Em A cura pela música, Daniel J. Levitin amplia um projeto intelectual já reconhecido: aproximar ciência rigorosa e experiência sensível para pensar a música não como adorno cultural, mas como força biológica e social profundamente enraizada na condição humana. O livro parte de uma premissa ao mesmo tempo ancestral e atual — a música como remédio — e a desenvolve com clareza, empatia e precisão científica.

Levitin demonstra que o uso terapêutico do som atravessa civilizações e épocas. De práticas rituais no Extremo Oriente e na África a tradições médicas do Império Otomano e das Américas pré-coloniais, a música sempre foi convocada para aliviar dores, organizar afetos e restaurar equilíbrios. O que este livro faz é reinscrever esse saber antigo no horizonte da neurociência contemporânea, mostrando como ritmo, melodia e harmonia atuam diretamente sobre o cérebro, o sistema nervoso e a regulação emocional.

A partir de estudos nas áreas da neurociência, da psicologia e da saúde, o autor explica de forma acessível — sem simplificações grosseiras — como a música pode auxiliar no tratamento de doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer, além de contribuir para a recuperação de lesões cognitivas, o manejo da dor e o cuidado com transtornos psicológicos. O mérito de Levitin está em articular dados empíricos, relatos clínicos e histórias humanas, evitando tanto o tom tecnocrático quanto o entusiasmo ingênuo.

Mais do que um manual de musicoterapia, A cura pela música é um livro sobre escuta. Levitin insiste que os efeitos terapêuticos da música não se reduzem a protocolos padronizados: eles dependem da história pessoal, da memória afetiva e da relação singular de cada indivíduo com os sons. A música que cura não é universal; ela é situada, encarnada, atravessada por experiências de vida. Nesse sentido, o livro defende uma ciência que reconhece a subjetividade como parte do processo de cura, e não como ruído a ser eliminado.

A escrita é clara, envolvente e atravessada por uma convicção humanista. Ao longo das páginas, a música aparece como instrumento de reconexão — com o corpo, com a memória, com o outro. Em um mundo marcado pelo excesso de estímulos e pela medicalização da vida cotidiana, Levitin propõe algo ao mesmo tempo simples e profundo: reaprender a ouvir como forma de cuidado.

Para a Revista Piparote, A cura pela música é uma leitura fundamental por mostrar como ciência e arte podem dialogar sem hierarquia, ampliando nosso entendimento do que significa saúde. Ao revelar os efeitos concretos da música sobre o cérebro e a vida emocional, Daniel Levitin nos lembra que curar não é apenas eliminar sintomas, mas restaurar vínculos — e que, entre esses vínculos, o som ocupa um lugar essencial.

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Pinterest
Telegram

NEWSLETTER: RECEBA NOVIDADES

© Copyright, 2026 - Revista Piparote
Todos os direitos reservados.
Piparote - marca registrada no INPI