Enquanto houver arco-íris, de Walter Neves, é um livro que nasce da urgência — e permanece pela delicadeza. Mais do que um relato sobre a epidemia de AIDS, trata-se de uma história de amor atravessada pela ciência, pela militância e pela sobrevivência em condições extremas.
A narrativa acompanha dois homens que, em meio aos anos mais duros da crise do HIV, recusam a resignação. Quando um deles recebe o diagnóstico, a resposta não é apenas emocional, mas também intelectual: a formação científica do companheiro se torna ferramenta concreta de enfrentamento, pesquisa e estratégia. Esse aspecto singular do livro — o diálogo entre amor e conhecimento técnico — confere à obra uma dimensão rara, em que afeto e racionalidade caminham lado a lado.
Parte da história se desenrola na Amazônia, cenário que amplia o sentido de isolamento e desafio. Longe dos grandes centros urbanos, onde já começavam a surgir redes de apoio e mobilização, o casal precisou construir suas próprias alternativas. Essa experiência revela tanto a precariedade das políticas públicas naquele momento quanto a potência da autonomia e da solidariedade.
O livro também registra um capítulo importante da história do ativismo LGBTQIA+ no Brasil: a formação dos primeiros grupos organizados para enfrentar a epidemia, como o GAPA. Ao trazer essa memória à tona, Walter Neves contribui para uma historiografia afetiva e política que ainda está sendo consolidada na literatura brasileira. A luta contra o vírus aparece inseparável da luta contra o preconceito, contra o silêncio institucional e contra a invisibilização das relações homoafetivas.
O que sustenta Enquanto houver arco-íris, no entanto, é a força do vínculo entre os dois protagonistas. O livro não romantiza a dor, mas também não reduz a experiência ao sofrimento. Há medo, há perdas, há incertezas — mas há, sobretudo, insistência na vida. O arco-íris do título não é metáfora ingênua; é símbolo de resistência contínua, de esperança construída dia após dia.
Com escrita direta e emocionalmente honesta, Walter Neves entrega uma obra que dialoga com a memória coletiva da epidemia e com o presente da literatura queer brasileira. Enquanto houver arco-íris é um testemunho de amor e de coragem — um livro que lembra que sobreviver, amar e lutar podem ser, muitas vezes, o mesmo gesto.