibidas. Ele estava brincando e dizia que lhe faltava adrenalina. Nem mais as escapulidas até o templo, de madrugada, eram necessárias, pois ele passou a pernoitar com freqüência em minha casa.
Senão, parávamos nos motéis. Como eu gostava daquilo! Muito possível que existam só no Japão. Conceito e sistema criados por eles. Prédios em geral escondidos atrás de outros mais altos, ou situados em ruas secundárias e distantes de supermercados, escolas e instituições. Nos bairros mal-afamados de Tóquio, Saitama, Nagóia e outras cidades, porém, eles podiam ocupar ruas inteiras, à vista de todos, estendendo-se em todo o seu esplendor, com luminosos e ornamentos coloridos. Eram tantos e tão apertados entre si, que não se podia saber com exatidão em qual tinha-se entrado. Não importava, pois não se distinguiam muito uns dos outros. Todos exibiam telas luminosas que apresentavam os quartos como num cardápio. Apertava-se o quarto escolhido, entrava-se num pequeno saguão onde cabiam apenas duas pessoas em pé e no qual havia apenas um guichê. Guichê, exagerado dizer. Era uma fenda grande o suficiente para que passasse a mão da recepcionista, cujo rosto jamais se via, sempre de idade, sempre com voz tabagista, que jogava no balcão a chave pesada, daquelas antigas, com chaveiro grande, de madeira, em que estava escrito o número do quarto. Percorria-se um corredor estreito e obscuro, entrava-se e desde aquele momento podia-se sentir no mais privado dos espaços. Uma vez lá dentro, não havia mais necessidade de nada. A porta se fechava e trancava automaticamente, levantando perguntas quanto à utilidade da chave que ficava na mão. Na parede ao lado da porta, um grande monitor e um aparelho. Ali, à saída, realizava-se o pagamento.
Os quartos eram dotados com tudo. Qualquer coisa que se pudesse imaginar em tais lugares. A cama imensa era, em geral, situada no meio. As cortinas – espessas e de cores escuras. Atrás delas, as janelas estavam sempre bloqueadas, para impedir suicídios.
Refrigerantes, álcool, bebidas energizantes e outras garrafinhas com substâncias para aumentar a libido encontravam-se dentro de uma pequena geladeira. Cada produto ficava num compartimento específico, com uma portinha transparente dotada de um botãozinho de plástico. Ao ser apertado, a portinha se abria e, através desse sistema, a bebida escolhida já era adicionada à conta a ser quitada na saída. Não importava se era ou não consumida. A mesma coisa com o armariozinho do lado, sempre havia um. Dentro dele havia brinquedos sexuais, lingerie íntima, pílulas contraceptivas do dia seguinte, tudo separado individualmente em gavetinhas com portinhas transparentes e botão. Em frente à cama, um televisor imenso cuja tela sempre nos recebia com imagens pornográficas. A seu lado, um cabideiro com fantasias penduradas, para quem estivesse a fim de cosplay[5]: enfermeira, faxineira, estudante. Todas com um aspecto barato e imundo.
Na mesinha do meio do quarto, controles remotos: televisor, ar-condicionado, karaokê (que não faltava em lugar nenhum) e iluminação. Junto a eles, um cardápio de comida. Ao lado da mesinha, uma poltrona de massagem que nunca funcionava.
Banheiro, com ducha e banheira, onde jamais faltava nada. Escovas de dente, enxaguante bucal, aparelhos de barbear, loção pós-barba, gel e espuma de cabelo, tônico capilar, creme e loções para a pele e o corpo. Ademais, xampu, sabonete líqüido, condicionador, sais, espuma e óleos de banho. Do lado da banheira, um colchão para uma pessoa, de silicone mole, sempre com um frasquinho de gel transparente, viscoso, espesso e escorregadio. Em cima dele os casais fazem massagem erótica.
Na cabeceira da cama, um painel com botões. Nesse painel eu gostava sempre de brincar com as freqüências do rádio, ele me abraçando por trás e me provocando com “quem ainda ouve rádio? Eles vão retirar isso.” Sempre que entrava num motel, a primeira coisa que eu fazia era correr até o rádio, debaixo de suas risadas, para verificar se funcionava.
