Uma cela. Um homem. Vozes que o atravessam. Em E os cães se calaram, Aimé Césaire concentra a experiência histórica da colonização em um espaço fechado, onde o conflito não é apenas político, mas ontológico. A prisão que enquadra o Rebelde é concreta — mas também é metáfora do mundo colonial e de suas engrenagens de silenciamento.

Concebido inicialmente como drama histórico sobre a Revolução Haitiana e publicado em 1956, o texto abandona o recorte estritamente factual para alcançar uma dimensão mais abstrata e simbólica. O protagonista não tem nome próprio: é o Rebelde. Ele encarna a insurreição contra a escravidão e contra a lógica colonial, recusando qualquer pacto que normalize a violência. Ao seu redor, surgem figuras arquetípicas — a Amante, a Mãe — que tensionam sua escolha, evocando amor, memória, conciliação e dúvida.

A dramaturgia de Césaire é profundamente poética. O texto avança em cadências líricas, imagens intensas e diálogos que oscilam entre o íntimo e o épico. Não há naturalismo aqui: há condensação simbólica. A violência colonial não é descrita de modo documental; ela é sentida como ferida aberta na linguagem. O Rebelde confronta não apenas seus carcereiros, mas o peso histórico da opressão — e a solidão radical que acompanha toda decisão de ruptura.

Primeiro texto teatral de Césaire — escrito entre 1941 e 1956 —, a peça é também a última de sua dramaturgia a ser traduzida no Brasil, completando a disponibilização de sua obra dramática em edições nacionais. A presente edição traz tradução de Maria da Glória Magalhães dos Reis, Juliana Estanislau de Ataíde Mantovani e João Vicente, além de prefácio de Fernanda Murad Machado, que contextualiza as quatro versões do texto até sua publicação definitiva pela Présence Africaine. As aquarelas de Yhuri Cruz dialogam visualmente com a densidade trágica da peça, ampliando sua atmosfera de tensão e insurgência.

Figura central da negritude, Césaire escreve aqui um teatro que ultrapassa fronteiras nacionais. Embora nascido da memória haitiana, o drama ecoa em todas as geografias marcadas pela escravidão e pelo colonialismo. A pergunta que atravessa a obra é direta e incômoda: até que ponto é possível negociar com a injustiça sem se tornar cúmplice dela?

Em tempos de revisitação crítica do passado colonial e de seus efeitos persistentes, E os cães se calaram ressurge como texto incontornável. Não como peça de museu, mas como palavra que ainda fere, ainda convoca, ainda exige resposta.

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