No início do século XX, o mundo parecia abrir-se para o feminino. A primeira onda do feminismo apresentava um futuro que possibilitava às mulheres se tornarem semelhantes aos homens. Virginia Woolf, estando inserida neste contexto, publica então um de seus principais livros, Um Teto Todo Seu (1929). Até aquele momento, pouco se falava do papel da mulher na literatura, até porque poucas tinham tido o privilégio de participar abertamente na produção literária. A ficção é, mesmo tendo a imaginação como seu elemento essencial, uma representação da realidade. A mulher que escreve sobre si consegue, portanto, representar os impasses femininos de maneira mais fidedigna do que quando um homem a descreve. No entanto, para poder escrever, ou se consolidar em qualquer profissão, a mulher, para Woolf, precisa de condições materiais e simbólicas; precisam de um teto todo seu: “Mas essa liberdade é só o começo; o quarto é de vocês, mas ainda está vazio. Precisa ser mobiliado, precisa ser decorado, precisa ser dividido.” A ideia de um quarto vazio, que pode ser composto de maneiras infinitas, é a libertação das imposições de um mundo construído pelo e para o homem.
A esperança da libertação feminina, de conseguir se assemelhar ao homem, é quebrada quando percebe-se a continuação da mulher como secundária. Em 1949, Simone de Beauvoir publica seu livro O Segundo Sexo, no qual reconhece que mesmo com os avanços que iriam reduzir as desigualdades, a mulher permanece sendo o Outro, presa a uma construção de limite social, histórica e estrutural. O quarto precisava ser mobiliado, mas como fazer isso sem se influenciar com o passado? Para Beauvoir, não há possibilidade quando a mulher, diferentemente de outros grupos minoritários, se mantém aliada ao seu opressor e, por se tornar uma mulher baseada nos moldes pré-definidos, dificilmente cria o seu próprio quarto, enchendo-o de móveis emprestados, enquanto não toma consciência de sua condição:
“Um homem não teria a ideia de escrever um livro sobre a situação singular que ocupam os machos na humanidade. Se quero definir-me, sou obrigada inicialmente a declarar: ‘Sou uma mulher.’” (Segundo Sexo – Vol. 1: Fatos e Mitos, p. 11)
No ensaio Profissões para mulheres, de 1931, Virginia Woolf apresenta a figura do ‘anjo do lar’, que deve ser combatido pela mulher profissional para que ela possa avançar: “E o fantasma era uma mulher, e quando a conheci melhor, dei a ela o nome da heroína de um famoso poema, ‘O Anjo do Lar’. Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel quando eu fazia as resenhas.” (Profissões para mulheres, p. 11) Este fantasma que assombrou Virginia, a mantinha no papel de mulher afável e meiga, a impedindo, então, de expressar a sua opinião própria. Este mesmo abantesma é entendido por Beauvoir como a confinação da mulher à repetição e à imanência, impossibilitando-a de se rebelar, mantendo-a como complemento do sexo universal.
Nota-se que a escrita é um importante vetor de recriação do sujeito entendido como secundário, em ambas as autoras aqui observadas. Para a orientação das mais jovens, para a ponderação das oportunidades até então oferecidas às mulheres, e para compreender como ser mulher impacta a vida privada e pública, só cabe a escrita como espaço de reflexão, que ainda não parecia ter sido apropriada pelas mulheres: “É impressionante que em seu conjunto a literatura feminina seja menos animada em nossos dias por uma vontade de reivindicação do que por um esforço de lucidez.” (Segundo Sexo – Vol. 1: Fatos e Mitos, p. 25).
Com tanto entrelaçamento entre uma teoria e outra, não poderia aqui chegar a outra conclusão senão a de que ambas entendem que a libertação da mulher, construída social e culturalmente, não se reduz ao seu destino biológico que muitos utilizam como argumento para a sua submissão. Tanto para Woolf quanto para Beauvoir a autonomia econômica é a oportunidade principal para conseguir a independência e a liberdade de escolha. O momento histórico se mostrava apto a deixar as mulheres tomarem os seus destinos pela mão e assumirem os desafios para se libertarem. Em qualquer das profissões as mulheres estão mais próximas de assumirem o papel de sujeito e não de Outro, pois expandem os limites da sua situação, antes resumida ao lar.
Sophia Nascimento
Estudante e pesquisadora da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, dedica seu trabalho a Estudos Literários, com enfoque nas obras que representam a vivência feminina.