À saída, conforme o número de horas passadas e de botões de plástico apertados, uma voz robótica anunciava a quantia a ser paga e, após o pagamento, a porta se destrancava automaticamente. No escuro, era necessário seguir a flecha luminosa indicando a saída por um corredor diferente daquele da chegada, de modo que durante toda a experiência não se vêem outras pessoas. Discrição máxima.
*
Tinham sobrado dois meses do meu visto de estudo. Minha partida se aproximava, assim como o prazo de entrega da dissertação.
Durante o tempo que sobrava, tentávamos ficar o máximo juntos. Há algum tempo desistira do trabalho de meio período no fast-food para nos vermos mais. Era difícil para mim, acostumada que era com a liberdade financeira, mas ele insistira argumentando que não estávamos nos vendo o bastante. Com meu último salário comprei para ele um perfume terrivelmente caro para as minhas possibilidades, mas tinha a impressão de que sua fragrância refinada e sofisticada combinava com ele. Gostava de gastar com ele, justamente por eu não ter dinheiro. “Agora você empobreceu de vez, minha pequena”, disse-me ele ao retirá-lo da caixa. Mas seu sorriso naquele momento me enriqueceu.
Os cursos na minha escola, à qual nos últimos tempos não me dedicara com seriedade, terminavam, na maior parte das vezes, na mesma hora das tarefas dele. Tomava cuidado para não faltar e manter em dia todas as provas e redações mas, fora as aulas de kanji, não me sentia mais diante de um desafio. Sobre cultura eu preferia perguntar a ele, e a gramática começara a me entediar com sua simplicidade.
Ele ia me pegar na escola todo dia.
Havia muitos dias em que estavam programados rituais religiosos. Ora alguém falecia, ora a tradição exigia determinados serviços para os já falecidos. Era amado pela comunidade, muitos daqueles que iam vê-lo faziam-no por motivos que não tinham a ver com seu ofício, pois, inexistindo portões, as pessoas podiam entrar a seu bel-prazer e conforme a necessidade do coração. Para todos tinha sempre um chá verde, um biscoito de arroz, um bastão de incenso, um conselho e um sorriso. Eu não tinha muito acesso a essa faceta dele, mas o espreitei algumas vezes, no meio do dia, quando eu não deveria estar ali, trepada na bicicleta apoiada na cerca da casa vizinha, tomada por uma saudade súbita. Por vezes dizia ter-me visto. “E você ficou bravo?” arregalava os olhos e ficava emburrada de brincadeira. Ele beijava a palma da minha mão “Não, Luana, eu também estremeci de saudade.”
Nos dias em que não tinha nada religioso no programa, ele escrevia haiku para a revista da província. Escrevia sob anonimato, e sua modéstia me fez me apaixonar ainda mais por ele.
Estivesse ele usando vestes sacerdotais, de mangas longas e largas, com a túnica da cor do arrozal, comprida até o chão, largamente aberta na frente, em cujas laterais pousava reto, sem nenhuma dobra, uma gola de um branco imaculado, grande e larga, também comprida até o chão, ou estivesse ele usando roupa normal, tinha sempre o mesmo ar simples, natural e comportamento modesto. Quando saíamos, usava jeans, sempre negros, botas de couro de salto discreto, que o ajudava a combater o complexo de baixa estatura. A helanca negra delineava belamente seus ombros, a cintura e o abdômen. Por cima dela, sempre um paletó de mangas arregaçadas. Bolsa e cinto sempre caros mas sem o símbolo das marcas à vista. Nem mesmo o Rolex e os óculos com armação de ouro não pareciam acrescentar qualquer traço de opulência.
Acho que o que eu mais gostava era de o ver vestindo uma camiseta fina e leve, calças de linho em cores claras e descalço, enquanto criava um nome novo para o falecido que se preparava para a última cerimônia e quando escrevia o discurso funerário. Todos eram sempre diferentes. Telefonava para os parentes próximos, colegas de trabalho, família, vizinhos. Perguntava-lhes detalhes de sua vida, anotava tudo e, circundado por luzes e bastões de incenso, passava quase a noite toda escrevendo.
Contemplava-o sentado com os pés debaixo da mesa, inclinado sobre papéis e o ouvia recitando baixinho uma encantação rítmica: nou-maku-san-man-da-a-baza-ra-dan. Esgueirava-me sob a mesa baixa e adormecia com a cabeça sobre sua coxa. Acariciava-me sem interromper o mantra: …sen-da-a-ma-a-ka-ro-shya-a-ta-a-sowa-taya-un-tara-ta-a-kan-man…
*
Enveredei pela alameda, passei pelo grande estacionamento em frente ao crematório e estacionei atrás dele, assim como Maru me indicara. Nos dois últimos dias, desde a chamada telefônica, virei bicho do mato. Não falei com ninguém, nem saí de casa. Fiquei em letargia.
