Descobri sua obra adentrando, espeleólogo, a observar o vão entre estalactites e estalagmites, uma nova sintaxe, o enviesado das tramas, um idioma mesmo dentro do português exaurido em possibilidades até o limite da exaustão do uso e abuso. Comecei logo por “Os Cus de Judas”, que esfarinhou de manuseio, mas me recordo das cenas pungentes no atoleiro salazarista em Angola.
O Lobo nasceu e cresceu sob o obscurantismo do regime cinzento das contas ‘a pagar e os ritos medievais’; soube transcender com bravura demiúrgica da ressignificação ingente de fatos, murmúrios, minudências ou idiossincrasias do luto constante sob nuvens mortiças.
Não estranhei de chofre seu fraseado, espantei-me com o esmero quase natural de torneio narrativo, além da implosão linear, as dobradiças expostas e a consecução exitosa dos alinhavos executados sem aresta no aluvião de epifanias sequestradas da vivência de quem compõe ‘neurologicamente’.
Nada natural na sua escrita, eivado de suposições, redundâncias provocativas, equivalências suprareais, miasmas de causalidades, jogo sobre jogo. Antunes nos mobiliza a encontrar até método único e intransferível de leitura.
Diz-nos mestre Barthes:
“Mais uma vez o signo é ambíguo: conserva-se à superfície, mas nem por isso renuncia a ser captado em sua profundidade; quer fazer compreender (o que está certo), mas tanto se oferece simultaneamente como espontâneo (o que é falso) quanto se declara intencional e irreprimível, artificial e natural, produzido e encontrado. Isto pode levar-nos a uma moral do signo. O signo só deveria ser apresentado sob duas formas extremas: francamente intelectual, reduzido a uma álgebra — como no teatro chinês, no qual uma bandeira significa a totalidade do regimento —, ou profundamente enraizado, de algum modo inventado a cada passo, descobrindo uma face interna e secreta, signo de um momento, não de um conceito…”
(“Mitologias”)
Como Humboldt no seu “Cosmos”, Lobo Antunes nos pretendia inventariar a gênese e o desenvolvimento dos sentimentos acasalados com a feição múltipla das coisas.
“Saíram de Lisboa atrás de uma longa fila de camionetas militares, pejadas de soldados de rostos agudos, inquietos, de pássaros. Pensa: Não me apetece puto ir ao congresso, quero bem que o século XIX se lixe. Pensa: Nem tu sonhas o discurso de despedida que te vou engrolar amanhã ou depois, as frases bonitas, teatrais, os silêncios repletos de subentendidos subtis, os gestos estudados, e tu de pé, estupefacta, no quarto de hotel, entre malas, a olhar-me…”
(“Explicação dos pássaros”)
Gasta-me todas as canetas, belamente de tom fosforescente, a sublinhar pontos altos da geologia do velho Lobo, calcar as depressões de terreno na passagem de atmosferas, as reentrâncias de suas ambiências, seu desespero de Tintoretto em dar cor aos meandros de enunciados emergentes, magma recém-moldado e inscrito.
“Gosto das tuas nádegas caídas, gosto das tuas coxas, gosto dos ombros pendentes, das clavículas em assento circunflexo; o vapor de água saía da casa de banho em rolos esbranquiçados e tênues que o espelho do armário em frente devolvia; tinhas corrido a cortina de plástico e posto uma touca transparente na cabeça; distinguia-te o vulto, curvado, a ensaboar as pernas; vou penetrar-te por detrás, rasgar-te a vulva, dobrar-te os rins (atônitos) no esmalte da banheira, ergueu-se nos membros traseiros num sopro furioso…”
(“Explicação dos pássaros”)
A experiência da escrita não como código, mas como fluxo. Os interstícios, as fronteiras de entendimento.
Leio Lobo exercendo a coleção de intensidades, buscas desdobráveis, “curtição da linguagem”, militante do gozo, fruição exacerbada. Talvez só Carson McCullers tenha provocado tanto!
Não tem como fugir da constatação de Deleuze (“Conversações”) sobre o passamento de Antunes:
“cada vez que morre um grande pensador, os imbecis sentem-se aliviados e fazem um estardalhaço dos infernos”.
A “literatura fofa” dominou o mundo editorial lusitano com apetrechos engenhosos de fisgar platitudes embaladas em confortáveis insights.
Saúdo-te, grato, mestre Lobo: teus reflexos, cintilações, fulgores, a indiscernibilidade sem coerção.
“não podia fazer barulho que assustava os peixes, não podia tirar o chapéu de palha que adoecia do sol, não podia andar ao pé coxinho, só a tocar as pedras petras (…), o esgoto avançava pelo Tejo entre palhas e tábuas, um homem apanhava pedaços de garrafa e entornava-os num saco, as ondas traziam uma boina, o cadáver de um galo e um cesto de verga, tudo sem interesse algum, monótono, compridíssimo…”
Ah! a denúncia do funcionalismo ficcional, ah! o naufrágio das eficiências romantizáveis.
Não mimetizar Lobo Antunes cabe aos que o admiravam: fazer outra coisa em literatura, até mesmo sem saber o que se produz, o que se faz — porque nunca sabemos o que escrevemos, como dizia o genial torcedor do Benfica.
“e, sublinhando esta frase, uma pilha torta de minutos acumulados juntamente com a indicação da semana, uma página inteira de eternidades minúsculas em cima do micro-ondas; eu, que nunca entendi a inconstância do tempo, umas vezes tão rápido, outras compridíssimo; vincos de expressão, celulite, estrias, varizes; não o contar por anos, contá-lo por idas ao dentista, a menstruação que começa a faltar, como permanecer atrativa a partir dos cinquenta, maturidade, a verdadeira plenitude da mulher…”
(“Exortação aos crocodilos”)
Depois de ler — e vamos reler — Lobo Antunes, como tudo parece pequeno olhando aos lados as nenhuma novidades de perfuração do mundo.
“a casa sem a flor afigurou-se um armazém de sobejos…”
“— É por não restar nada que fico nesta casa; é por não restar absolutamente nada de nós que não me vou embora.”
(“Exortação aos crocodilos”)
Flávio Viegas Amoreira
Escritor, poeta e jornalista, nasceu em Santos, em 1965, mora em São Paulo atuando como agitador cultural pela capital paulista, Litoral e Rio de Janeiro. Considerado um dos mais inquietos escritores da "Novíssima Literatura Brasileira", já lançou 12 livros entre contos, poesia e romance: Maralto (2002); A Biblioteca Submergida (2003); Contogramas (2004); Escorbuto, Cantos da Costa (2005), Edoardo, o Ele de Nós (2007), todos editados pela 7 Letras Editora - Rio de Janeiro; além de livros publicados por editoras paulistas, antologias internacionais até ser incluído na denominada "Geração Zero Zero", reunião de contistas considerados mais representativos da primeira década do século XXI no Brasil, antologia organizada pelo prestigiado crítico literário Luiz Brás e editado pela "Língua Geral", em 2011. O escritor é crítico de cinema, curador de artes plásticas e colaborador com crônicas e ensaios para jornais brasileiros e sites, revistas literárias e publicações estrangeiras. Ligado à música e às artes visuais, já teve vários textos encenados em monólogos e adaptações teatrais. Tem constante atividade nos meios digitais, com importante atuação em sites, blogs e redes sociais com literatura digital e criação online de textos. Contato: [email protected]