O rolê da foto aconteceu ao lado do primeiro monumento erguido em São Paulo, o Obelisco da Ladeira da Memória, levantado em 1814 na beira do riacho Anhangabaú. Ele fica numa pracinha de degraus curvados, chafariz e painel de azulejos. Até hoje ela existe, porém ninguém liga muito para ela.
Mas não foi sempre assim: nos anos 90 ela acolheu o point do pixo, quando o movimento começou a se desenvolver e irradiar. Em volta desse monumento, o Obelisco, que invoca proteção, a pixação floresceu. Sempre penso que a pixação ter se atraído por algo muito antigo não foi por acaso. Não parece acaso que uma cidade construída sobre a morte de quem já estava aqui tenha como pilar da sua identidade uma expressão que luta contra silenciamento. Para mim ela é uma das energias fundadoras da cidade, que esperou seus representantes para canalizá-la e assumir sua forma.
E então, sabendo dos riscos futuros, escolheu abrigar um de seus primeiros points em torno de um monumento que, segundo a simbologia, pede proteção contra os perigos.
Na manhã da foto, a energia protetora desse lugar que por muitos anos acolheu a pixação com certeza vibrou forte do Obelisco para o prédio, e guardou os que subiam nele.
Gosto de acreditar que a cidade protege quem luta para ter seu lugar. Pixação é inconformismo, visão de mundo, amizade. O encontro com esses significados importantes renova nosso propósito de estar aqui. Mais uma vez a Ladeira da Memória nos presenteou com uma boa lembrança.


Bruno Castro
(31 anos) é fotógrafo e leitor, residente no Centro de São Paulo. Nos últimos anos, tem se dedicado a documentar a história da pixação na cidade, registrando a atuação de pixadores em atividade e explorando as camadas visuais e sociais dessa expressão urbana. Além de seu trabalho fotográfico, estudou no mestrado (UNESP) a noção de "eu dividido", elaborada formalmente em À la recherche du temps perdu, de Marcel Proust, refletindo sobre memória, identidade e fragmentação no contexto contemporâneo.