Três anos após a morte de Jean-Luc Godard (1920-2022), a sua revolução cinematográfica não caiu no esquecimento – e talvez nunca cairá. Mais do que o “pai da Nouvelle Vague”, Godard se consagrou como o seu mais radical autor, alguém que explorou como poucos a linguagem cinematográfica e a utilizou para diagnosticar os mal-estares do século XX. Seu legado não se resume a uma filmografia, mas a um método crítico e materialista de desvendar a realidade através da câmera.
Quando em 1966 resolveu gravar Masculino-Feminino, o francês já tinha seu nome marcado dentro da sétima arte. Após as inovações técnicas no começo da nova onda francesa, como os jump cuts, o diretor já buscava um afastamento das narrativas lineares para mergulhar em uma linguagem mais fragmentada e, por sua vez, mais complexa e densa em relação à sociedade da época. Daí surgiram obras como “O Desprezo” (1963), “Alphaville” (1965) e “O Demônio das Onze Horas” (1965) e, por sua vez, Masculino-Feminino (1966).
O filme realiza uma operação antropofágica dos contos Le Signe e La femme de Paul de Guy de Maupassant. Para além de uma mera adaptação, Godard transpõe as obras de Maupassant em um manifesto sobre a França dos anos 1960. A trama acompanha o jovem idealista Paul (Jean-Pierre Léaud, alter-ego da Nouvelle Vague) em sua paixão pela aspirante a cantora pop Madeleine (Chantal Goya) e, posteriormente, também pela jovem Catherine. É sobre esse contexto que o diretor vai se aprofundar tecendo um de seus mais belos ensaios fílmicos.
Aqui, a observação sobre a mescla de ficção e documentário é crucial para uma boa análise, mas pode ser aprofundada: Godard não “mistura” gêneros, mas sim os colide. A câmera, inquieta e sempre na mão, se comporta como em uma grande reportagem, entrevistando personagens reais em cenas de ficção, capturando cartazes publicitários como se fossem personagens e tratando a Guerra do Vietnã não como pano de fundo, mas como uma presença fantasmagórica que tem grande repercussão para os jovens rebeldes parisienses.
“As crianças de Marx e da Coca-Cola”
A famosa epígrafe – “As crianças de Marx e da Coca-Cola” – não é um slogan, mas a tese central do filme, representando muito bem o conflito da juventude francesa dos anos 1960. De uma lado, a presença de Marx se mostra como um impulso revolucionário desses jovens. A herança intelectual tão buscada, a crítica do sistema vigente tão opressor e tão desigual. Paul é o grande exemplo dessa juventude engajada. Sempre buscando alicerce intelectual, ele é a representação do homem moderno que quer mudar o mundo.
Por outro lado, a Coca Cola se apresenta como símbolo máximo do imperialismo cultural e social. É o distintivo do consumismo, da cultura de massa e da superficialidade dos desejos. Seu valor não está no conteúdo da embalagem, mas sim no valor simbólico da imagem do produto. No longa, a personagem de Madeleine sintetiza bem essa ideia da Coca-Cola. Não apenas por ser uma cantora de iê-iê-iê, mas por ter esse desejo de fama, o culto à imagem e, por sua vez, um afastamento das visões críticas da sociedade.
É importante ressaltar que Godard não trata Marx e a Coca Cola como opostos. As crianças não são de um ou de outro, mas sim dos dois, enfatizando mais ainda a origem dessa crítica. A geração pré Maio de 68 não escolhe um lado, mas sim vive essa polarização e tensão entre os dois, gerando uma grande contradição. São jovens que consomem a cultura massificada enquanto discutem sobre o socialismo, flertam com a revolução, mas não desapegam-se dos confortos materiais. É a crítica ao sistema capitalista, mas com o sonho de sucesso individual.
Mas essa crítica pode servir para o próprio Godard. Ora, como seria possível uma crítica isenta de contradições, sendo proferida dentro de um filme, ou seja, um produto extremamente caro, elitizado e submisso ao capitalismo?
A realidade é que o diretor percebeu ao longo do tempo como sua arte vinha perdendo o seu valor crítico. Mesmo sendo um dos fundadores de um dos movimentos mais radicais dentro do cinema, sua obra continua sendo um produto da indústria. E, ao longo dos anos, as inovações ‘revolucionárias’ trazidas pela nouvelle vague perderam a originalidade e viraram ferramentas estilísticas presentes em publicidades, por exemplo. E sendo absorvidas e tendo seu valor revolucionário completamente esvaziado.
Essa autocrítica é passada como uma espécie de “honestidade autoral” dentro do filme. Nas cenas de Madeleine, símbolo da geração Coca Cola, Godard utiliza de diversos mecanismos linguísticos que de certa forma exaltam a personagem ao invés de criticá-la, além da trilha sonora que explora o iê-iê-iê, se aproveitando da cultura massificada e cedendo ao imperialismo.
E é aí que a Coca Cola se encontra com Marx. Godard sabe dos males do imperialismo, ele despreza a “coca cola”, mas reconhece que faz parte de uma macroestrutura e está no meio de todo esse movimento.
O vazio das relações
Masculino-Feminino é uma obra profética, antecipa o Maio de 68, transparece toda aquela inquietação política dos jovens, e é dessa forma que aparecem os conflitos de gênero. O tal “vazio das relações” não se mostra por acidente, mas é, no cerne, um dos temas centrais do filme. Muito disso ocorre pela dificuldade de comunicação, explorada por Godard, como algo da diferença de gênero. Como se o homem não fosse capaz de entender a mulher, e vice e versa. A diferença entre “Marx” e a “Coca Cola” aparece novamente. Paul, com todo seu ar intelectual, espera de Madeleine uma conexão autêntica, uma união de almas, enquanto Madeleine não coloca todos esses adereços idealizados em Paul. Ela tem uma atração apenas superficial por ele.
Em última análise, o longa transcende muito além de sua simples condição de filme para um instrumento de estudo da realidade parisiense dos anos 1960. Uma obra que consegue captar a tensão entre o desejo de autenticidade política e a hipnose do consumo. Uma condição paradoxal presente no indivíduo moderno ocidental dos dias de hoje.
Já a incomunicabilidade entre Paul e Madeleine é uma metáfora que ilustra muito bem essa situação. Para além da desilusão amorosa, do fracasso romântico, é o sintoma máximo da desfiguração da linguagem. Os signos de consumo se tornaram uma barreira intransponível para o diálogo genuíno.
Mesmo após a morte de seu diretor e quase seis décadas de seu lançamento, Masculino-Feminino segue como um espelho do nosso tempo. Com ele, nos resta desvendarmos pistas para uma das perguntas centrais do filme: como existir criticamente dentro do espetáculo?
Rodrigo Matias
Estudante de jornalismo na Universidade Estadual Paulista (UNESP). Tem interesse pelas artes, principalmente o cinema e a música.