Tidas e havidas por feiticeiras: mulheres pretas e mestiças acusadas de feitiçaria nas Minas Gerais colonial, de Giulliano Gloria de Sousa, publicado pela Editora Fino Traço, lança luz sobre um capítulo pouco explorado da história colonial brasileira: a perseguição sistemática a mulheres negras e mestiças acusadas de práticas mágicas nas Minas Gerais do período colonial.

Partindo de documentos históricos, processos inquisitoriais e registros eclesiásticos, o autor investiga como a acusação de feitiçaria se tornou um instrumento de controle social e racial. A maioria das denúncias recaía justamente sobre mulheres negras — muitas delas escravizadas ou vivendo em condições precárias de liberdade. A associação entre feitiçaria, corpo feminino e negritude não era casual: ela refletia um imaginário profundamente marcado por misoginia, racismo e pela tentativa de disciplinar práticas culturais que escapavam ao controle da Igreja e da ordem colonial.

O livro mostra que essas acusações não podem ser entendidas apenas como superstição ou paranoia religiosa. Elas fazem parte de uma estrutura de poder que buscava enquadrar comportamentos, crenças e formas de conhecimento que vinham das tradições africanas ou de práticas populares sincréticas. Ao serem rotuladas como “feiticeiras”, essas mulheres eram transformadas em alvo de vigilância e punição, reforçando as hierarquias raciais e de gênero da sociedade colonial.

Ao mesmo tempo, a pesquisa revela algo fundamental: muitas dessas práticas atribuídas às acusadas tinham papel importante na vida cotidiana das comunidades. Rituais, rezas, benzeduras e conhecimentos sobre cura e proteção espiritual funcionavam como formas de cuidado coletivo, mas também como estratégias de sobrevivência econômica e de afirmação de autonomia. Em certos casos, essas atividades permitiam às mulheres negras conquistar prestígio social e algum grau de mobilidade dentro de um sistema profundamente desigual.

Um dos méritos do trabalho de Giulliano Gloria de Sousa é justamente evitar uma leitura simplificadora. O autor não romantiza as práticas mágico-religiosas, nem reduz as personagens históricas à condição de vítimas passivas. Ao contrário, ele evidencia a complexidade dessas trajetórias, mostrando como as mulheres negras negociavam, resistiam e reinventavam suas possibilidades de ação dentro das estruturas opressivas do mundo colonial.

Tidas e havidas por feiticeiras contribui, assim, para uma história social que coloca no centro sujeitos historicamente silenciados. Ao recuperar essas histórias de perseguição, saber e resistência, o livro amplia nossa compreensão sobre as relações entre gênero, raça, religião e poder no Brasil colonial — e lembra que muitas formas de conhecimento popular sobreviveram justamente porque foram mantidas por mulheres que, mesmo sob suspeita e perseguição, continuaram a exercer seus saberes.

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Pinterest
Telegram

NEWSLETTER: RECEBA NOVIDADES

© Copyright, 2026 - Revista Piparote
Todos os direitos reservados.
Piparote - marca registrada no INPI