Não conseguia tirar da cabeça o fato de que eu mal falara com ele e o mal tocara dois meses antes. Se eu soubesse que teria sido pela última vez…
O quê? Se eu soubesse, teria feito o quê? Teria dito a ele? Como eu poderia mudar o passado? E será que mereceria ser mudado? Do jeito que foi, impossível, não foi o mais belo amor? Durou vinte anos e atravessou todos os obstáculos.
Olhei para o relógio, chegara meia hora mais cedo. Abri a janela e inspirei profundamente o aroma dos bastões de incenso. Vinha das proximidades, misturado ao farfalhar das folhas, a murmúrios e encantações. Será que o ritual estaria sendo oficiado por Maru? Fechei os olhos.
*
Tinha agora a sensação de me arrepender por não tê-lo deixado se divorciar logo depois que me formei. Talvez houvéssemos vivido felizes juntos, mesmo se perdesse o templo, assim como o ameaçaram ao expressar sua intenção diante dos grandes sacerdotes da província, cujo chefe era seu próprio pai.
Ao invés disso, preferi retornar imediatamente depois que liberaram os vistos de turismo e me casar perto dele. Era a única solução.
O homem escolhido era irmão do marido de uma ex-colega da escola de japonês, e não foi difícil enrolá-lo. Moço simples, todo complexado, soldador na Subaru[6]. Não era ciumento, contentava-se com a pouca atenção que eu lhe dava, não era insistente e, uma vez bem tratado, não fazia perguntas.
“Mais uma de suas loucuras!”, gritou ele, perplexo, quando lhe contei do casamento. “Itsumademo[7], lembra quando você me disse?”, retruquei, “para mim não foram apenas palavras”.
Depois chorou e me disse que ninguém jamais o havia amado tanto.
Nossos encontros rarearam. A rotina e as preocupações do dia-a-dia não perdoaram nem a nós, embora nossa ligação continuasse forte.
Certo dia, a umas duas semanas do último encontro, ele me disse que precisávamos nos ver com urgência, pois tinha algo a me comunicar. Dirigi-me alegre à nossa cafeteria, era um encontro inesperado. Beijou-me as mãos, depois a têmpora, e se sentou à minha frente.
Nobu tinha morrido. Tinha se sentido mal no mês anterior mas não me contou porque sabia da minha fraqueza por ele e quis evitar meu sofrimento. Tivera um período difícil e a doença piorara. Não comia, tinha emagrecido muito e as dores abdominais haviam se tornado insuportáveis.
“Foi internado mas não respondeu ao tratamento. Apareceram outras complicações e…” quando eu não estava mais prestando atenção àquilo que dizia, outra notícia me convocou de volta “… e eu estou com câncer pancreático. Nem isso eu consegui te contar a tempo. Amanhã serei internado, e depois de amanhã vou passar por uma cirurgia. É bem grave, Luana.”
Durante alguns dias não comi e acabei emagrecendo também. Aguardava notícias que não vinham. Tomei coragem certa madrugada, esgueirei-me pela porta de pijama, entrei no carro e, depois de tantos anos, dirigi-me ao templo. No seu quarto do térreo, a cama estava vazia. Continuava no hospital.
Desacorrentei Taro, que não me seguiu, e foi para o bosque. Estava livre. Olhei por um tempo para ele enquanto se distanciava, virei-me e fui para trás, para o cemitério. Ao lado da pedra de Toshi-San, luzia, com a urna do lado, a de Nobu. Nas plaquinhas de madeira recente, seu novo nome agora era O manso e incompreendido. Fiz uma reverência, sentei-me junto a eles e fumamos os três, em silêncio.
*
Não se houviam mais as encantações. O ritual teria terminado? Abri os olhos. Ouvi um barulho surdo, seguido pela voz de Maru dizendo a todos que, em aproximadamente vinte minutos, podiam se dirigir ao templo, no cemitério. Fui tomada por um calor ao ouvir sua voz, percebi o quanto parecia com a dele. Duraria ainda algum tempo, de modo que desliguei o motor e me ajeitei dentro do carro.
