Em livro publicado pela Editora da Unicamp, Maria Lúcia Dal Farra investiga as diferentes manifestações da transgressão feminina na literatura, das lendas medievais à produção contemporânea.

A figura da mulher transgressora atravessa a história literária sob diferentes formas, frequentemente associada à desobediência, ao erotismo e à ruptura com os valores estabelecidos. Em O maldito no feminino, publicado pela Editora da Unicamp em 2025, Maria Lúcia Dal Farra investiga como determinadas escritoras e personagens femininas passaram a ocupar esse lugar de marginalidade, construindo uma tradição literária marcada pelo confronto com as convenções sociais, morais e estéticas.

O estudo parte de duas lendas medievais galaico-portuguesas que apresentam representações antagônicas da mulher. A partir delas, a autora acompanha as transformações dessa figura ao longo das literaturas portuguesa, brasileira e africanas de expressão portuguesa, identificando diferentes manifestações do proibido e da transgressão. Trata-se de um percurso que não pretende estabelecer uma genealogia definitiva, mas compreender como a ideia de maldição literária se modifica conforme os contextos históricos e culturais.

O conceito de maldito, associado à tradição inaugurada por Baudelaire e retomada por Verlaine, constitui uma das referências centrais da investigação. Originalmente relacionado à condição do poeta marginalizado, incompreendido ou em conflito com os valores de sua época, o termo adquire outras implicações quando examinado a partir da experiência feminina. Nesse deslocamento, a transgressão deixa de ser apenas uma atitude estética e passa a envolver também as restrições historicamente impostas à expressão e à autonomia das mulheres.

Ao considerar o erotismo, a sexualidade, a religião e as relações de poder, Dal Farra demonstra a complexidade de uma categoria que não pode ser reduzida a uma única definição. O que se entende por maldição literária depende das circunstâncias em que determinada obra foi produzida, recebida e interpretada. A condição de transgressora, nesse sentido, revela tanto as particularidades da escrita quanto os mecanismos sociais responsáveis por estabelecer os limites do aceitável.

A investigação percorre diferentes períodos da história literária, aproximando obras e experiências que, embora distantes no tempo, permitem reconhecer certas permanências na representação do feminino. Ao mesmo tempo, evidencia as mudanças de sentido que acompanham essas manifestações, evitando tratar a transgressão como uma característica homogênea ou inerente à escrita das mulheres.

Poeta, ensaísta e pesquisadora, Maria Lúcia Dal Farra possui uma extensa trajetória dedicada aos estudos literários. Doutora pela Universidade de São Paulo e livre-docente pela Universidade Estadual de Campinas, integrou a equipe fundadora do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, ao lado de Antonio Candido. Professora titular da Universidade Federal de Sergipe, também desenvolveu atividades acadêmicas em instituições brasileiras e estrangeiras. Sua produção literária inclui poesia, ficção e ensaio, tendo recebido o Prêmio Jabuti de Poesia em 2012.

Com 448 páginas, O maldito no feminino propõe uma reflexão sobre os vínculos entre criação literária, experiência histórica e condição feminina. Ao recuperar manifestações do proibido em diferentes tradições de língua portuguesa, o livro amplia a compreensão da marginalidade literária e das formas pelas quais a escrita das mulheres confrontou, reinterpretou e transformou os valores de seu tempo.

O maldito no feminino
Autora: Maria Lúcia Dal Farra
Editora: Editora da Unicamp
Ano: 2025
Páginas: 448
ISBN: 978-85-268-1768-5

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