Vidas de meninas e mulheres, único romance de Alice Munro, chega ao leitor brasileiro em edição da Biblioteca Azul, com tradução de Pedro Sette-Câmara, reafirmando a singularidade de uma autora consagrada sobretudo como mestra da narrativa breve. Publicado originalmente em 1971, o livro ocupa um lugar peculiar em sua obra: é, como a própria Munro afirmou, “autobiográfico na forma, mas não nos fatos”, um romance que se constrói a partir da lógica da memória e da observação minuciosa da vida cotidiana.

A narrativa acompanha o processo de amadurecimento de Del Jordan, que cresce em uma pequena cidade rural do Canadá durante a década de 1940. A infância passada na fazenda de raposas do pai, em um ambiente de relativo isolamento, dá lugar a uma progressiva abertura para o mundo social — especialmente para o universo feminino que a cerca. O romance se organiza menos como uma trama linear e mais como uma sucessão de episódios interligados, nos quais Del aprende a ler os gestos, as contradições e os silêncios das mulheres que moldam sua formação.

Entre essas figuras, destaca-se a mãe de Del, vendedora de enciclopédias, mulher de opiniões firmes, agnóstica e intelectualmente inquieta, cuja postura desafia os valores conservadores da comunidade. Ao lado dela surgem personagens igualmente marcantes: Fern Dougherty, sensual e instável, que introduz Del a uma dimensão mais ambígua do desejo e da vulnerabilidade; e Naomi, a amiga adolescente com quem compartilha descobertas, medos e expectativas. Munro constrói essas relações com extrema delicadeza, evitando julgamentos fáceis e revelando como cada encontro deixa marcas duradouras.

O grande mérito de Vidas de meninas e mulheres está na forma como Munro transforma experiências aparentemente banais — conversas domésticas, tensões familiares, rumores de cidade pequena — em matéria literária densa. O romance trata do despertar sexual, do confronto com o corpo, da percepção da morte e do nascimento, mas o faz sem dramatizações excessivas. A escrita é contida, precisa, atenta às nuances, revelando o quanto o amadurecimento feminino é atravessado tanto por pequenas epifanias quanto por frustrações silenciosas.

Embora seja seu único romance, o livro já antecipa plenamente as qualidades que consagrariam Munro: a atenção às vidas comuns, a complexidade psicológica de suas personagens e a capacidade de iluminar o “lado belo e sombrio” da experiência de se tornar mulher. Vidas de meninas e mulheres é, assim, menos um desvio em sua trajetória do que uma chave de leitura para toda a sua obra — um livro que demonstra como a formação de uma consciência feminina pode ser narrada com rigor literário, empatia e profundidade rara.

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