*
“Isso só pode ser um sinal, Luana, um sinal para eu divorciar e ficar junto com você. O universo me deu mais uma chance!”, disse-me ele depois da operação exitosa. Não concordei. Assim como dissera ele uma vez sobre mim, eu também achava que, sem o templo, ele se extinguiria. “Quem me faz feliz não é o templo, é você”, dizia ele. Ao longo dos anos, sempre me dizia quão jovem se sentia na minha companhia, como o alegra e o revigora o meu jeito de ser livre e espontâneo. E eu acreditava nele. Percebia isso sempre que participava das minhas loucuras. Quando tirou a roupa sem hesitar e se atirou às ondas entre as quais eu o esperava nua, ou quando se deixou puxar pela gravata para dentro do banheiro feminino e fizemos sexo enquanto à porta batia uma senhora impaciente.
Apesar de tudo isso, eu não era capaz de vê-lo feliz fora do templo, não era capaz de vê-lo fazendo outra coisa. De modo que, pela segunda vez, não concordei com o divórcio.
*
Ouvi algumas vozes e depois um som de portas de carro batendo. Abri os olhos. O pessoal estava indo embora. Fiquei até que se instalasse um silêncio completo e, sem mais esperar a mensagem de Maru assim como havíamos combinado, dirigi-me à pequenina capela. Passei do crematório e, ao cheiro recente de queimado, na medida que me aproximava da porta entreaberta da capela, minhas pernas enfraqueceram e meus joelhos começaram a tremer. De novo senti ânsia de vômito, estado que vinha me acompanhando continuamente nas últimas semanas. Minha cabeça começou a latejar e senti uma dor pungente no peito. Morreu! Só agora parecia real. Tentei dar mais alguns passos mas meus pés resistiram até se fundirem ao cascalho em que pisavam. Engoli a seco algumas vezes, para escapar do nó na garganta que me sufocava. As lágrimas me impediam de enxergar o que estava à frente. Um zunido ressoava nas minhas têmporas e uma tontura me invadiu. Morreu! Agarrei a cabeça com as mãos e apertei com força meus dedos entre os cabelos. Não estava suportando.
Decidi voltar ao carro, quando, pela fresta da porta “…nou-maku-san-man-da-a-baza-ra-dan…” pairou sussurrante na minha direção, pelo ar morno. Uma corrente permeou meu corpo e avancei como se hipnotizada. Entrei e não sei o que me fez fechar a porta atrás de mim. O espaço estava escuro e o ar, gelado. Lá em cima, numa das paredes de pedra, havia uma única janela, ou melhor, uma clarabóia. Mas nem ela ajudava muito e eu ainda tentava identificar alguma coisa na penumbra. Não se podia ver nada. “…sen-da-a-ma-a-ka-ro-shya-a-ta-a-sowa-taya…” Deixei-me conduzir até o fundo pelo murmúrio daquela voz. Quando senti nas narinas o cheiro de bastões de incenso misturado com um outro cheiro, forte, de orquídea negra, meu coração parou de bater.
Poucos passos à minha frente, uma silhueta estava justamente se virando para mim. À luz azul da tela que ele segurava na mão, sua cabeça luzia recém-raspada. A aparição usava óculos de armação dourada e a luz se detinha na base do pescoço coberto até o queixo com helan… “Estava justamente te mandando uma mensa…”, tentou dizer, mas era tarde. Pulei no pescoço dele e beijei-lhe freneticamente a boca, a face, os olhos. “Luana, sou o Maru, vamos… olha, espera um pouco, sou o Ma…” “Não diga mais nada, por favor, não diga mais nada, cale-se”, disse-lhe eu e, em poucos instantes, seu corpo já não resistia, e sua boca respondia a meu beijo. Quando me apertou mais forte em seus braços e aderiu ardente a mim, despertei como se de um sonho e me desprendi dele. Distanciei-me um pouco e o fitei, petrificada: era idêntico!
Deu um sorriso embaraçado e passou a mão pela cabeça raspada. Em seguida a levou para baixo e ouvi um farfalhar ao encostar no bolso. Como se então lembrasse, tirou dele um saquinho preto opaco. Pegou-me uma mão, acariciou a palma e o colocou nela.
