Em Liberdade: uma doença sem cura, de Slavoj Žižek, publicado no Brasil pela Editora Civilização Brasileira com tradução de Vera Ribeiro, a ideia de liberdade — normalmente celebrada como valor incontestável — aparece como algo muito mais desconfortável. Para Žižek, a liberdade não é um estado tranquilo que se conquista e se mantém. É um problema permanente, uma tensão que nunca se resolve completamente.

O ponto de partida do ensaio é justamente a sensação contemporânea de que vivemos em sociedades que proclamam liberdade enquanto ampliam formas de controle. A vigilância digital, os algoritmos que moldam comportamentos e a administração permanente da vida cotidiana fazem com que a noção clássica de indivíduo autônomo pareça cada vez mais frágil. Nesse cenário, falar de liberdade torna-se quase paradoxal: somos incentivados a escolher o tempo todo, mas muitas dessas escolhas já estão previamente organizadas por estruturas econômicas e tecnológicas.

Žižek se move nesse terreno com o estilo que o tornou conhecido: uma mistura de filosofia clássica, referências culturais inesperadas e raciocínios provocativos. No mesmo argumento podem aparecer Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Søren Kierkegaard e Martin Heidegger ao lado de Wassily Kandinsky ou até da escritora Agatha Christie. Essa combinação, que às vezes parece caótica, faz parte do método do autor: deslocar conceitos filosóficos para lugares inesperados e, com isso, revelar contradições que normalmente passam despercebidas.

Nem sempre o percurso é confortável para o leitor. Žižek escreve como quem pensa em voz alta, saltando entre exemplos e hipóteses que às vezes parecem mais sugestões do que conclusões. Há momentos em que o argumento ganha clareza incisiva; em outros, o texto se aproxima de uma espécie de improviso intelectual. Essa irregularidade, porém, também faz parte do charme — e do risco — de sua filosofia.

O que emerge ao longo do livro é uma crítica à visão simplificada da liberdade como autonomia individual absoluta. Para Žižek, a verdadeira liberdade aparece apenas em momentos breves, quase instáveis, quando somos capazes de romper com estruturas que parecem naturais. O problema é que essas estruturas — sociais, econômicas, ideológicas — tendem a se reorganizar rapidamente, absorvendo a própria rebelião.

Nesse sentido, Liberdade: uma doença sem cura não oferece uma solução clara. Em vez disso, insiste que a liberdade é uma condição inquieta, que nunca se estabiliza completamente. Talvez por isso o título seja tão preciso: a liberdade é uma espécie de doença crônica da vida social. Não desaparece, mas também nunca se resolve.

Num tempo em que discursos sobre autonomia e escolha circulam com enorme facilidade, o livro de Žižek funciona menos como manual de libertação e mais como exercício de desconfiança. Ao final, fica a impressão de que compreender a liberdade exige aceitar sua dimensão incômoda — e talvez seja justamente nesse incômodo que ainda exista algum espaço para pensar o futuro.

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