Em livro publicado pela Editora da Unicamp, Marcos Fábio de Faria investiga as relações entre dramaturgia, participação popular e democracia a partir de diferentes experiências do teatro brasileiro.

O teatro não se limita à representação dos conflitos sociais. Pode também constituir um espaço de organização coletiva, no qual a experiência cotidiana adquire dimensão política. É a partir dessa perspectiva que Marcos Fábio de Faria desenvolve Dramaturgias radicais: do personagem político ordinário à imaginação emancipatória, publicado pela Editora da Unicamp em 2025.

Ao examinar as obras de Augusto Boal, Nelson Xavier, Solano Trindade, Cidinha da Silva, Dione Carlos e Jé Oliveira, o autor propõe uma leitura da dramaturgia brasileira que considera tanto suas formas estéticas quanto suas possibilidades de intervenção na realidade social. O estudo aproxima diferentes gerações e experiências teatrais para discutir o lugar da criação artística na formação de uma consciência política coletiva.

Uma das ideias centrais do livro é a compreensão do teatro como arte assembleária. A escrita, os ensaios, os encontros e as apresentações constituem práticas de agrupamento que ultrapassam a relação convencional entre palco e plateia. Nesse sentido, a atividade teatral não apenas representa determinadas experiências históricas, mas também reúne sujeitos, estabelece vínculos e possibilita a elaboração coletiva de conflitos.

Dois conceitos orientam essa reflexão. O primeiro, o de personagem político ordinário, desloca a atenção das figuras tradicionalmente associadas ao exercício do poder para os sujeitos que participam da vida política fora das instituições formais. São personagens cuja atuação se desenvolve nas relações cotidianas, nos movimentos populares e nas diferentes formas de resistência social.

O segundo conceito, o de imaginação emancipatória, reconhece nas práticas estéticas e no imaginário popular uma dimensão fundamental da experiência democrática. A imaginação deixa de ser compreendida como simples afastamento da realidade para assumir uma função crítica: a de conceber outras possibilidades de organização da vida coletiva.

A escolha dos dramaturgos estudados permite observar como diferentes tradições do teatro brasileiro se aproximam da questão política. Das experiências de Augusto Boal e Solano Trindade às dramaturgias contemporâneas de Cidinha da Silva, Dione Carlos e Jé Oliveira, o livro reúne perspectivas que interrogam as relações entre representação, participação e transformação social.

Dramaturgo, escritor e professor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Marcos Fábio de Faria articula sua experiência de criação teatral à pesquisa acadêmica. Sua abordagem interdisciplinar procura compreender a dramaturgia não apenas como texto literário, mas como prática artística constituída por relações sociais, históricas e políticas.

Ao situar a imaginação popular no centro do debate sobre democracia, Dramaturgias radicais contribui para uma reflexão sobre as possibilidades políticas do teatro brasileiro. Mais do que identificar conteúdos de contestação nas obras estudadas, o livro procura compreender de que maneira a própria prática teatral pode produzir encontros, mobilizar experiências coletivas e ampliar os horizontes da participação política.

Dramaturgias radicais: do personagem político ordinário à imaginação emancipatória
Autor: Marcos Fábio de Faria
Editora: Editora da Unicamp
Ano: 2025
Páginas: 264
ISBN: 978-85-268-1732-6

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