“A promessa de vocês”, sussurrou, com um nó na garganta. “O pincel está em cima da mesa no templo, junto com uma carta e acho que você pode ir buscar sozinha”, esboçou um sorriso malicioso, sem conseguir. Deu-me um abraço: “Senti tanto ciúme de você!”
*
Estacionei do lado da árvore na qual, outrora, apoiava minha bicicleta. Por instinto, procurei a corrente grossa. Não estava lá. Taro também não. Jamais voltou.
O templo tinha um ar cinzento, como o céu daquela noite. O telhado agora estava muito mais vermelho-escuro. Caminhei por entre as estatuetas. Não mais pareciam ser mágicas, todas tinham um aspecto triste. Junto ao grande vaso diante do templo, detive-me e bati três vezes, com força, com a palma das mãos. Inclinei a cabeça e dei alguns passos. As portas imensas, de vidro, estavam plenamente abertas, como sempre.
As pilastras grandes e vermelhas não brilhavam mais ao sol. Erguiam-se, porém, à luz sideral, ainda grandiosas e aparentemente orgulhosas da tinta descascada nas espirais. Imprimiam um ar gótico ao ambiente. Passei ao lado delas, entrei e acendi no pequeno vaso de pedra, junto ao pedestal de madeira, dois bastões de incenso. Senti a presença dele e inspirei ávida a fumaça e o perfume.
Dirigi o olhar para a mesa grande da esquerda. Assim como me dissera Maru algumas horas antes, em cima dela se encontrava um rolo de couro fino e amarronzado. Do lado, um envelope amarelo-dourado, amarrado com uma linha laranja. Nele, escrito em vermelho, o meu nome. Abri-o ali mesmo.
“Minha amada, itsumademo.”
Embora houvesse adiado o momento o máximo possível, dirigi-me ao cemitério. O ritmo do meu coração acelerava a cada passo. De modo estranho, além da tristeza, despontava um estado de alegria diante da idéia de que haveria de encontrá-lo. Apertei o passo. Apertava na mão sua última relíquia.
Junto à pedra funerária, nas plaquinhas novas de madeira, Maru não trocara o nome dele. Estava recém-escrito: Shouken – Aquele que enxerga direito e claro.
Sua urna estava entre Toshi-San e Nobu. Alguns arrepios sacudiram meu corpo.
Depois da costumeira reverência, sentei-me e tirei um cigarro do maço.
“É o último”, disse-lhes eu, “vou deixar de fumar” e ofereci às urnas o resto do maço. “Vamos fumar jun…”, meu olhar caiu sobre o rolo de couro ao meu lado. Abri-o, o pincel caiu junto com um lápis, com um ruído seco, e eu agarrei no ar um bilhetinho:
“Querida Luana,
Checklist:
nosso perfume – tique;
cabeça raspada – tique;
helanca preta – tique.
P.S.: Quem é mais psicopata agora?”
Dei uma risada gostosa por vários minutos. Tinha de reconhecer que passara a perna em mim. Mas ainda não vencera. Tirei o pedaço de osso do saquinho e o esfreguei entre os dedos. Um pedacinho dele? Coloquei a mão sobre o ventre. “Então?” perguntei à urna, dando risada de novo. Não me respondeu.
Levei o pedaço de osso aos lábios e o beijei. Depois o apertei contra a barriga.
Engoli as lágrimas e fumei sozinha.
[1] Estrangeiro.
[2] Cemitério budista.
[3] Pedras funerárias.
[4] Caucasiano.
[5] Abreviatura de costume play.
[6] Fábrica japonesa de automóveis.
[7] Para sempre.
Laetitia Magheru
Laetitia Magheru, 45 anos, é jornalista e vive no Japão há 24 anos. Por intermédio do marido, nascido em São Paulo, aproximou-se da cultura brasileira. Entre suas leituras, destacam-se autores clássicos da literatura universal e, entre os contemporâneos, Conceição Evaristo, Ioana Nicolae, Răzvan Petrescu e Haruki Murakami. Em sua escrita, interessa-se pelas zonas obscuras da experiência humana e pelas tensões entre sombra e lucidez.
Fernando Klabin
Fernando Klabin. Nascido em São Paulo numa família de origens russa e italiana, e formado em Ciências Políticas pela Universidade de Bucareste. Fernando tem traduzido para o português, nos últimos quinze anos, obras do inglês, alemão e romeno. Além de tradutor, é ator, guia turístico especializado em Romênia, escritor e artista plástico.