Linguagem em ruínas, sujeito em colapso

Sobre A cantora careca e Vítimas do dever, de Eugène Ionesco – obras publicadas pela editora Temporal

Lidas em conjunto, A cantora careca e Vítimas do dever compõem um arco decisivo da dramaturgia de Eugène Ionesco, no qual a crítica à linguagem e a crise da subjetividade se articulam de forma progressiva. Se a primeira peça desmonta a comunicação cotidiana até expor seu vazio estrutural, a segunda aprofunda esse gesto, deslocando o absurdo do plano social para o íntimo, para a memória e para o próprio eu. Não se trata apenas de duas obras emblemáticas do chamado Teatro do Absurdo, mas de dois momentos complementares de uma mesma investigação radical: o que resta do humano quando a linguagem deixa de significar?

Em A cantora careca, peça inaugural escrita a partir de um exercício quase banal — o aprendizado de frases elementares em um manual de inglês —, Ionesco transforma o lugar-comum em catástrofe. O que deveria servir à comunicação revela-se um mecanismo de automatização do pensamento. Os diálogos entre os casais Smith e Martin, formados por clichês, truísmos e repetições vazias, não produzem sentido nem vínculo; produzem apenas ruído. A comicidade nasce do excesso de evidência: tudo é dito, mas nada é comunicado. O riso, aqui, é desconfortável, pois nasce do reconhecimento. O espectador se vê refletido nessa linguagem fossilizada que circula socialmente como se fosse natural.

Essa peça, frequentemente descrita pelo próprio autor como uma “tragédia da linguagem”, propõe uma crítica devastadora à ideia de que falar é, por si só, compreender. O colapso da comunicação arrasta consigo a identidade: os personagens tornam-se intercambiáveis, desprovidos de interioridade, reduzidos a funções discursivas. A ausência de uma “cantora careca” no palco não é um truque gratuito, mas um índice de um mundo em que os signos se autonomizam e já não remetem a nada além de si mesmos.

Já em Vítimas do dever, escrita poucos anos depois, o foco do absurdo se desloca. A linguagem continua falhando, mas agora o que está em jogo é a constituição do sujeito sob o peso da memória, da autoridade e da obrigação. A figura do policial que invade o espaço doméstico à procura de um homem de nome impreciso (“Mallot com um t”) inaugura uma investigação que rapidamente abandona qualquer lógica policial para se transformar em um processo de desintegração psíquica. O interrogatório deixa de buscar fatos e passa a escavar o passado, as lembranças fragmentadas, os traumas e as culpas.

Se A cantora careca expõe o vazio da fala social, Vítimas do dever encena a violência do dever como forma de coerção interior. Chubert, o protagonista, não é apenas interrogado; ele é moldado, desfeito e recomposto pelas exigências externas que se infiltram em sua subjetividade. A peça se aproxima, assim, de uma autoanálise dramatúrgica: muitos de seus elementos remetem diretamente à biografia de Ionesco, à infância marcada por conflitos familiares e ao sentimento persistente de inadequação. O absurdo, aqui, não é apenas uma estética, mas um método de sondagem existencial.

Lidas lado a lado, as duas peças revelam um movimento coerente: do esvaziamento da linguagem ao esvaziamento do eu. Em ambas, Ionesco recusa o drama psicológico tradicional e o modelo aristotélico de progressão narrativa. Em seu lugar, propõe um teatro que expõe estruturas — da fala, do poder, da memória — e mostra como elas aprisionam o indivíduo. Trata-se de um antiteatro que não busca consolar nem oferecer soluções, mas confrontar o espectador com a precariedade das certezas que sustentam a vida social e interior.

Em tempos marcados por discursos automáticos, protocolos de comportamento e uma inflação incessante de palavras, A cantora careca e Vítimas do dever permanecem perturbadoramente atuais. Mais do que documentos históricos de uma vanguarda do pós-guerra, essas peças continuam a operar como dispositivos críticos: desmontam a naturalidade da linguagem, revelam a violência contida no dever e expõem o riso como uma forma extrema de lucidez. Ler Ionesco hoje é aceitar esse convite incômodo: rir, sim, mas sabendo que, por trás do riso, há sempre um abismo.

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