Antes de ser livro, Dramas para negros e prólogo para brancos foi gesto. Foi estratégia. Foi resposta artística a um país que insistia em manter corpos negros fora do palco — ou confinados a papéis estereotipados. A reedição da obra, organizada por Abdias Nascimento, devolve à cena contemporânea um dos projetos dramatúrgicos mais decisivos do século XX no Brasil.

Publicada originalmente em 1961 e agora relançada pela Temporal Editora em parceria com o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, a coletânea celebra os 80 anos do Teatro Experimental do Negro (TEN) reafirmando sua força histórica. O volume reúne nove peças escritas especialmente para o grupo, compondo um repertório que articula criação estética e enfrentamento político.

O título já anuncia a tensão central. “Dramas para negros” não indica segregação, mas centralidade: trata-se de escrever a partir da experiência negra, com protagonismo negro, para um público historicamente excluído dos espaços de representação. “Prólogo para brancos” é convocação e confronto — um chamado para que a sociedade dominante escute, reveja e reconheça as estruturas que sustentam o racismo.

Entre os textos reunidos estão O filho pródigo, de Lúcio Cardoso; Sortilégio, mistério negro, de Abdias Nascimento, apresentado aqui em sua primeira versão; e Anjo negro, de Nelson Rodrigues. A diversidade autoral revela a amplitude do projeto do TEN: dialogar com diferentes matrizes dramatúrgicas sem abrir mão de uma perspectiva crítica sobre raça, identidade e poder.

A nova edição expande o alcance histórico da obra. Além das peças e do prólogo original, inclui textos inéditos que contextualizam a trajetória do TEN, escritos do próprio Abdias, perfis biográficos organizados pelo historiador Christian Moura, apresentação de Elisa Larkin Nascimento, prefácio de Leda Maria Martins e ensaio da coreógrafa Carmen Luz. Fotografias históricas de José Medeiros e Carlos Moskovics acrescentam dimensão documental ao conjunto, permitindo vislumbrar a materialidade das primeiras montagens.

O resultado é mais do que uma antologia: é um mapa de disputas simbólicas. Ao reunir textos escritos para um projeto teatral explicitamente antirracista, o livro evidencia como o TEN atuou na formação de atores, na revisão do repertório nacional e na construção de uma dramaturgia que confrontava o mito da democracia racial.

Ler Dramas para negros e prólogo para brancos hoje é perceber que suas questões permanecem urgentes. A reedição não é apenas comemorativa; é intervenção crítica no presente. Ao recolocar essas peças em circulação, o volume reafirma que o teatro pode ser arena de imaginação política — e que certas batalhas, iniciadas sob a luz do palco, continuam em curso fora dele.

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