Em Améfrica, do Coletivo Legítima Defesa, publicado pela N-1 Edições, a dramaturgia brasileira contemporânea afirma-se como espaço de disputa histórica, imaginação política e reconstrução da memória. O livro não é apenas um registro textual de uma experiência cênica, mas um gesto crítico que confronta diretamente os apagamentos estruturais da formação cultural brasileira e propõe novas formas de narrar — e de existir — a partir de uma perspectiva afroindígena.

O ponto de partida de Améfrica dialoga com um diagnóstico já clássico formulado por Beatriz Nascimento: a história do Brasil foi majoritariamente escrita por mãos brancas, o que implica a exclusão sistemática das experiências, epistemologias e cosmologias negras e indígenas dos registros oficiais. O que o Coletivo Legítima Defesa realiza aqui é uma resposta estética e política a essa lacuna — não no plano da correção historiográfica, mas no da criação de uma memória insurgente, que se constrói pela cena, pela palavra e pelo corpo.

A dramaturgia reunida em Améfrica se inscreve na tradição de retomada inaugurada por Abdias Nascimento e pelo Teatro Experimental do Negro, mas atualiza esse legado ao incorporar debates contemporâneos sobre autorrepresentação, linguagem e fabulação política. Aqui, o teatro não é apenas representação, mas campo de elaboração coletiva de futuros possíveis, onde o direito de narrar a si mesmo deixa de ser concessão e passa a ser fundamento.

O conceito de amefricanidade, elaborado por Lélia Gonzalez, atravessa o livro como eixo estruturante. Améfrica não se refere apenas a uma fusão geográfica ou identitária, mas a um modo de pensar e sentir o mundo que reconhece a centralidade das matrizes africanas e indígenas na constituição das Américas. Ao trazer à cena os processos históricos, culturais e políticos dessa formação, o coletivo articula passado, presente e futuro sem recorrer à nostalgia ou à idealização: trata-se de um trabalho de investigação crítica, que expõe feridas, violências e continuidades coloniais, mas também celebra estratégias de sobrevivência, invenção e aquilombamento.

O texto de apresentação de Roberta Estrela D’Alva sintetiza com precisão o gesto do livro ao afirmar que registrar essa dramaturgia é criar uma memória que se dirige contra o esquecimento. A palavra “aquilombar”, aqui, não é metáfora vazia: ela nomeia um procedimento estético e político. As palavras se juntam como corpos em resistência, formando um arquivo vivo que escapa às lógicas hegemônicas de validação cultural.

Para a Revista Piparote, Améfrica é um livro fundamental. Ele demonstra como a dramaturgia pode operar simultaneamente como arte, pensamento e ação política, expandindo os limites do texto teatral e reposicionando a literatura no centro das lutas por memória, linguagem e futuro. Em um país ainda marcado pela negação de suas origens afroindígenas, Améfrica afirma que escrever — e encenar — é também um modo de existir contra o apagamento.

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