Em A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, a literatura brasileira atinge um de seus pontos mais radicais e desconcertantes. Publicado originalmente em 1964, o romance permanece como uma experiência-limite — menos uma narrativa a ser compreendida do que um acontecimento a ser atravessado. Para a Revista Piparote, trata-se de um livro que não envelhece porque não se fixa: ele continua acontecendo a cada leitura, deslocando o leitor de suas certezas mais íntimas.
A trama é mínima, quase inexistente nos termos tradicionais. Uma mulher, identificada apenas pelas iniciais G.H., entra no quarto da empregada em seu apartamento e se depara com uma barata. O encontro, banal e repulsivo, desencadeia uma vertigem ontológica. A partir desse choque, o romance se converte em uma descida — ou talvez uma travessia — rumo à dissolução do eu, à perda das formas que sustentavam a identidade social, moral e linguística da narradora.
Clarice constrói aqui uma escrita de despersonalização. G.H. fala para não desaparecer, mas cada palavra que profere a afasta da figura humana que acreditava ser. O texto avança em espirais, repetições, hesitações e contradições, como se a linguagem precisasse ser continuamente desfeita para tocar algo anterior ao pensamento. Não se trata de introspecção psicológica, mas de uma experiência quase mística, xamânica, em que o sujeito é atravessado por forças impessoais — a matéria, o tempo, a vida nua.
Um dos aspectos mais perturbadores de A paixão segundo G.H. é sua recusa a qualquer conforto interpretativo. Não há redenção clara, nem mensagem moral, nem síntese conciliadora. O que existe é um confronto direto com aquilo que antecede e excede o humano. A barata — figura abjeta por excelência — funciona como portal para esse real sem forma, onde hierarquias simbólicas se desfazem e o sujeito se vê reduzido à condição de existência pura, sem adjetivos.
Essa radicalidade explica por que o livro atravessa gerações e segue inspirando releituras, como o filme A Paixão de G.H., dirigido por Luiz Fernando Carvalho e protagonizado por Maria Fernanda Cândido. Mas nenhuma adaptação esgota o romance, porque sua força não está na imagem ou na ação, e sim no efeito físico e mental da linguagem — “mais pelo que as palavras fazem do que pelo que dizem”, como afirma Mariana Lima em seu depoimento.
Ler A paixão segundo G.H. é aceitar um pacto arriscado: o de se deixar desorganizar. O livro exige do leitor não apenas atenção, mas disponibilidade para o fracasso, para a perda de sentido, para a suspensão das categorias com que costumamos nos proteger do mundo. Clarice escreve a partir do agora absoluto, desse “frêmito de eternidade que é o presente”, e nos convida a experimentar a vida não como narrativa coerente, mas como choque, matéria e transformação.