A gama de metáforas para se referir às cidades é bastante extensa. Na sociologia urbana, a ideia de mosaico foi utilizada pela Escola de Chicago para, a partir de pequenos fragmentos de vidro colorido justapostos, caracterizar padrões territoriais de segregação entre os bairros da cidade, marcados por relações étnicas distintas. Robert Park afirma que a cidade é “um mosaico de pequenos mundos que se tocam, mas não se interpenetram”. Outras imagens semelhantes são empregadas para indicar que cidades são formadas por recortes e padrões que conformam o espaço urbano — caleidoscópio e quebra-cabeça se somam às artes decorativas do mosaico. Mas também é possível encontrar analogias entre as cidades e os labirintos, as máquinas e os organismos vivos.
Estêvão Machado recorre a algumas dessas imagens para construir “Perspectivas da escarpa”, poemário publicado em 2025 pela Editora Urutau. Pernambucano, o poeta se detém, a princípio, em Recife, na primeira parte chamada “…Perspectivas da escarpa”, para em seguida abordar outras cidades e experiências urbanas, na seção intitulada “… De outras paragens”.
Cantar o Recife é, de certo modo, lamentar o mosaico de desigualdades e abismos que a cidade se tornou. Com tom político e crítico, o autor reflete sobre os cacos históricos e estruturais que informam sua experiência na região: “não são singelos, são rudes os seus enredos”. Viver a cidade é testemunhar sacrifícios e apagamentos, mas também intervir nesse lugar-texto, que se oferece à leitura, mas que está sujeito à reescritura.
Nesses poemas, as cidades não se restringem a espaços onde ocorrem os encontros – são como entidades com quem o eu poético se relaciona. Organismos que inspiram afetos e embates, que estimulam a imaginação. Hostil a fronteiras geográficas e semânticas, o eu poético se permite reinterpretar as estruturas, as histórias e as mitologias de diferentes cidades, compondo uma espécie de atlas pessoal e idiossincrático. É como se as urbes revelassem diferentes facetas a depender de quem as percorre ou habita. Nesse sentido, pouco importaria o tombamento, já que fachadas “refazem seus gritos/no silêncio crucial dos seus hiatos”
Estêvão Machado
Estêvão Machado (1979) é recifense. Publicou os livros de poemas : o liceu das vozes (2023), perspectivas da escarpa (2025) – ambos pela Editora Urutau. Colaborou em periódicos literários como a revista Sucuru, Ruído Manifesto, Navalhista. Em 2013, ganhou menção honrosa no Concurso Nacional de Novos Poetas da editora Vivara, com o poema outras primaveras. Participou de antologias poéticas como o Conexões Atlânticas (2018) em Portugal com poetas de países lusófonos e foi finalista na categoria “poesia” da Antologia do selo Off-Flip (2022).