Há livros que recontam a história. Outros a desenterram. Teatro Experimental do Negro: histórias, críticas e outros dramas, de Guilherme Diniz, pertence a essa segunda categoria: não apenas revisita o passado, mas reabre seus arquivos, confronta suas versões oficiais e recoloca no centro da cena um dos movimentos mais decisivos do teatro brasileiro moderno — o Teatro Experimental do Negro.
Com prefácio de Leda Maria Martins, o livro assume desde as primeiras páginas uma postura crítica diante das narrativas consagradas. O TEN não é apresentado como apêndice ou curiosidade histórica, mas como força estética e política que tensionou as estruturas do teatro nacional. Diniz examina o projeto dramatúrgico do grupo em suas rupturas formais, suas invenções cênicas e, sobretudo, em sua dimensão insurgente contra as violências raciais que estruturam o país.
O que torna a obra especialmente potente é seu rigor metodológico. Amparado por extensa pesquisa bibliográfica e trabalho minucioso em arquivos, o autor reconstrói não apenas as produções do TEN, mas também o modo como foram recebidas — ou distorcidas — pela crítica teatral da época. As resenhas, artigos e debates são analisados como documentos ideológicos, revelando as lentes raciais e os limites de um campo cultural que frequentemente tentou enquadrar, reduzir ou silenciar a radicalidade do grupo.
Ao confrontar essa “fortuna crítica”, Diniz realiza um gesto duplo: revisa a história e expõe os mecanismos de apagamento que operaram na consolidação de certas historiografias dominantes. O livro, assim, não é apenas sobre teatro; é sobre poder simbólico, sobre quem escreve a memória cultural e sob quais critérios.
A escrita equilibra densidade acadêmica e pulsação política. Não se trata de celebração acrítica, mas de análise rigorosa que reconhece o TEN como laboratório de linguagem e espaço de autoinscrição negra na cena brasileira. O título é preciso: há histórias, há críticas — e há outros dramas, aqueles que atravessam os palcos e se inscrevem nas disputas por reconhecimento.
Fruto da pesquisa de mestrado de Guilherme Diniz — pesquisador com trajetória sólida nos estudos de dramaturgias negras e atuação em crítica teatral — este livro de estreia já nasce como referência. Com edição cuidadosa, projeto gráfico consistente e quase 500 páginas de investigação, a obra se impõe como contribuição indispensável aos estudos teatrais e às discussões sobre memória cultural no Brasil.
Para além do campo acadêmico, Teatro Experimental do Negro: histórias, críticas e outros dramas é um chamado à revisão. Ele nos lembra que a história do teatro brasileiro não pode ser contada sem reconhecer a centralidade das experiências negras que a transformaram. Ao devolver o TEN ao lugar que lhe cabe, o livro não apenas ilumina o passado — ele amplia o horizonte do presente.