A conservação e difusão dopatrimônio imaterial da África Njeddo Dewal é uma aventura fantástica, clássico da tradição oral africana, e se torna agora parte da biblioteca viva dos leitores de língua portuguesa.
Njeddo Dewal, mãe da calamidade, é um dos textos mais marcantes da tradição oral fula, preservado por Amadou Hampâté Bâ e agora disponível ao leitor brasileiro. Neste jantol — tipo de narrativa muito longa, com personagens humanos ou fantásticos, de vocação didática ou iniciática — o mito se transforma em guia de vida, encenando a luta entre o bem e o mal, ou seja, entre a voz de Guéno e a força sombria de Njeddo Dewal, a feiticeira que espalha miséria e desventura. Mais que uma história fantástica, é um espelho da condição humana: cada desafio
vivido pelos personagens reflete os dilemas internos de quem se deixa atravessar pela narrativa.
A genealogia mítica, texto escrito pelo próprio Hampâté Bâ que antecede o conto, situa o leitor sobre as forças primordiais que se bifurcam em tendências opostas: o Velho, da linhagem do
bem, e a Velhinha grisalha, que gera a descendência da miséria e da animosidade. Essa cosmogonia estabelece o pano de fundo de Njeddo Dewal, onde o povo fula, outrora abençoado num paraíso de abundância, precisa enfrentar o peso da ingratidão e a fúria divina que se encarna na feiticeira. A obra convida o
leitor a revisitar as próprias origens, a reconhecer o mal dentro de si e a buscar, como Bâgoumâwel, a coragem e a sabedoria que permitem resistir.
Mas o alcance de Njeddo Dewal vai além da narrativa. Ele
sintetiza o grande projeto de Hampâté Bâ: conservar e difundir o patrimônio imaterial da África, resgatando a oralidade como fonte de conhecimento e filosofia.
Sobre o autor e a tradutora
AMADOU HAMPÂTÉ BÂ é escritor, etnólogo e pensador. Pertence à primeira geração de autores francófonos africanos. Nascido em 1901 no Sudão Francês (atual Mali), viveu quase um século e se tornou um dos mais renomados intelectuais do continente. Atuou no Institut Français de l’Afrique Noire, onde iniciou pesquisas sistemáticas, e na UNESCO, defendendo a
valorização das línguas e culturas africanas, e sobretudo a preservação das tradições orais — as “bibliotecas vivas” ameaçadas de extinção. Sua célebre frase, “Na África, um velho que morre é uma biblioteca que pega fogo”, ecoa como síntese de sua obra e de sua militância.
Premiado e traduzido em diversos idiomas, Hampâté Bâ ainda é pouco conhecido no Brasil. Com esta edição de Njeddo Dewal, mãe da calamidade, abre-se uma porta inédita para um universo simbólico e espiritual que constitui uma das bases da cultura africana. Mais que literatura, o livro é um testemunho da riqueza das tradições orais do Sahel e um convite a repensar as formas de transmissão de saberes, de valores e de fé.
FERNANDA MURAD MACHADO é professora na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz
de Fora (UFJF) e pesquisadora com atuação destacada em literaturas africanas francófonas, literatura francesa, tradução e história cultural da África nos séculos XIX e XX. Formou-se em Letras Modernas pela Université Paris-Sorbonne (2003); fez mestrado em Literatura e Língua Francesas pela mesma instituição (2005); e concluiu o doutorado em Literatura e Civilização Francesas (2010), também pela Sorbonne. Seus temas de pesquisa incluem a oralidade africana, relações entre escritor e leitor, representação feminina na literatura francófona africana, identidades culturais, memória histórica e tradução. É autora de L’univers fabuleux d’Amadou Hampâté Bâ. D’une relation singulière entre l’écrivain et son lecteur
(PUPS–Sorbonne, 2015).
Trechos do livro “Conto, conto, quero contar um conto!
Deixem-me deitar de costas e fazer pantal mergulhar na palavra e nadar em grandes braçadas.
Nadarei nela, e meus pés batendo na água farão puntupanta. O que vou dizer é mais maravilhoso que um sonho!
Porém, não são futilidades,
é a língua que faz eclodir a palavra!
Não é a esperteza que aciona minha língua, ela tilinta mais claramente que o sino real,
mostra melhor o caminho que um guia sensato.
Minha palavra interessará a todos os dotados de inteligência, a todos aqueles que meditam e refletem.
Esse conto é um conto másculo.
Às vezes, ao ouvi-lo, alguns são acometidos pela febre…”
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“No país mítico de Heli e Yoyo, onde se ignorava o que era passar uma noite sem jantar.
Nesse país não faltava nada: riqueza, gado ou cereais, encontrava-se tudo em abundância.
[…] Nesse país abençoado onde a morte era rara e os conhecedores numerosos, a pobreza era coisa desconhecida. Aquele que possuía apenas dois rebanhos inspirava piedade, era
considerado miserável. Em Heli e Yoyo, só os gafanhotos vinham nos campos procurar
sobras após a colheita. Assim era o país onde os Fulas viviam ricos e felizes!
[…] O que aconteceu?, perguntavam umas às outras. Elas não sabiam que Guéno acabara de decretar seu castigo e que Njeddo Dewal, mãe da calamidade, era o agente da execução.
Esses acontecimentos extraordinários chegaram aos ouvidos do rei de Heli que, por sua vez, informou seu povo. Todos foram a Yoyo, a capital onde o grande rei residia. Este convocou os 22 silatiguis e os 56 grandes pastores do país. Pediu-lhes que traçassem temas geomânticos e os interpretassem para entender o significado desses fenômenos estranhos. Depois de terem exercido sua arte, os silatiguis concluíram que uma grande desgraça ia se abater sobre o país de Heli e Yoyo.”
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“Wâm’ndé, atônita e um pouco assustada, exclamou: ‘Ó voz de bom agouro, a quem pertence?
Onde está seu mestre?’.
A voz respondeu: ‘Meu mestre está em seu ventre. Pertenço à criança que você carrega
nas entranhas’. E a voz acrescentou:
‘Me dê à luz imediatamente, para que eu possa voar em socorro de meus tios. Faça isso,
faça rápido, pois mais tarde tudo estará perdido!’
‘Ó bebê milagroso!’, exclamou Wâm’ndé. ‘Uma criança no ventre de sua mãe que sabe
dizer Mamãe, me dê à luz certamente é capaz de se dar à luz sozinha!’
‘Não seja por isso’, respondeu a criança maravilhosa. ‘Segure-se bem, vou sair!’
Obediente como uma aluna dócil, Wâm’ndé colocou-se na posição das parturientes. Como
se tivesse sido ejetada por uma mola, a criança surgiu de seu corpo e saltou em uma grande
cabaça cheia de água que se encontrava perto dali. Lavou-se sacudindo-se como um pato.
Depois, ao sair da água, disse:
‘Mãe, agora tenho que partir. Deseje-me boa viagem, mas antes me dê um nome.’
‘Você se chama Bâgoumâwel’, disse Wâm’ndé, ‘e seu apelido é Gaël-Wâlo, o jovem Bezerro da zona inundada.’
Então desejou-lhe boa viagem e lhe deu a bênção.”